A palavra pregada deve ser vivida. Artigo de Gianfranco Ravasi

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11 Outubro 2022

 

"Se passarmos um olhar sobre os rostos dos fiéis durante a transmissão televisiva das missas no momento da homilia, os olhos se não estiverem baços, certamente não anseiam por aquela palavra que ressoa no templo", escreve o cardeal italiano Gianfranco Ravasi, ex-prefeito do ex-Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado em Il Sole 24 Ore, 09-10-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo. 

 

"Um bom sermão evangélico deve ser como oferecer a uma criança uma bela maçã vermelha ou entregar um copo de água fresca a um sedento e perguntar: você quer? Portanto, deveríamos falar sobre as questões de nossa fé, de tal forma que nossas mãos se estendam mais rapidamente do que podemos preenchê-las”. Na realidade, se passarmos um olhar sobre os rostos dos fiéis durante a transmissão televisiva das missas no momento da homilia, os olhos se não estiverem baços, certamente não anseiam por aquela palavra que ressoa no templo.

 

A sugerir um resultado diferente através de um anúncio incisivo é um homem extraordinário da Igreja como Dietrich Bonhoeffer, que selou seu ministério como pastor protestante com o martírio em 9 de abril de 1945, enforcado por ordem direta de Hitler, ele mesmo preste a se arrastar para o fim que teria ocorrido por suicídio três semanas depois, em 30 de abril. Desta testemunha da fé cristã propomos agora um seu breve curso de homilética, uma espécie de guia depara a pregação, realizado no seminário clandestino de Finkenwalde em vários semestres entre 1935 e 1939 e destinado aos futuros pastores.

 

As páginas revelam um estilo didático quase semelhante a notas, também por se tratar de uma redação elaborada pelos alunos que acompanhavam o curso. Não é nossa tarefa recompor a estrutura teórica dessas páginas, muitas vezes impregnadas de questionamentos, alusões e até provocações, tendo em vista que a pregação é o coração do culto protestante. Algumas intuições são válidas, porém, não apenas para os atores oficiais, mas também para os próprios ouvintes. Só para evocar algumas ideias, é muito sugestiva a advertência que se destina não só ao pastor: "Ninguém pode comentar a Bíblia do púlpito sem praticá-la em seu ofício e na oração".

 

Por esta divisão as homilias merecem por vezes a famosa chicotada de Cristo: "Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam" (Mateus 23,3). Desse pressuposto derivam alguns corolários, como o equilíbrio entre os dois polos da fidelidade objetiva ao texto sagrado, mas também a autenticidade do sujeito que o proclama e comenta, porque "a palavra de Deus quer ser dita por criaturas humanas e não por uma instituição". Relevantes – sempre nesta linha - são dois outros polos, o da liturgia com sua eficácia sacramental e o da atualização que evite uma mensagem que veleja sobre a cabeça dos fiéis em geometrias teológicas abstratas.

 

Disso deriva a função capital da linguagem, que também neste caso deve estar vinculada a um contraponto: por um lado, a adesão à nova comunicação que circula na sociedade com suas variáveis e gramáticas muitas vezes inéditas em relação ao passado; por outro lado, a necessária tipicidade hierática que impede funambolismos e modalidades publicitárias. Uma empreitada árdua, portanto, é aquela da "palavra pregada" que, como Carlo Bo ironizava em um de seus artigos, deveria ser "tormento dos fiéis" porque atiça as consciências e não porque obriga a olhar às escondidas para o relógio.

 

Naturalmente, também é indispensável por parte dos ouvintes praticantes ter uma "introdução" preliminar às Escrituras. As publicações que são produzidas nesse sentido são incessantes.

 

Dietrich Bonhoeffer, La Parola predicata, Org. Ermanno Genre, Claudiana, pp. 96;
Giuseppe Pulcinelli, Introdução à Sagrada Escritura, Dehoniane, pp. 219

Reprodução das capas dos livros

 

Gostaríamos agora de assinalar aquele preparado por um biblista de alta qualidade, Giuseppe Pulcinelli. Num pequeno volume, cristalizou quase numa espécie de agenda as questões fundamentais e as noções preliminares de acesso aos textos sagrados, oferecendo as chaves necessárias para não ficar desorientado.

 

De fato, antes mesmo de fazer um comentário sobre um livro ou texto bíblico, deparamo-nos com sujeitos temáticos antecedentes como "inspiração", "cânone", crítica textual, hermenêutica e, sobretudo, cruzamos com um léxico especializado, considerado pelo exegeta que escreve o comentário, como se fosse evidente e entendido por todos. Tente o leitor, por exemplo, a partir do apêndice do volume de Pulcinelli onde o estudioso lista e explica 34 "palavras mais comuns": cruzará com termos bastante conhecidos, mas também categorias como "kénosi, kérygma, koinè, parênese, parusía, tetragrama”, conceitos específicos que preparam outra série de “palavras ainda mais técnicas”. Em seguida, são oferecidas as categorias “para a análise literária de um texto” e, por fim, até mesmo um “glossário de exegese rabínica”.

 

A originalidade do subsídio elaborado por Pulcinelli está, no entanto, no corpus do volume, onde os assuntos citados acima são recriados de forma didática agradável e refinada. Não somos, portanto, obrigados a trilhar caminhos bastante áridos cravejados de puras e simples dados e informações, típicos dos manuais introdutórios, mas somos levados a panorâmicas com verdadeiras janelas. Elas se abrem para um florilégio de perguntas e respostas: por que alguns textos bíblicos resultam obscuros e difíceis de interpretar? Quais são os desafios atuais? Inspiração do autor ou do texto (até Caravaggio entra em cena)? O que é a "verdade" bíblica? A violência pode ser justificada na Bíblia? Como nasceu o Cânon das Escrituras? Quais são os princípios e métodos hermenêuticos? Mas também não faltam as surpresas de Qumran, os essênios, as traduções e até "a atitude mais adequada para a leitura das Escrituras".

 

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