O direito de gritar “não” às armas. Artigo de Antonio Spadaro

Foto: unsplash

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

07 Novembro 2022

Francisco, como pastor, reivindica o direito de poder usar a palavra “paz”, invocá-la, desejá-la. Ele se põe do lado do povo e reivindica seu direito à paz.

A opinião é do jesuíta italiano Antonio Spadaro, diretor da revista La Civiltà Catollica, em artigo publicado em La Stampa, 06-11-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto

Eis o texto.

Estou no Bahrein, onde acompanho Francisco em sua viagem apostólica. O papa decidiu visitar um pequeno país onde existe uma pequena Igreja que é um “mosaico” de línguas, povos, origens, culturas.

Mas o país em si mesmo, em geral, é composto majoritariamente por imigrantes. O papa apelou à Constituição, porque todos são chamados a trabalhar juntos pelo bem comum como cidadãos. Ser cidadão é a base para construir a paz, compondo as diferenças para um projeto compartilhado.

As tensões existem: a maioria xiita é governada por uma monarquia sunita. Mas é justamente a partir daí que se eleva o grito de paz e reconciliação. Juntos, o papa e o imã de al-Azhar invocaram um inédito, mas indispensável, diálogo intraislâmico. É preciso confiança e imaginação, mas hoje, mais do que nunca, isso é necessário para pensar o futuro da humanidade.

A partir desse lugar tão composto, Francisco está olhando para o mundo e nos ajuda a olhá-lo com sabedoria. E o que ele vê? Parece-me que ele vê surgir “o pior lado do ser humano”, a “realidade monstruosa e insensata da guerra, que por toda a parte semeia destruição e erradica a esperança”. Sabemos que Francisco ama as imagens para expressar seu pensamento. Aqui, eu o escutei enquanto falava de dois mares. De um lado, o “mar calmo e doce da convivência comum”; de outro, o mar “agitado por ventos da guerra, com suas ondas destruidoras cada vez mais tumultuadas, que correm o risco de esmagar a todos”.

Não há necessidade nenhuma de explicar o sentido do contraste entre essas águas. Mas, depois, Francisco foi preciso, cirúrgico, na análise. À luz das contraposições que animam a política internacional neste tempo, o juízo tornou-se impiedoso: “Poucos poderosos se concentram em uma luta resoluta por interesses de parte, exumando novamente linguagens obsoletas, redesenhando zonas de influência e blocos contrapostos”, disse. Em duas palavras, fez a fotografia das dinâmicas da política internacional dos nossos dias.

Francisco não é um político: é um pastor. É claro que ele tem uma visão do mundo. Ele a explicou pouco tempo atrás: continua-se a governar o mundo como um “tabuleiro de xadrez”, em que os poderosos estudam os movimentos para estender o predomínio em detrimento dos outros. Sua ideia sobre a guerra baseada nos “novos imperialismos” sempre foi clara. Ele a reiterou aqui no Bahrein. Francisco levantou a perspectiva de “amargas consequências” se não “pararmos de distinguir de maneira maniqueísta quem é bom e quem é mau, se não nos esforçarmos para nos entender e colaborar pelo bem de todos”. São sempre palavras dele. Precisas.

Mas, a partir desse deserto da Península Arábica – nas estratégicas rotas marítimas do petróleo –, que se volta ao Irã, ele fez uma afirmação muito severa: “Parece que estamos assistindo a um cenário dramaticamente infantil: no jardim da humanidade, em vez de cuidar do todo, brinca-se com fogo, com mísseis e bombas, com armas que provocam pranto e morte, cobrindo a casa comum de cinzas e ódio”.

Brinca-se de guerra, como se as bombas fossem bonecas. Pelo contrário, trovejou, devemos aprender “a olhar para as crises, os problemas, as guerras, com os olhos das crianças”. Uma coisa é ter os olhos das crianças, outra é ser infantil. Não, não é bondade ingênua, mas sabedoria, porque só pensando nas crianças “o progresso se refletirá na inocência ao invés do lucro e ajudará a construir um futuro à medida humana”, disse ele.

Este é o ponto: perdemos o futuro! Achamos que o futuro não é mais possível, não temos mais os olhos de quem deve crescer neste mundo fracassado. Francisco, como pastor, reivindica o direito de poder usar a palavra “paz”, invocá-la, desejá-la. Ele se põe do lado do povo e reivindica seu direito à paz. E, então, as pessoas fazem bem em gritar por paz, em articular esse grito pelas ruas, muitas vezes silenciado pela retórica bélica. Saímos às ruas porque a invocação da paz não pode ser suprimida.

O grito não conhece fórmulas mágicas para sair dos conflitos, disse Francisco no recente encontro promovido pela Comunidade Santo Egídio, mas igualmente tem “o direito sacrossanto” de pedir paz e merece escuta e respeito.

Celebrando a missa, Francisco lembrou que o profeta Isaías imaginava o Messias. E dizia dele que “grande será o seu poder, e a paz não terá fim”. Francisco comentou amargamente: nestes tempos, “parece uma contradição”. Por quê? Porque, no cenário deste mundo, “quanto mais se busca o poder, mais a paz é ameaçada”. O poder se conjuga com “visões despóticas, imperialistas, nacionalistas e populistas”. E esse é, portanto, um segundo ponto-chave dos discursos destes dias: reconciliar poder e paz.

Por isso, hoje é mais do que nunca importante sair às praças e às ruas gritando “paz”: para que as pessoas possam dizer que ainda querem acreditar no futuro e para que possam expressar o desejo de um poder que seja sinônimo de paz. E, a partir das ruas desérticas do Bahrein, deste canto do mundo, Francisco hoje está gritando “paz!”.

Leia mais