01 Novembro 2024
"É preciso admitir que essas formas de silêncio não nos são estranhas: o importante é ter consciência delas e, ao mesmo tempo, estar preparados para lutar para transformá-las naquele silêncio vital do qual brotam uma vida e uma palavra cheia de sentido", escreve o monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado em La Stampa, 26-10-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Uma peregrinação ou um passeio pelas terras do silêncio: é isso que Anne Le Maître nos oferece com Un grande desiderio di silenzio (Um Grande Desejo de Silêncio). Le Maître não fala de silêncio recorrendo à literatura, não conta os vários silêncios positivos ou negativos que conhecemos no nosso ofício de viver, mas confessa como vivenciou a busca e a experiência do silêncio. O itinerário que a autora propõe começa com a relação entre cada um de nós e o silêncio: o barulho ensurdecedor que nos cerca, o desejo de silêncio como um sentimento que emerge da vida interior, a relação entre silêncio como jejum de palavras e o jejum do corpo.
Livro "Un grande desiderio di silenzio" de Anne Le Maître
Essa análise nos permite entender e discernir o silêncio autêntico e fecundo que não teme a solidão, porque vive o habitare secum, o habitar em si mesmos. Certamente, o silêncio se aprende vivendo como uma verdadeira arte: é a eloquência do não dito, do espaço em branco entre as palavras escritas, é a negação do mutismo porque pode ser escutado. Mas Anne Le Maître não se limita à dimensão pessoal do silêncio e, na última parte do livro, coloca o silêncio como uma necessidade na relação com o outro, com os outros. Aquele silêncio que torna a possível comunicação e abre caminhos de comunhão, aquele silêncio que não apenas percebe a presença do outro e do Outro, mas permite ver o invisível.
Anne Le Maître sabe que, ainda hoje, há homens e mulheres que escolhem uma vida na qual o silêncio é o que molda sua vida cotidiana: são, principalmente, pessoas orantes que gostam de se levantar antes do amanhecer, quando o céu e a terra estão imersos em profundo silêncio, para ouvir a palavra de Deus e tentar guardá-la em seus corações. Esse silêncio é um louvor a Deus, como diz o Salmo (cf. Sl 65,2), um canto que não pode ser ouvido, mas que é o canto do universo.
Os monges e as monjas trabalham, comem, bebem e descansam, mas sempre dando ao silêncio uma hegemonia que não é apenas o ritmo do tempo, mas é a possibilidade de ver, escutar, sentir em plenitude tudo o que se encontra, porque toda criatura tem uma voz (cf. 1Cor 14,10). É claro que para os monges há lugares de silêncio: a cela, o deserto, o bosque, o claustro... mas cada um de nós pode encontrar terras e lugares de silêncio.
E há outros, conclui Anne Le Maître, trabalhadores solitários, caminhantes e peregrinos taciturnos, pesquisadores debruçados sobre suas bancadas, artistas que geram arte no silêncio. A prática do silêncio é sua forma de estar no mundo. “O que seria de nós sem esses orantes, esses meditadores, esses trabalhadores solitários ... verdadeiras sentinelas?”, questiona-se Anne Le Maître e pergunta isso em nome de seus leitores.
Em nossos dias, somos invadidos por palavras, barulhos ensurdecedores, conversas, a ponto de a poluição sonora estar agora listada entre os problemas ecológicos. Além disso, na sociedade cacofônica em que vivemos, a palavra se tornou uma ferramenta quase obrigatória para a autoafirmação e a autocelebração, mesmo à custa de assumir formas bastante agressivas e capazes de ferir: “palavras como armas”, como foi dito com razão. Portanto, pode-se entender por que muitos sentem a necessidade de silêncio, ou seja, gostariam de aprender a ficar em silêncio para redescobrir a beleza do silêncio e, ao mesmo tempo, a beleza de formas não verbais de comunicação. Ficar em silêncio é equivalente a jejuar verbalmente, e o silêncio é comparável ao jejum físico, ambos saudáveis quando o exigem o corpo e a psique, ou seja, toda a pessoa humana.
Mas devemos nos perguntar francamente: o que é o silêncio? A primeira dificuldade consiste justamente em falar sobre ele, uma vez que o silêncio só é realmente compreendido quando vivenciado na solidão; além disso, é elementar, mas essencial, lembrar que o silêncio não é uma realidade igual para todos e, para uma mesma pessoa, pode mudar com as diferentes épocas da vida.
Além disso, quando se examina as profundidades do silêncio, descobre-se que o silêncio não é primordialmente uma experiência espiritual; na verdade, pode até ser um impedimento para ela. O silêncio é uma experiência humana, e cada pessoa de fato conhece vários silêncios no decorrer de sua vida, silêncios no plural, que em alguns casos podem ser considerados positivos e necessários, enquanto em outras ocasiões são rejeitados como negativos e mortíferos. O silêncio, portanto, não é um bem em si, nem um bem absoluto, mas só pode encontrar justificativa e sentido sob certas condições, somente quando é vivido com consciência e orientado para um fim, um propósito.
Não passa despercebido a um olhar atento o fato de que os valores positivos do silêncio só podem ser totalmente compreendidos se tivermos a coragem de encarar primeiro o seu lado negativo.
Uma realidade constitutivamente ambígua, o silêncio pode de fato ser sem vida, pode assumir a forma de um mutismo que impede e rejeita a comunicação. A rejeição da comunicação humilha a palavra e o próprio silêncio, acaba por encerrar o homem em uma espécie de prisão. Essa é uma patologia que, não por acaso, se manifesta quando o equilíbrio psíquico é gravemente danificado; qualquer um que tenha podido conhecer o abismo do mutismo em pessoas atingidas pela loucura sabe o que significa essa forma de “não” à comunicação: é uma rejeição da vida!
Mas há também um silêncio mau, maldoso, que se alimenta de raiva e de ódio. Elias Canetti escreveu justamente sobre isso: “Alguns conseguem sua maior maldade no silêncio...”.
O juízo negativo sobre o outro, o desprezo pelo outro, o desejo - alimentado e “cuidado” todos os dias - de não ter outra pessoa na frente ou ao lado de si, porque sua diversidade nos incomoda, a torna nossa inimiga: não a cumprimentamos, não lhe dirigimos uma palavra, a tratamos como se já estivesse morta! Não há necessidade nem mesmo de chegar à hostilidade aberta; essa hostilidade surda e muda é muito mais perversa. Não é essa a realidade que às vezes habita o cotidiano das nossas famílias e das nossas comunidades?
Outra forma de silêncio negativo é a autoilusão: um silêncio guardado para preservar a autoimagem que se tem de si mesmos do confronto com a realidade e com os outros. Isso se traduz em formas de vida “autistas”, cuja representação mais eficaz é a de um deserto povoado por fantasmas que acabam por dominar obsessivamente o desafortunado... De fato, o silêncio pode se tornar um lugar de desespero, uma forma de angústia: silêncio às vezes imposto pelo algoz à sua vítima, às vezes escolhido livremente por aqueles que percorrem trilhas mortíferas.
Com grande realismo, é preciso admitir que essas formas de silêncio não nos são estranhas: o importante é ter consciência delas e, ao mesmo tempo, estar preparados para lutar para transformá-las naquele silêncio vital do qual brotam uma vida e uma palavra cheia de sentido.
Aqueles que empreendem essa luta aos poucos acabam percebendo que também existem silêncios positivos, irrenunciáveis. Em primeiro lugar, o silêncio que respeita a palavra do outro, mas também o silêncio escolhido com a consciência de que “há um tempo de calar e um tempo de falar” (Ecl 3,7).
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