As vítimas sírias do terremoto são de segunda classe

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09 Fevereiro 2023

Os mapas que rastreiam os voos internacionais mostram um tráfego anormal sobre a Turquia, especialmente na região sudeste. Um retângulo de terra pontilhado de aeronaves amarelas. São a vida. As ajudas, os medicamentos, a comida, os meios, os socorros que chegam de todo o mundo. Um pouco mais abaixo há um grande triângulo cinza, a Síria. Onde não chega nada. A fronteira artificial desenhada pelo homem nunca esteve tão visível nos mapas. Mas a devastação do terremoto não fez distinções. Atingiu com igual força os dois lados da fronteira. E nos dois lados vivem os mesmos seres humanos. Especialmente sírios.

Prisioneiros do regime de Bashar al-Assad nos territórios controlados pelo governo. Reféns de grupos extremistas, muitas vezes jihadistas, na faixa próxima à Turquia. Eles viveram a mais feroz das guerras civis. Eles viram metade de Aleppo arrasada em uma batalha urbana que durou quatro anos, Idlib devastada por bombas lançadas pela força aérea de Damasco. Eles nunca viram a reconstrução, mesmo quando o conflito terminou há três anos. E agora estão cortados da solidariedade internacional. O Paypal avisa que os donativos efetuados através da sua plataforma, caso for inserido no motivo de pagamento a palavra terremoto na “Síria”, são automaticamente bloqueados. Por causa das sanções ocidentais. Da mesma forma, a grande maioria das companhias aéreas não ousam enviar material ou homens para os aeroportos sírios, para não sofrer punições.

A reportagem é de Giordano Stabile, publicada por La Stampa, 08-02-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

A ferro e fogo, com a ajuda de caças-bombardeiros e dos mercenários enviados por Putin, Assad sobreviveu à primavera árabe, a revolução que depois degenerou em guerrilha. Ele continua sendo um pária no Ocidente, mas manteve relações com Rússia, China, Irã e até se reconectou com os Emirados Árabes Unidos e talvez, com a mediação de Moscou, em breve também falará com Erdogan.

Os Estados Unidos não aceitaram esse resultado. Eles mantêm um implacável aparato de sansões, sob o nome de Caesar Act, em homenagem a um fotógrafo sírio dissidente que documentou as torturas do regime. A Síria não tem mais moeda forte e não pode obter suprimentos de petróleo, gás, trigo. Está exposta a fome, a frio, ao escuro, mais do que durante a guerra. Mais do que uma estratégia, parece uma vingança.

Assad não caiu diante de 200 mil insurgentes bem armados, com a linha do front a um quilômetro do centro de Damasco e seu palácio presidencial, bombardeados por morteiros. Impensável que caia agora. E certamente não vai aumentar sua sobrevivência suspender as sanções por um mês e permitir a chegada das ajudas. Todos os operadores humanitários estão pedindo por isso, quer operem em territórios governamentais ou rebeldes. Não é uma rendição, um sinal de fraqueza, um compromisso com o Mal. É apenas uma questão de humanidade.

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