“Contra o racismo, chega de máscaras, a direita no poder legitima a violência”. Entrevista com Lilian Thuram

Foto: Carsten ten Brink | Flickr CC

30 Setembro 2022

 

“A extrema direita no poder legitima a violência contra as pessoas não brancas, consideradas não verdadeiros italianos, não verdadeiros franceses. As pessoas precisam entender a profundidade do racismo, porque só o fato de não o impedir já significa aceitar que exista, como quando os meus colegas jogadores, depois de certas manifestações no estádio, me diziam: ‘Deixa para lá, não fique com raiva’".

 

Falar sobre essas temáticas com Lilian Thuram, 50 anos, um dos melhores zagueiros que já jogou nos campos europeus, na Itália no Parma e na Juve, assim como na seleção francesa, significa ter respostas complexas para questões complexas que fundam sua origem num conceito de supremacia racial branca na base de nossa civilização ocidental. Falará sobre isso na quinta-feira, na Torino Spiritualità num encontro com Alex Zanotelli com o título programático: "Pensamento branco" (que é o título de seu livro, publicado pela Add Editore).

 

Pensamento Branco

 

A entrevista com Lilian Thuram é Franco Giubilei, publicada por La Stampa, 29-09-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

Na base do seu empenho, concretizado tanto durante a sua carreira no futebol como depois, com a criação da Fondation Lilian Thuram éducation contre le raciste, há um fato, um acontecimento preciso que o levou a dizer basta e a tomar posição publicamente?

 

Não é algo que acontece assim, me confrontei com o racismo desde criança e sempre tentei entender o porquê. Como jogador de futebol, ficou claro que era importante dizer as coisas porque eu poderia alcançar mais pessoas. Aprendi com grandes atletas estadunidenses como Muhammad Ali que se posicionaram e entendi que não podia ficar calado, tinha que continuar a luta pela igualdade.

 

Lilian Thuram. (Foto: Alesi e Leonardi – Internaz | Flickr CC)

 

Como era com seus companheiros de equipe?

 

A maioria, branca ou não branca, me escutava, mas depois não fazia nada. Certa vez, depois de um Parma-Milan com vários cânticos racistas, os outros jogadores e os diretores me disseram "vamos lá Lilian, esqueça isso". Dizer a um negro que sofre racismo que não é grave, significa que para os outros não é um problema porque não é um problema deles. Para os brancos é muito difícil se colocar na pele de uma pessoa negra, por isso é difícil lutar contra o racismo. O fato é que quando se fala de negros afinal se fala de brancos, enquanto desprezar negros, muçulmanos e outros ressalta o branco positivo. O branco deve sempre se certificar de que o negro não seja nada. O branco deve ter a certeza de ser tudo.

 

Você está preocupado com a situação na Europa?

 

A Europa e o mundo foram fundados na ideologia racista, há séculos a Europa se sente o centro do mundo e ainda hoje tem uma visão eurocêntrica, dentro da cultura europeia ainda existe uma ideia de supremacia branca, como acontece com a superioridade dos homens sobre as mulheres, mesmo que muitos finjam que isso foi superado.

 

E em que esse sentimento se expressou?

 

Para ficar no mundo do futebol, na recusa de muitos jogadores em se ajoelhar para denunciar a violência contra as pessoas negras pela polícia nos EUA e em outras partes do mundo. Alguns jogadores fizeram isso, mas é preciso equipes, federações, e a maioria dos países não fez nada. Por quê?

 

Itália x França, final da Copa do Mundo FIFA 2006, jogador francês Lilian Thuram.
(Foto: David Ruddell | Wikimedia Commons)

 

Na Europa, Orbán governa e Giorgia Meloni estará em breve na Itália, enquanto Marine Le Pen continua angariando consensos na França. Alguém na Itália já está protestando, como os alunos do colégio ocupado em Milão ou aqueles que se manifestam em defesa da lei do aborto. Você teme uma guinada à direita?

 

Preocupado? Mas você sabe que eu sou negro? Não preciso da direita para me sentir preocupado. Conheço a violência do racismo e daquela ideologia, sei exatamente o que o supremacista branco pode fazer. Quem sofre certas coisas sabe muito bem que se quem atravessa o Mediterrâneo fosse branco, tudo seria muito diferente. Os refugiados ucranianos, para dar outro exemplo, são vistos melhor do que os migrantes não brancos. A extrema direita legitima a violência contra pessoas que muitos consideram menos humanas, às vezes sem dizê-lo.

 

Você está dizendo que o problema é maior?

 

Digo que, se é verdade que a extrema direita afirma a supremacia branca, também é verdade que essa história vem acontecendo há séculos. Além disso, hoje, o aumento de pessoas que veem favoravelmente o fim da dominação ocidental aumenta a incerteza e incentiva as pessoas a votarem à direita, mas é fato que a população branca - apenas 16% da população mundial - conta sua própria versão dos fatos, garantindo a todos que é assim, porque eles têm o poder de contar a história que querem.

 

Enquanto isso, há aqueles contra a direita ocupando as escolas, como o colégio Manzoni, em Milão, alertando contra o perigo do autoritarismo e da repressão. Que efeito tem em você?

 

Os garotos se preocupam com a situação, porque sabem que violência gera violência, mas nunca sofrerão o medo que um negro ou um estrangeiro pode ter dentro de si quando você é visto como ilegal na Itália, e ainda mais se a maioria escolheu essa direita. E se alguém disser vamos esperar para ver o que o novo governo faz antes de julgar, então é a mesma coisa que aqueles companheiros de equipe que depois dos insultos racistas me diziam: ‘Tranquilo, não é grave’.

 

Você já jogou e viveu entre a França e a Itália, existe a mesma gravidade nos dois países?

 

Sim. Falam que não há racismo na França, mas é uma piada. E na Itália é a mesma coisa, a maioria das pessoas não quer ver o racismo porque não é problema delas, mas lembre-se do que dizia James Baldwin: o racismo não é um problema dos negros, mas dos brancos. Depois, há os garotos brancos que saem para se manifestar, assim como havia sul-africanos brancos marchando com Nelson Mandela, juntos. Dito isso, a maioria das pessoas não se importa com o problema.

 

Então, o que pode ser feito?

 

Encontramos a coragem de tirar todas as máscaras que usamos, de negro, de branco, de homem, de mulher, de judeu, de muçulmano, de cristão, de budista, de ateu, de ilegal, de pobre, de rico, de idoso, de jovem, de homossexual, de heterossexual... para defender a única identidade que importa: aquela humana.

 

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