Síria. Padre Mourad: em Homs o carisma de Mar Musa, a vocação para acolher e dialogar

Jacques Mourad. (Foto: Vatican Media)

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03 Março 2023

Amanhã está prevista a ordenação episcopal e a posse do arcebispo sírio-católico. Um território há anos sem pároco e sem sacerdotes permanentes, mas que soube se manter vivo como comunidade. Com dezenas de fiéis compartilhou durante meses o sequestro nas mãos do Estado Islâmico. A "renovação da formação teológica e bíblica" dos sacerdotes.

A reportagem é publicada por AsiaNews, 02-03-2023.

A missão? Trazer a carisma e o experiência do mosteiro de Mar Musa e alimentar a vocação de acolhida, hospitalidade, oração que nesta diocese tem faltado nos últimos anos. O novo arcebispo de Homs, dom Jacques Mourad, cuja ordenação episcopal ocorrerá na sexta-feira, dia 3 de março, em uma celebração comunitária de todos os cristãos sírios, tem um tom calmo e reflexivo, mas decisivo.

O território deve “voltar a viver como família, como núcleo de oração”, uma tarefa árdua para uma cidade que “está há anos abandonada” e privada de “sacerdotes permanentes” porque “apenas três em 12 eram celibatários” , enquanto os outros são padres casados ​​que “vão para casa à noite”. Hoje "somos quatro para viver permanentemente" no bispado.

Em janeiro passado, Pe. Mourad, monge sírio-católico de 54 anos, foi eleito arcebispo da Diocese de Homs, Hama e Nebek, na Síria, enquanto a ordenação e posse serão realizadas amanhã na presença de personalidades eclesiásticas e fiéis. Ele está ligado ao sequestro sofrido em 2015 nas mãos do Estado Islâmico (IS, ex-Isis) junto com um grande grupo de paroquianos.

Nascido em Alepo e formado em nível litúrgico no Líbano, depois de obter a licenciatura ingressou na comunidade monástica de Deir Mar Musa, onde foi ordenado sacerdote em 1993. De 2000 a 2015, foi responsável pelo convento de Mar Elian (não distante Mar Musa,  comunidade fundada pelo padre Paolo Dall'Oglio) e da paróquia de Qaryatayn, onde ocorreu seu sequestro. Ele contou os cinco meses de cativeiro e a "corajosa" libertação no livro Um monge refém: a luta pela paz de um prisioneiro de jihadistas, uma fuga após semanas de ameaças, violência, tentativas de conversão e simulação de execução.

Deir Mar Musa. (Foto: Franco Pecchio | Wikipedia)

O Pe. Mourad vive estes dias de confusão que o aproximam da ordenação com grande paz interior, ainda que a nomeação represente “uma grande mudança e uma forte responsabilidade”. Homs é uma diocese complexa, afetada pelos anos de guerra, mas apesar das dificuldades a maioria dos cristãos permaneceu garantindo a estabilidade. Os paroquianos são agricultores com um vínculo profundo com a sua terra, que ajuda a enfrentar “os medos, as pressões, a pobreza: nisto há uma grande fidelidade”, um sentimento que, diz ele, “experimentei durante a minha prisão”. Com dezenas deles viveu os meses nas mãos de ISIS, correndo o risco de ser morto, esta coragem que todos demonstraram para "dar testemunho da fé é um sinal forte", completou.

Jacques Mourad. (Foto: Vatican Media)

Depois de dois anos e meio de espera, Homs voltou a ter um pastor em tempo integral e há um ar de esperança renovada depois de a região se sentir abandonada por muito tempo. O bispo é “o próprio símbolo da presença da Igreja” em nível pastoral, para a ajuda, para o apoio humanitário, para a celebração dos sacramentos e para um valor ligado à tradição.

Segundo diz: “Posso me considerar um sortudo porque os sacerdotes são jovens, sua contribuição para a missão é grande, podemos organizar o trabalho em espírito de sinodalidade”, como pede o Papa Francisco. Uma das prioridades é precisamente a “renovação da sua formação teológica e bíblica”, para fortalecê-los “no caminho pastoral” enquanto ajudam as famílias “a viver com dignidade, quando ainda hoje a pressão da pobreza é insuportável”.

Nestes dias a Igreja de Homs está mobilizada para enviar ajuda às vítimas do terremoto de 6 de fevereiro nos centros mais afetados, como Latakya e Aleppo. “Neste sentido, existe uma bela colaboração entre as igrejas, um ecumenismo de fato com ortodoxos e protestantes”, refletiu o religioso.

Mesmo nos momentos mais dramáticos, há a mão da providência que alimenta a ação. Favorece o encontro e o confronto com o mundo muçulmano, sobretudo nesta terra onde faz parte da missão “abrir-se a outras comunidades religiosas” no espírito e segundo os ditames do Pe. Dall'Oglio, cujo 10º aniversário ocorre em julho. E conclui: “Devemos estar a serviço da convivência, do diálogo e ser um exemplo para toda a Síria”.

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