07 Agosto 2024
Ambrosio é autor do irreverente livro "Per una morale contemporanea: critica della moda pura” (Por uma moral contemporânea: crítica à moda pura, em tradução livre). Mas ele também é um padre dominicano, especialista em sufismo otomano, professor de história e teologia das religiões na Escola de Religião de Luxemburgo e pesquisador na College de Bernardins de Paris.
A entrevista é de Paola Pollo, publicada por Corriere della Sera, 06-08-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
É uma tarde romana quente e Alberto Fabio Ambrosio está usando um impecável terno azul transpassado. Mas por que não o hábito branco?
Teria sido fácil demais. Eu sempre fico irritado, mesmo com meus coirmãos, há momentos e momentos para usá-lo. Desfiles inúteis não servem para nada. Nos primeiros anos, quando era diácono, eu também o usava, mas agora me libertei. Não é necessário estar sempre se prevenindo e se enquadrar.
Simplificando, permita-me dizer: desculpe, mas o que você está fazendo aqui?
Não foi Deus quem criou o primeiro vestido para Adão e Eva? Na Bíblia, a dimensão do Deus alfaiate é muito desenvolvida. Como dominicano, foi quase instintivo ter essa abordagem. Não de um ponto de vista técnico, eu não teria condições. Não cito nomes nem entro no mérito das tendências. Eu não queria entrar na arena e ser um moralista.
Realizei 20 anos de pesquisa sobre o Islã místico turco e há mais de cinco anos me dedico a pesquisar as interações entre moda e religião, entre vestuário e sagrado, e por isso coordeno um seminário de pesquisa em Paris, onde moro, e uma equipe de pesquisadores em Luxemburgo.
Sua história, então, antes de falar de moda.
Nasci na região das Marcas, em Fano, em 1971. Mas fui criado em Milão, no Bande Nere, um bairro popular. Meu pai faleceu cedo e minha mãe criou eu e mais dois irmãos. Ela era costureira.
Aí está a conexão: uma mãe costureira.
Quando ela morreu, vieram à tona as lembranças da casa sempre cheia de roupas com etiquetas de marcas importantes e de minhas idas ao armarinho para comprar linhas e outras coisas. Eu tinha me tornado muito bom nisso, costumava circular nesses lugares sabendo e conhecendo tudo: dos botões às linhas. E sim, acho que o dia em que propus um projeto de pesquisa sobre moda e teologia estava de alguma forma ligado a ela e ao resgate daquelas lembranças.
E quando veio o chamado de Deus?
No quarto ano, veio a vocação. Eu sabia que me tornaria um frade dominicano. Frequentava Santa Maria delle Grazie e sentia algo forte. Os livros sempre foram importantes para mim. Eu costumava ir à biblioteca para me preparar para o exame de conclusão. Entrei no seminário em Pádua e estudei grego, latim e filosofia. Foi o ano mais exigente da minha vida. O noviciado em Fiesole foi um passeio no parque, lendo e rezando. Primeira consagração em Bolonha, aos 25 anos fiz meus votos.
Nunca teve dúvidas sobre a vocação?
Nunca. Ao crescer, talvez você se faça mais perguntas, mas dúvidas não. Em 1997, fui ordenado diácono e fiz uma viagem que me marcou, a Jerusalém. Conheci um biblista e descobri o Islã. Voltei e pedi para ir para a Turquia. Estudei árabe na Universidade de Estrasburgo e fiz um doutorado na Sorbonne em história moderna e outra graduação em teologia. Depois vim para Istambul, onde fiquei por onze anos e escrevi muitos livros.
Você sabe que é difícil acompanhá-lo?
Eu sei. Tudo sempre parece demais. E às vezes algumas pessoas não acreditam!
Uma espécie de inteligência artificial... humana!
Eu não sei. Tudo o que sei é que sou muito sensível e me sinto mal quando vejo ceticismo. Mas estou feliz com o que faço. Em Istambul, dei aulas, viajei, estudei e escrevi livros. Depois voltei para a França para fazer minha habilitação em Metz e, em 2016, pediram-me para ficar em Paris. Eu tinha um quarto no convento e o diretor da faculdade me ofereceu um cargo de pesquisador. Dois anos depois, a moda voltou a entrar em minha vida como um legado espiritual. Em janeiro de 2018, comprei uma edição da Vogue....
Um padre dominicano comprando a Vogue?
Eu estava com um amigo e, depois de rezar a missa, entrei em um quiosque de jornais em Luxemburgo e meu olhar caiu nela. Meio escondido, sim, mas comprei. Embora minha mãe costumasse ler Grazia. Enfim, em 2018 assinei a Vogue, e foi uma fase. Iniciei o projeto de pesquisa em Luxemburgo e em 2019 o seminário em Paris sobre moda. Em 2020, o primeiro livro, Dio tre volte sarto: moda, Chiesa e teologia e depois continuei com Moda e religioni: vestire il sacro, sacralizzare il look, e Il vangelo delle vanità: moda e spirito. Depois, fechei o círculo com Critica della moda pura.
Um livro, o último de quatro sobre o tema, em que a ética e a moral parecem ter se perdidos na moda, quintessência, você escreve, do capitalismo, bem como causa de vergonha social e de idolatria estética.
Tudo o que fiz foi cruzar as sensações. Durante meses, acompanhei uma empresa, observei e fiz perguntas. Entendi muitas coisas lá. Entendi que a vergonha está na base do consumismo capitalista, porque se alavanca no fato de que a falta de uma determinada aparência é percebida como vergonhosa e o único remédio é a compra, que ilude poder extinguir a discrepância. Assim, a vergonha de não se sentir na moda é a nova culpa atribuída ao sistema da moda. Luxo ou fast fashion no fim sempre conduzem a isso.
O senhor também fala de moda "feminicida". Não é um termo muito forte?
É um extremo, é claro, de que outra forma se poderia defini-la? Não tem sempre como alvo o corpo da mulher para poder dirigir o mercado?
E sobre a narrativa da moda verde que não é verde...
Não é suficiente falar sobre cadeia de suprimentos certificada, não há apenas o onde, mas também o como e por quem. Para os materiais funciona, embora eu duvide que todas as etapas possam ser controladas, mas quanto às condições de trabalho, quem supervisiona? Nos campos, nas fazendas: as pessoas, as condições, os salários. Duvido muito que tudo isso seja sempre monitorado.
Mas, no fim, também encontra o caminho da redenção com a ética do cuidado.
Você tem que encontrá-lo, obrigatoriamente. Por isso, eu proponho um ideal de moda que seja a ética do cuidado, mas que comece por nós. Atenção, cuidado com o que já possuímos. Portanto, também reflexão sobre o que não precisamos.
Você veste um impecável terno que parece ter acabado de sair da alfaiataria.
Cresci com uma mãe costureira, conheço e sempre faço muitas perguntas sobre o que gostaria de comprar. E sim, 'confesso', gosto de roupas bonitas, bem cortadas. E tenho várias. Entretanto, batina ou blazer transpassado, sinceramente não vejo diferença. Continuo sendo quem sou e nunca serei grato o suficiente por ver o mundo com os olhos de um religioso.
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