Bispo detido, na Nicarágua “é como nos tempos de Somoza”

Bispo Rolando Alvarez de Matagalpa. (Foto: Reprodução | Arquidiocese de Matagalpa)

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29 Agosto 2022

 

Após a clamorosa prisão na Nicarágua do bispo Rolando Alvarez de Matagalpa, o clero da diocese de Estelì, Madriz Nueva Segovia (da qual o prelado é administrador apostólico) emitiu um comunicado duríssimo contra o governo de Daniel Ortega, no qual a polícia é comparada à "Guardia Nacional dos tempos de Somoza, obrigada a cometer violações de direitos humanos contra a população indefesa". O texto também se refere com alívio às palavras de "preocupação e dor" expressas durante o Angelus no último domingo pelo Papa Francisco "pelo sofrimento da Igreja nicaraguense".

 

A reportagem é de Gianni Beretta, publicada por Il Manifesto, 28-08-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

No entanto, alguns dos detratores de Bergoglio, que o censuraram pelo prolongado silêncio sobre uma perseguição que vem de longe, ainda consideram sua mensagem muito cautelosa, que não mencionou a prisão do prelado e, acima de tudo, espera "um diálogo aberto e sincero para uma convivência respeitosa e pacífica".

 

Há quem lembre ao Pontífice ter afirmado algum tempo atrás que "com o diabo não se pode dialogar...". Nesse caso, Satanás seria personificado pelo próprio Ortega e sobretudo por sua vice e esposa, Rosario Murillo, que na Nicarágua alguns chamam de "papisa": uma integralista que usa uns trinta anéis nos dedos, cada um contra um mau-olhado diferente; e que quando o "ex" comandante guerrilheiro voltou à presidência, em 2007, introduziu pela primeira vez no país uma lei que proibia o aborto, incluindo casos de violação e perigo de vida da gestante. Além de se fazer casar novamente com Ortega na catedral pelo cardeal Obando y Bravo para angariar os favores do então arcebispo de Manágua, que havia sido o inimigo interno mais feroz durante a revolução sandinista.

 

De tom mais claro foram as condenações recebidas de vários episcopados latino-americanos e europeus, incluindo a "solidariedade" expressa pelo presidente dos bispos italianos, cardeal Matteo Zuppi, que falou de "ato gravíssimo contra a liberdade de culto e de opinião".

 

Enquanto isso, Mons. Alvarez está confinado em prisão domiciliar na casa de seus pais em Manágua (onde recebeu a visita do atual arcebispo metropolitano Cardeal Leopoldo Brenes). Expondo-se do púlpito desde a revolta popular de 2018 para proteger os jovens rebeldes e em defesa das liberdades democráticas e religiosas, Alvarez resiste ao exílio forçado como mediação oferecida pelo casal presidencial. Enquanto oito de seus colaboradores foram transferidos diretamente para a prisão do Nuevo Chipote na capital.

 

Um grande dilema para a Conferência Episcopal da Nicarágua, muito cautelosa desde o início da crise; mas também por ocasião da expulsão do núncio apostólico, da recente expulsão das irmãs de Madre Teresa de Calcutá e do fechamento de uma dezena de emissoras de rádio católicas.

 

O problema é que a frente eclesiástica está dividida depois que um dos bispos, Monsenhor René Sándigo de Leão e Chinandega, talvez por alguma chantagem inconfessável, se colocou abertamente do lado do governo. Isso pode explicar os tons extremamente tímidos do distanciamento do episcopado (e do papa) do regime; que o bispo dissidente sempre subscreveu.

 

Regime que por sua vez, devido à exposição excessiva, começa a registrar descontentamentos entre suas fileiras.

 

Com Ortega relegado às margens por sua saúde precária; e a esotérica faz-tudo Murillo, que sempre foi muito detestada no país, cada vez mais incontrolável. Tudo sob o risco, mais cedo ou mais tarde, de uma implosão.

 

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