Itália. “A esquerda perdeu o povo porque não defendeu o direito à felicidade”

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27 Setembro 2022

 

Sandro Veronesi, escritor, Premio Strega 2020 (Il Colibrì, La nave di Teseo), sempre atento em contar o quanto fugaz é o bem e o quão são fracas, às vezes, as forças que nos seguram do caos, escreveu ontem no El País que a Itália está "condenada à divisão".

 

Ele escreveu que o traço comum das eleições, em todo o mundo, nos últimos anos, é a vontade de esmagar os adversários, como se fosse uma guerra, e como se a felicidade e a possibilidade de construir, formar comunidades, caminhar para o futuro, fossem possíveis apenas separando-se uns dos outros, entrincheirando-se entre semelhantes, aliás, entre iguais.

 

A entrevista com Sandro Veronesi é de Simonetta Sciandivasci, publicada por La Stampa, 26-09-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

Veronesi, a Itália vai para a direita porque é um país de direita?

 

Sim, e sempre foi. Até retrógrado. Temos um Papa que é o único verdadeiro líder da esquerda e, de fato, os cristãos que se dizem católicos o detestam.

 

O que compacta a direita?

 

Latir contra os imigrantes, que é a única coisa que o governo poderá fazer: enfurecer-se contra eles. Briguei muito, me expus, e lembro que cada uma de nossas campanhas era destruída pelo primeiro tolo que gritava que as ONGs que salvavam vidas no meio do mar faziam acordos com os contrabandistas.

 

Não importavam os fatos, as sentenças, os testemunhos: exatamente como não contaram todas as vezes, inclusive nesta campanha eleitoral, que a direita falou de emergência, de invasão de migrantes.

 

No trem, enquanto eu ia votar, escutava os discursos das pessoas: aqueles que falavam bem de Meloni, todos diziam a mesma coisa: vai acabar com a ‘mamata’ dos estrangeiros e dos imigrantes ilegais. É como quando os comunistas eram criminalizados com base em medos inventados.

 

Uma coisa boa sobre Meloni?

 

Que é uma mulher.

 

Fascista, dizem.

 

Mas mesmo que ela seja fascista, uma mulher sente na pele as dificuldades que as mulheres sofreram ao longo da história, e isso a torna mais sensível a certas coisas do que um homem.

 

Por que a esquerda não expressa uma liderança feminina?

 

Logo vai ter.

 

Um nome?

 

Elly Schlein. Ela nunca saiu do Partido Democrático: ela poderia ter feito isso e talvez ido para um partido menor, um grupo mais afim a uma independente como ela. Em vez disso, permaneceu em um lugar onde pode crescer, sabendo muito bem que a única força estruturada da esquerda é o Partido Democrático.

 

Além disso, ela é mais atraente para os jovens: amanhã, quando votarem os adolescentes que hoje discutem identidade sexual derrubando-a, eles finalmente se sentirão representados por alguém que encarna a fluidez como Schlein.

 

Esse aspecto foi subestimado, mas não poderá mais acontecer, mesmo que simplesmente por uma questão de mudança geracional do eleitorado.

 

Não seria ingênuo acreditar que a abstenção entre os jovens foi tão alta porque não havia nenhum líder que os espelhasse?

 

É claro. A principal razão para não votar é que ir votar deve ser atraente: deve dar a impressão de que você pode contribuir para a sua felicidade e a dos outros.

 

A felicidade não está em nenhum programa político.

 

E isso é imperdoável. Não porque a política possa trazer felicidade, mas deve visar criar as condições. Até a década de 1970 e parte da década seguinte, mesmo por trás das medidas de bandeira dos partidos das grandes ideologias, fazer os cidadãos felizes era um objetivo propriamente político.

 

O que a esquerda errou?

 

Não soube se desvincular da ideia, agora ultrapassada, de que o trabalho produz riqueza e que, portanto, os trabalhadores devem ser protegidos como se fossem clientes. A esquerda deve revolucionar esse aspecto: não podemos mais nos basear na produção de consumo, mas na criação de bens. Não deve se questionar – como faz a direita – de como dividir o bolo e a quem dar as fatias, mas em fazer o bolo.

 

Os mercados, as finanças, a macroeconomia nos fizeram entender que, a esta altura, todos seremos mais pobres. Isso é estagflação. Estamos à mercê dos grandes mecanismos financeiros a tal ponto que a diferença entre um governo técnico e um governo político é que o técnico age melhor porque os técnicos vêm todos da finança.

 

Então, o que a esquerda deve fazer?

 

Colocar na mesa coisas diferentes do trabalho, coisas que compensem o fato de que seremos menos ricos, que teremos que consumir menos e que consumir menos não significa ser pobres. Aqui está, a felicidade parece-me um bom meio de compensação.

 

É a favor da renda de cidadania?

 

É claro. E foi errado falar em votação de troca. Trata-se de uma medida a ser melhorada e levada para o futuro: é a única que poderá apoiar as pessoas quando os empregos, devido à automatização, diminuírem cada vez mais.

 

O que é o povo?

 

Um movimento coletivo rumo ao futuro. Mas não deve ser amado por obrigação, não deve ser amado porque é povo. Interessa-me quando se emancipa, se melhora e se orienta, não quando se deixa manipular com a promessa de desconto nas contas ou a expulsão do estrangeiro.

 

Você disse certa vez: sem uma boa razão, a disciplina desaparece. Qual é a sua boa razão?

 

Meus filhos.

 

Também pode ser para os políticos?

 

Um primeiro-ministro deve ter a dedicação e abnegação de um pai para com o país que governa. Ele deve abrir mão das coisas que todos fazem, até mesmo de sua própria felicidade, para garanti-la para os outros.

 

Há uma foto de Berlinguer que sempre me emociona: ele está à beira-mar com suas filhas, elas estão em traje de banho, ele está de terno e gravata, é claro que ele parou para cumprimentá-las por um momento, porque depois ele vai ter que ir trabalhar. Salvini, à beira-mar, vimos ele dançar de cueca: nunca saberá entender seu papel como sacrifício para a comunidade, ele está interessado em plenos poderes.

 

O que é política, idealmente?

 

O lugar onde o conflito, sem raiva, determina um crescimento.

 

O que foi a política nesta campanha?

 

O desabafo da raiva.

 

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