Uma proposta pragmática. Negociar para sair da guerra na Europa

Foto: President Of Ukraine

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02 Abril 2024

Supondo que Putin não tenha objetivos imperiais sobre a Europa, mas queira manter uma espécie de cordão de segurança à sua volta, a ideia seria pedir-lhe que em troca reconhecesse a independência do Kosovo.

Na newsletter de 25 de março da revista Il Mulino, retomamos a proposta formulada por Patrizio Fondi, ex-embaixador da União Europeia nos Emirados Árabes Unidos e embaixador italiano na Jordânia, para uma negociação que visa pôr fim à guerra na Ucrânia.

O texto é de Patrizio Fondi, publicado por Chiesa di tutti chiesa dei poveri, 27-03-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

“Tomemos o conflito em curso na Ucrânia… Existe uma atitude, que poderíamos definir como atlantismo pragmático, segundo a qual – embora considerando correto o fornecimento de meios militares a Kiev para lhe permitir defender-se – acredita-se que Putin não tenha necessariamente objetivos imperiais sobre a Europa, mas queira basicamente limitar-se a manter uma espécie de cordão de segurança à sua volta, não aceitando uma excessiva influência militar e econômica dos EUA na Ucrânia (corredor utilizado por Napoleão e Hitler para tentar a invasão da Rússia) e, presumivelmente, na Moldávia e na Geórgia, impedindo ao mesmo tempo a sua adesão à OTAN. Daí a necessidade de explorar com tenacidade e convicção a possibilidade de sentar o mais rapidamente possível à mesa para discutir os respetivos interesses de segurança, tendo já deixado claro a Putin que não pode usar a violência impunemente. Tal abordagem pragmática permaneceu infelizmente minoritária até hoje, o que não nos permitiu dar uma verdadeira “chance” à hipótese de uma negociação séria e firme, eventualmente mesmo durante as hostilidades (como aconteceu, por exemplo, no caso vietnamita).

“Para dar concretude ao tipo de negociação que tenho em mente, tomarei o caso da Crimeia. Receio - tal como muitos outros observadores - que muito dificilmente será recuperada por Kiev, mas também acredito que, em tal caso, Putin não deveria obtê-la gratuitamente. Durante as negociações, poderia, portanto, ser oportuno ligar o reconhecimento da anexação russa da península disputada ao reconhecimento por parte de Moscou da independência do Kosovo, por três razões: o ditador russo referiu-se por vezes à criação da entidade kosovar como exemplo de não respeito por parte do Ocidente do princípio da imutabilidade das fronteiras na Europa, justificando assim a sua tomada da Crimeia; além disso, tal reconhecimento cruzado também encorajaria outros países que não reconheceram o Kosovo, em particular a Sérvia, a reverem a sua posição no tempo, eliminando assim uma ferida infectada, potencialmente precursora de conflitos nos Balcãs; por último, dado que Kiev está destinada a aderir à UE no futuro, o forte interesse europeu na estabilidade do quadrante dos Balcãs tornar-se-ia automaticamente parte também do interesse nacional ucraniano e, portanto, a amputação daquela porção de território adquiriria um sentido geopolítico até para os ucranianos, que em troca teriam mais segurança diante da perda territorial sofrida.

“Dessa perspectiva pragmática – deixando de lado por brevidade a inércia que causou o fracasso dos Acordos de Minsk de 2015 – o primeiro momento em que se podia tentar dar espaço a uma postura negocial poderia até ser considerado, segundo alguns, o período anterior ao ataque russo de fevereiro de 2022, quando Moscou apresentou um pacote de pedidos escritos (resumindo, a promessa ocidental de não deixar a Ucrânia aderir à OTAN e de não instalar determinados materiais militares nos países da Aliança adjacentes à Rússia) e os EUA decidiram nem sequer discuti-los, considerando-os excessivos e inadmissíveis. Agora, na diplomacia, sabe-se que muitas vezes se pede 100 para obter 10 e, portanto, pode ser oportuno pelo menos sentar-se a uma mesa para verificar se e o quanto é flexível o interlocutor em relação às suas demandas iniciais. Isso não foi nem minimamente feito.

“A segunda oportunidade, mais relevante, apresentou-se na primavera de 2022, quando a inesperada e eficaz resistência ucraniana colocou o exército de Putin em sérias dificuldades. Segundo muitos, aquele era o momento certo para fazer notar ao ditador ex-KGB, a partir de uma posição de vantagem, que temos condições de lhe causar muitos danos se ele usar a violência, convidando-o a negociar para encontrar uma solução, talvez no contexto mais amplo de uma arquitetura de segurança geral, a que Moscou muito preza. Frequentemente ouvimos a objeção de que Putin não estaria disposto a negociar, mas na realidade a verdadeira questão é entender quem lhe deveria fazer a oferta para se sentar a uma mesa. Bem, certamente não os países europeus, dado que Moscou afirmou repetidamente que considera os EUA como seu interlocutor. Isso porque, evidentemente, as prioridades russas são a redução daquela que consideram uma excessiva influência militar e econômica estadunidense na Ucrânia, bem como a discussão sobre a segurança em nível estratégico.

“É claro que só Washington pode enfrentar tais aspectos cruciais e até agora – enquanto os europeus fizeram viagens inúteis e frustrantes a Moscou, não tendo muito para oferecer – o presidente dos EUA nunca contatou Putin para propor uma negociação em que os Estados Unidos estariam ao lado da Ucrânia juntamente com os europeus e outros eventuais mediadores, como a Turquia, Israel ou a China (o nosso Draghi timidamente sugeriu a Biden que fizesse uma ligação para Putin, mas apenas obteve o irrelevante telefonema do Chefe do Estado-Maior dos EUA para sua contraparte).

Portanto, até hoje não sabemos qual seria a reação russa a tal possível oferta. Não só isso, segundo o que foi revelado pelo então primeiro-ministro israelense Naftali Bennet numa entrevista disponível on-line, ucranianos e russos teriam alcançado justamente naquele período, com a ajuda de mediadores, um acordo geral centrado na neutralidade de Kiev semelhante àquela austríaca (portanto, provavelmente equilibrada pela adesão à UE), bloqueada, no entanto, por Boris Johnson em nome dos anglo-saxões, desencorajando Zelensky a continuar naquela tentativa e causando seu naufrágio. Circunstância também confirmada por fontes turcas, russas e até ucranianas. Em essência, prevaleceu aquele "pensamento mágico" irracional e inexplicável – criticado por vários cientistas políticos – segundo o qual sendo Putin o bandido da vez, os mocinhos venceriam de qualquer maneira (esquecendo, aliás, que na sua época se tratava com a URSS, embora tivesse invadido a Hungria e a Tchecoslováquia e internasse os dissidentes nos campos de concentração e nos hospitais psiquiátricos).

“Vamos voltar para o momento atual. É evidente que – depois do fracasso da contraofensiva ucraniana, os sintomas de cansaço dos aliados de Kiev e da retomada da iniciativa por parte de Moscou – é agora muito mais difícil fazer decolar uma negociação, não só porque agora 20% do território ucranianos está nas mãos dos russos, mas também porque Biden está em campanha eleitoral (e, portanto, ainda menos inclinado a ser visto como conciliador em relação a Putin) e a Rússia no momento tem menos interesse em aceitar uma negociação sabendo que Trump poderá voltar à Casa Branca, de quem espera obter mais concessões. Então, o que fazer enquanto se esperam as eleições nos EUA? Certamente continuar a ajudar militarmente a Ucrânia para impedir a perda de mais territórios ou pelo menos o colapso do país, mas paralelamente preparar seriamente o terreno para uma saída diplomática, como sugerido com autoridade no último 5 de março na revista "Foreign Affairs" por Samuel Charap e Jeremy Shapiro (respectivamente da Rand Corporation e do Conselho Europeu de Relações Exteriores, órgãos de pesquisa de prestígio certamente não suspeitos de pró-putinismo).

“Os dois cientistas políticos acreditam que a ausência de qualquer forma de diálogo impossibilita a compreensão das reais intenções do adversário, perpetuando uma guerra em que todos perdem de uma forma ou de outra. A desconfiança entre as partes opostas – típica de qualquer conflito – pode e deve ser desmontada por sinais concretos que, embora não cessem imediatamente as hostilidades, sejam capazes de mudar a atmosfera geral e de dar à outra parte a oportunidade de retribuir os gestos feitos (por exemplo, moderando a ênfase retórica nas declarações públicas, nomeando enviados especiais para possíveis negociações futuras, evitando ataques particularmente agressivos, propondo trocas de prisioneiros, etc.). Dessa forma, em 2024 poder-se-ia pelo menos iniciar um processo que visasse facilitar a concretização de um verdadeiro momento negocial. Essa abordagem parece muito racional e de bom senso comum, uma vez que visa testar as reais intenções de Moscou, tanto por meio de sua resposta aos sinais de diálogo dos EUA, da Ucrânia e da Europa, como do seu comportamento durante as negociações propriamente ditas, quando essas tiverem lugar. Só assim poderemos saber com certeza se a Rússia tem realmente objetivos imperialistas ou se está exclusivamente interessada em obter garantias para a sua própria segurança. A Europa – em particular a França, a Alemanha e a Itália – deveria exercer pressão sobre Washington para que seja trilhada essa direção.

“Pessoalmente, concordo com os cientistas políticos que estão convencidos de que Putin não tem a intenção de recriar o Império soviético ou czarista, pelo simples fato de que não tem condições para fazer isso: não tem um exército adequado e suficiente para conquistar e ocupar vastos territórios, estando, aliás, prestes a esgotar todo o armamento bélico pesado acumulado durante a Guerra Fria; mesmo admitindo a hipótese, ainda a ser verificada, de uma OTAN muito mais fraca com Trump, ainda assim correria o risco de estar em guerra com os exércitos de 32 países equipados com tecnologia avançada e que estão justamente se fortalecendo; não estaria inclinado – para além da retórica e salvo uma ameaça realmente existencial ao país – a usar a bomba atômica contra o Ocidente, porque não é um autocrata fanático como Hitler disposto a arriscar morrer pela ideologia... Não se trata de um videogame no qual mover peões virtuais, mas de sangue e destruição verdadeiros, como o Papa Francisco nos lembra todos os dias, com corajosa obstinação”.

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