Do acaso ao destino. Anders e as vidas migrantes

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08 Agosto 2022

 

"Em 1933, Anders abordou a questão da emigração em uma poesia que começa assim: 'Atrás do saguão desta estação / ninguém mais sabe quem você é'. Primeiro esboço de uma meditação que nesse pequeno livro presta justiça à condição moral e emocional do emigrante, cuja presença não pode ser considerada 'simples excesso'", escreve Roberto Righetto, jornalista, em artigo publicado por Avvenire, 07-08-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Cogitor ergo sum: para o teólogo Karl Barth, a reviravolta radical da famosa fórmula de Descartes (cogito ergo sum) significa a afirmação de uma transcendência: “Sou pensado, logo existo.” É o ser feito à imagem e semelhança de Deus que torna o homem um sujeito livre.

 

Também o filósofo Günther Anders (1902-1992) inverte o lema de René Descartes em cogitor ergo sum, mas em uma versão leiga: "Pensa-se em mim, logo existo", referindo-se à condição existencial do homem no século XX, às tragédias da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, à bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki e, no que lhe diz respeito diretamente, à situação de refugiado e expatriado. Tudo isso não pode deixar de levar à necessidade de uma correlação entre os seres humanos.

 

Marido de Hannah Arendt e primo de Walter Benjamin, obrigado a fugir da Alemanha em 1933 devido à sua origem judaica, Anders descreve sua história em um artigo que apareceu pela primeira vez na revista Merkur em 1962, e agora traduzido por Donzelli com o título L'emigrante (88 p., € 16,00), com introdução de Orlando Franceschelli e posfácio de Florian Grosser, como parte da edição alemã do volume publicado um ano atrás.

 

L'emigrante

 

O início é esclarecedor: “Não tive uma vida. Não me lembro. Os emigrantes não conseguem. Daquele singular 'a vida', nós, pressionados pela história universal, fomos defraudados.” Anders penetra com lucidez e amargura naquela que com dificuldade chama de vida (em latim no original) porque o que aconteceu com ele, os contínuos deslocamentos primeiro para Paris e depois para os Estados Unidos para retornar à Europa em 1950, estabelecendo-se em Viena, com tudo o que significaram em termos de perda de dignidade e identidade, deixaram-no mudo, despossuído daquelas qualidades da existência que a podem torná-la humana.

 

“Claramente - explica - o fato de que nós não tivemos uma vida não significa que a matéria da nossa existência tenha sido pobre. Se eu pudesse reunir em torno de mim todas as figuras que um dia eu personifiquei, ou que me carregaram nos ombros no tempo e no espaço até este aqui e agora, se eu pudesse empilhar diante de mim todos os faits divers que me aconteceram, bem, em número e quantidade tudo isso chegaria a constituir uma rica existência humana. E, no entanto, nenhuma vida singular emergiria, apenas vitae. Somente vidas, no plural.”

 

Anders é o pensador que mais do que qualquer outro no século passado questionou-se sobre o horror da bomba atômica, fazendo de Hiroshima e Nagasaki um ponto sem volta para a humanidade e esperando, com base em suas raízes judaicas e cristãs - que devem ser redescobertas apesar de professar uma irreligiosidade básica - que o homem pudesse se transformar "naquele que pode prevenir o apocalipse", como escreveu em sua obra mais famosa, O homem está antiquado (1950). Ele era amigo de Gabriel Marcel e não denegriu a escolha de Edith Stein de se converter ao cristianismo. E com Arendt, de quem logo se separou, em 1937, manteve um diálogo profícuo, como aparece em sua correspondência, apreciando sobretudo o ensaio Nós, os refugiados (1943), no qual se encontrou plenamente.

 

Mas o que a leitura do livro de Anders tem a nos dizer hoje? Em primeiro lugar, a distinção entre emigrante e imigrado, categoria que ele rejeita. Aquele de imigrado é um rótulo aplicado aos recém-chegados a um país por aqueles que usufruem do privilégio de ter uma posição de cidadania garantida.

 

Por outro lado, quem é obrigado a expatriar se vê como um emigrado e se olha para si mesmo em relação ao contexto de origem ao qual teve que renunciar. Incluindo, obviamente, sua língua e sua cultura. Isso não significa que Anders olhe negativamente para aquelas que teriam sido suas novas pátrias, França e Estados Unidos, muito pelo contrário. "A maioria de nós – ele defende - ardia no desejo de transformar no destino de uma segunda pátria a casualidade da costa que um dia alcançara, de se deixar 'levar' pelo novo país, fosse ele capaz ou não, o quisesse ou não, não via a hora de ser reconhecida, para realmente contar dentro dela, em vez de ser contada pelo departamento de estrangeiros como uma das muitas, muitas últimas rodas da carroça.”

 

 

Coragem, melancolia, vergonha são termos que muitas vezes retornam nessas reflexões. A coragem de "deixar-se chamar de covarde ou de traidor", de viver uma vida contracorrente e muitas vezes como opositor sofrendo todo tipo de isolamento. Mas também o abismo da melancolia e da nostalgia, e a vergonha pelas humilhações enfrentadas, por ter tido que viver meses e meses só pensando em sobreviver.

 

“Viveram - ressalta Anders - na vergonha, por exemplo, todos aqueles que, levados num campo de concentração com a perspectiva de se tornarem descartes, foram obrigados a passar os dias que lhes restavam à espera de serem eliminados. Comparada a isso, nossa vergonha era evidentemente puro privilégio. De fato, aqueles que ainda estão vivos sentem a injustiça desse privilégio como mais uma vergonha; e existe algo como uma comunidade, cheia de vergonha, composta por aqueles que por acaso não foram parar nas câmaras de gás.

 

O reconhecimento do mal supremo do Holocausto gera esse sentimento naqueles que conseguiram achar uma saída na fuga antes que o irreparável acontecesse. Assim, o filósofo escreve palavras de agudo sofrimento pelo destino de Benjamin, que não conseguiu se salvar e está enterrado em algum local remoto dos Pireneus.

 

Em 1933, Anders abordou a questão da emigração em uma poesia que começa assim: “Atrás do saguão desta estação / ninguém mais sabe quem você é”. Primeiro esboço de uma meditação que nesse pequeno livro presta justiça à condição moral e emocional do emigrante, cuja presença não pode ser considerada "simples excesso". Mas há também palavras de gratidão por ter salvaguardado a própria língua e ter descoberto uma nova ou outras ainda, por ter podido dar espaço àquela vida intelectual que permitiu a tantos refugiados ir além de "uma existência gaguejante" graças à escrita. Precisamente por isso, conclui, "não há ninguém que mereça tanto a nossa dedicação como ela, a nossa mestra: a boa época de miséria do nosso exílio".

 

 

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