Francisco, os cardeais, o perdão e as sociedades desencantadas. Artigo de Riccardo Cristiano

(Foto: Screenshot | Vatican News)

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29 Agosto 2022

 

Bergoglio nomeou 16 novos cardeais eleitores, depois a viagem a L'Aquila em nome e no signo do perdão (celebra-se o Perdão de Celestino V), depois dois dias de discussão romana com todos os "príncipes da Igreja" que vieram de todo o mundo para fazer um balanço; sobre o quê? Quem vai contar isso para nós é Riccardo Cristiano.

 

O artigo é de Riccardo Cristiano, jornalista italiano e presidente da Associação “Jornalistas Amigos do Padre Dall’Oglio”, publicado por Formiche, 27-08-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Perguntar se o tema seria o futuro da Igreja ou mais a reforma curial denominada Praedicate Evangelium parece sarcástico: se o futuro da Igreja não fosse a pregação do Evangelho, qual seria? É claro que pregar o Evangelho neste mundo parece complexo, para dizer o mínimo complexo: China, Taiwan, Rússia, Ucrânia, Irã, Oriente Médio, Nicarágua, Venezuela, México, Líbia, Sahel, Europa, Estados Unidos; só listar os títulos dos desafios à pregação do evangelho causa arrepios. Mas é a ausência de um título indispensável que deveria nos fazer refletir: ONU. O que é?

 

A perspectiva que Francisco abriu à atual pregação do Evangelho, assim como à luz do perdão, está à sombra do multilateralismo. A Igreja universal que dirige o Bispo de Roma já não é mais e não pode mais ser uma Igreja ocidental. Melhor admitir isso. É, quer ser e deve ser uma Igreja universal. É aqui que se percebe a importância da outra discussão que não será discutida nas próximas horas: o sínodo.

 

Esta discussão, na realidade, engloba as discussões sobre as quais estamos falando. De fato, o sínodo sobre a sinodalidade, em andamento e que terminará em 2023, é sobretudo o pedido de perdão de muitas Igrejas de uma Igreja que quis se impor a todas as outras. Esta Igreja, a Igreja Ocidental, perdeu a sinodalidade em sua história e tradição. Não a Igreja Oriental, e agora (graças aos céus) essa sinodalidade volta a ser universal. Sinodalidade significa caminhar juntos. Mas para caminhar juntos também é preciso um firmamento comum, e a ausência de um multilateralismo e uma multipolaridade possíveis são o problema político.

 

O risco concreto é que a multipolaridade e o multilateralismo no mundo de hoje se tornem um multi-imperialismo. Do império único, ocidental, a três ou quatro impérios: o ocidental, o chinês (e russo), e depois os islâmicos entre os quais escolher: turco? Iraniano? Se o do multi-imperialismo é um problema que diz respeito diretamente à pregação do Evangelho na Ásia e em todo o Terceiro Mundo, o do secularismo o desafia no Ocidente (e além).

 

Do que nos fala essa secularização? É um ogro feroz? Um monstro de três cabeças? Ou talvez nos fale de sociedades, especialmente ocidentais, que querem ser encantadas novamente? Não é esse encanto e desencanto o problema da Igreja no Ocidente? Desde a descoberta iluminista da democracia, pensou-se em poder realizar leigamente os valores evangélicos. Mas o desencanto nos fez perder muitos sabores. Seguiu-se, por um lado, um conflito desencantado, por outro, rigorista. Assim, as linguagens se afastaram. É possível mudar a tendência? Não se percebe uma necessidade popular de se encantar novamente, ainda que em novas bases?

 

Olhando para a complexidade e diversidade dos desafios, é risível o medidor de lotação eclesial: igrejas cheias, igrejas vazias? Mas para o quê? Impor ou encantar? O perdão não seria justamente a única base possível negligenciada por ambos para recomeçar?

 

O encontro em Roma dos próximos dias, que começa no sábado, 27 de agosto, e vai até terça-feira, traz outra grande novidade: não há triunfos a reivindicar. É um reconhecimento de estar em crise? Ou não foi o triunfalismo que a produziu? Uma Igreja imersa no diálogo com o homem moderno será certamente mais mãe do que mestra. As mães também poderão se equivocar, mas esta mãe não tem apenas o filho ocidental com quem conversar, para cuidar. Por isso me parece que a escolha sinodal é também a escolha fundamental, de época. Obviamente será uma discussão sobre como ser Igreja, que vem de Ecclesia, que é "comunidade". Comunidades sem clericalismo, sem “alas em marcha” diriam outras linguagens. Afinal, a cultura consumista eliminou justamente o sentido de "comunidade".

 

Que um evento desse tipo, para ser entendido, teve que se transformar em um thriller de verão sobre renúncia que apagaria justamente a novidade de época, ou seja, aquela sinodal, é inacreditável. Num mundo sem bússola precisamente porque ninguém o sente mais comunidade na qual se entender, explicar-se e, portanto, perdoar-se, a discussão sobre a Praedicate Evangelium torna-se uma pergunta sobre que tipo de futuro preferimos: uma vez que a época ocidentalista declinou para sempre, trata-se de entender qual época abrir: a época de um novo encanto articulado, multidimensional, com acentos e prioridades diferentes, mas comuns em sua tendência, ou a livre competição imperial à sombra do consumismo indiscutível?

 

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