“Nos últimos três anos, fracassamos como espécie.” Entrevista com Yuval Noah Harari

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07 Julho 2022

 

Desde que seus livros se tornaram um fenômeno de vendas internacionais, Yuval Noah Harari (Israel, 1976) conversa regularmente com chefes de Estado de todo o mundo. Macron, Merkel, Macri, Rutte e Kurz se aproximaram dele. Suas obras penetraram nos escritórios dos mandatários e de deidades do Vale do Silício, como Bill Gates e Mark Zuckerberg.

 

Sapiens” foi seu primeiro título e um best-seller que ganhou o mundo com mais de 23 milhões de cópias vendidas desde 2014. Nessa breve história da humanidade, Harari abordou a imaginação humana desde o instante de seu nascimento, passando por deuses, nações, impérios e todas as grandes narrativas que alimentam a mente de um sapiens.

 

Em “Homo Deus” (2016), o guru lançou seu olhar para um futuro de desafios tecnológicos. E, em 2018, com “21 lições para o século 21”, Harari fechou o círculo explorando o presente.

 

Hoje, alguns leitores deste historiador israelense o procuram em busca de respostas, como uma espécie de profeta. Um papel com o qual não se sente à vontade, como explica a este jornal. “Aqueles que pensam em mim dessa forma, querem parar de pensar por si mesmos e que eu venha com todas as respostas. Não posso fazer isso. É perigoso”.

 

No próximo outono, dará sequência às adaptações de “Sapiens”. Após ter transformado o best-seller em uma novela gráfica, Harari prepara quatro volumes dedicados ao público infantil e juvenil.

 

A entrevista é de Ana Ramírez, publicada por El Confidencial, 04-07-2022. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

 

Imparables (Montena) é uma adaptação de suas ideias sobre a história da humanidade para crianças. Qual é a diferença entre a compreensão do leitor infantil e a do adulto? Como 'traduziu' seu pensamento?

 

O objetivo principal do livro é tornar a história acessível e atraente para as crianças. Não entendo o estudo da história como o estudo do passado, mas da mudança. O que as pessoas que viveram há milhares de anos fizeram não é tão importante. Todos estão mortos e não se importam com o que pensamos deles. O precioso é o que fazemos hoje. Para agir de formas diferentes, temos que compreender de onde viemos.

 

 

Muitas vezes, as histórias que foram inventadas há milhares de anos seguem nos controlando. Deuses, nações, dinheiro, amor... Tudo isso continua definindo como pensamos e nos comportamos agora. A principal mensagem para as crianças seria: “O mundo em que você vive não tem que ser assim. É desse modo porque os seres humanos o fizeram assim. O que significa que as pessoas podem mudar o mundo”. Diante da sensação de que o mundo é injusto, ainda pode ser mudado, porque é obra das pessoas.

 

Penso que é mais difícil escrever sobre história para crianças. Você precisa refletir com maior profundidade. Quando você quer explicar algo para um adulto, mas não está seguro sobre o que está dizendo, sempre pode escrever uma frase muito longa e complicada, com palavras muito longas e complicadas, e esconder o fato de que, na verdade, não sabe o que quer dizer. Os leitores vão pensar que não entenderam nada, mas que provavelmente é porque o autor tem um nível muito elevado e não são capazes de compreendê-lo. Com crianças isto não funciona. Você precisa dizer a elas o que pensa da forma mais simples possível. Isso o força a refletir mais, a esclarecer suas ideias.

 

Por outro lado, também é mais fácil escrever para crianças. Ainda não acreditam em todos os contos de fadas que nós, adultos, acreditamos. Durante muitos anos, ouvimos certas narrativas sobre a política, a economia, a sociedade... Corretas ou não, acreditamos em algumas delas. Se você escreve um livro propondo uma nova história, é provável que muitos adultos não a aceitem. Mas as crianças ainda não ouviram essas narrativas, são mais abertas. É mais fácil explicar o que é o dinheiro para uma criança de 10 anos do que para um adulto de 50 anos.

 

Cada vez estão nascendo menos crianças e mais são as vozes que alertam acerca de uma crise demográfica, com consequências ainda desconhecidas. Se as narrativas distópicas de alguns anos atrás falavam de um planeta superpovoado, de um malthusianismo irremediável, as distopias vão falar de um planeta sem crianças e jovens, sem energia para sustentar uma população envelhecida?

 

Bem, não há falta de pessoas. Há 10.000 anos, a população mundial estava próxima de 10 milhões de pessoas. Agora, estamos nos aproximando de 8 bilhões. Se ficarmos nesse ponto ou até mesmo abaixo de 8 bilhões, tudo bem. De fato, seria melhor para o planeta. Se o que nos preocupa é quem cuidará das pessoas idosas..., penso que há muitas razões para trazer crianças ao mundo. Algumas são boas e outras não, mas é uma razão terrível ter filhos apenas para ter alguém que cuide de você quando for mais velho. As crianças não são serventes. Não as crie para que alguém pague sua aposentadoria ou alguém cuide de você quando tiver 80 anos.

 

 

Considero que a mudança demográfica é positiva e, em parte, se deve à diminuição da mortalidade infantil. Há um século, as doenças, a desnutrição, a falta de antibióticos e vacinas provocavam a morte de ao menos um terço das crianças antes de atingir a idade adulta. Se você fosse uma mulher com seis filhos, saberia que muito provavelmente alguns deles iriam morrer por alguma doença como o sarampo ou pela desnutrição, antes de completar os 20 anos. Essa era uma das razões pelas quais as pessoas tinham muitos filhos, porque sabiam que muitos deles morreriam.

 

Este não né mais o caso. A medicina moderna, a higiene e os medicamentos fizeram a mortalidade infantil cair drasticamente. No mundo, é inferior a 5%. Nos países desenvolvidos, é inferior a 1%. As pessoas têm menos filhos porque sobrevivem. Além disso, investem mais nisso. As famílias e a sociedade dedicam muito mais tempo, dinheiro e recursos com as crianças.

 

Em vez de ter 10 filhos e que trabalhem no campo ou em uma mina de carvão, a partir dos oito anos, temos dois ou três filhos e que são educados por muitos anos. Penso que isso é uma coisa boa. Medir o êxito de uma sociedade pelo tamanho de sua população não é mais relevante na situação do século XXI. É melhor ter uma população menor, mais educada, mais feliz e mais saudável do que ter uma grande população pobre e doente.

 

Talvez seja uma boa para o planeta ter uma população mundial menor, mas não para um sistema econômico baseado no crescimento. Se a inversão da pirâmide populacional gerar países insustentáveis, como avalia que enfrentaremos a crise?

 

Uma possibilidade é a ascensão da inteligência artificial que já estamos vendo. Os robôs e os processos automatizados estão substituindo as pessoas em muitos trabalhos. De fato, é bom que muitas pessoas não precisem mais fazer esses trabalhos.

 

Quando você pensa no caixa do supermercado, é um trabalho muito importante, mas não é ruim que um robô possa fazê-lo. Não é divertido e nem oferece possibilidades para se desenvolver. Se ao invés de você ser um caixa, um robô faça isso para que você possa estudar, aprender, ir para a universidade ou se tornar um artista... Que bom! A automação pode ser uma resposta.

 

 

Outra resposta pode ser a confiança em outros países para exportar algumas produções. Ou, em sentido contrário, que outras pessoas possam vir trabalhar temporariamente ou permanentemente em um país. Existe um grande debate sobre a imigração, mas, como em quase todos os problemas da vida, só é necessário encontrar um ponto de equilíbrio.

 

É impossível para um país receber um número ilimitado de imigrantes. Isso não é razoável. Mas, sim, um número moderado de imigrantes que estão dispostos a fazer parte da cultura local. Todo mundo veio de algum lugar. Se você traçar sua árvore genealógica, ao final, chegará a algum imigrante. Ninguém brotou da terra. Talvez já faça 50 ou 100 anos, mas todos somos descendentes de imigrantes.

 

A importância do relato ou narrativa para compreender a natureza humana está no centro de seu pensamento. Cultura, religião, tradições, sistemas políticos... As histórias que nós, seres humanos, contamos a nós mesmos para nos entendermos e nos definirmos. Que narrativa utilizamos para compreender a mudança demográfica? Pode ser a de uma guerra geracional?

 

Muitas pessoas estão adotando essa narrativa de uma guerra geracional. Que as gerações precedentes estão destruindo o planeta, o futuro dos jovens e que seus interesses estão em conflito. Geralmente, como historiador, sou cauteloso com essas narrativas militarizadas e simplistas, que entendem o mundo como uma batalha entre duas forças. Quase sempre é mais complicado do que isso.

 

 

Se as antigas gerações pouco se preocupam com o que fazem, quase sempre é porque pensam em seus filhos, em dar-lhes saúde, educação e alimentação. Quase todas as coisas que constroem e desenvolvem, no fundo, são para garantir o bem-estar das gerações mais jovens. Não é apenas uma jornada egocêntrica para melhorar suas próprias vidas.

 

Os jovens têm muitos aliados entre as gerações de idosos. Assim como somos todos descendentes de imigrantes, tudo o que temos material e culturalmente veio de algum lugar. Tudo foi desenvolvido por pessoas mais velhas do que nós. Prefiro não pensar nesta lógica de jovens contra velhos, e pensar mais em como podemos unir esforços para proteger o planeta, o ecossistema, que é o lar de todos nós.

 

Recentemente, você demonstrou otimismo em relação à crise climática. Calculou que seria possível atingir zero emissões líquidas de carbono investindo 2% do PIB mundial nessa empreitada. Isto é possível? Erramos quando conferimos ao desafio climático dimensões monstruosas, tanto em suas consequências como em suas possíveis soluções?

 

Penso que é perigoso cair no desespero. Esta é uma das razões para que eu tenha escrito um artigo sobre “A Solução dos 2%”. Há alguns anos, havia muitas vozes que negavam a mudança climática. Mas agora, de repente, foram para o outro extremo, para o desespero. “É tarde demais, não há nada que possamos fazer, o mundo está entrando em colapso”. O desespero é tão perigoso quanto a negação, porque não motiva a fazer nada.

 

 

Não sou um especialista em clima, nem um cientista. Mas, como historiador, interesso-me pelo projeto político que necessitamos para evitar a catástrofe climática. E para construir um projeto político é necessário considerá-lo em termos de orçamento. De quanto do orçamento precisamos para atingir esse objetivo? Se os cálculos apontassem para 50% do orçamento, eu diria que é quase impossível, exceto em casos muito extremos. A única situação em que um país pode gastar 50% de seu orçamento é na guerra total, como a Segunda Guerra Mundial. Mas de quanto dinheiro precisamos para combater a mudança climática?

 

A boa notícia é que a maioria dos modelos aponta para 2% a mais do PIB mundial anual. É muito dinheiro e continua sendo um grande projeto político global. Seria algo em torno de 1,7 trilhão de dólares todos os anos. Mas é um projeto físico... Não significa que temos que destruir o modelo econômico atual ou abandonar as conquistas da civilização moderna.

 

Na verdade, os políticos são muito bons transferindo 2% de um orçamento daqui para lá. É o que fazem na maior parte do tempo. Não estou dizendo que será fácil, mas é um objetivo realista. É importante ressaltar isso, pois se as pessoas caírem no desespero, vão se render e não tentarão fazer nada.

 

Há pouco, eu falava do crescimento vertiginoso da população mundial, nos últimos séculos. É isto o que nos leva ao desespero frente aos problemas globais, com a sensação de que a humanidade cresceu até se tornar um transatlântico intratável?

 

Não, penso que temos a tecnologia, o conhecimento científico e os recursos econômicos para resolver o problema da mudança climática. O que não temos é a sabedoria ou a vontade política. Se os políticos e o povo tomarem essa decisão, é totalmente viável. Existem problemas no mundo que não sabemos como resolver, que estão além do nosso poder, ao menos por enquanto. Mas a mudança climática não é um deles. É um problema solucionável, ainda que não seja simples. Não existe a vontade política. Ainda vemos muitos representantes políticos negando o problema ou suas implicações nele. Ou, diretamente, excluindo-o de suas prioridades porque têm coisas mais urgentes a fazer.

 

Não posso dizer que eu seja muito otimista, sobretudo levando em consideração os últimos três anos. Fracassamos como espécie e como humanidade diante da pandemia de covid, e agora temos a terrível invasão da Rússia na Ucrânia. Putin quebrou o grande tabu da comunidade internacional, está tentando aniquilar uma nação inteira. E toda a Europa se uniu contra ele. Mas não a Índia, nem o Brasil, nem muitos outros países. Isso é decepcionante.

 

Se não podemos unir forças contra esses tipos de perigos imediatos, é difícil imaginar como vamos nos unir para enfrentar um problema mais complexo como a mudança climática. Mesmo assim, existe um espaço para a esperança. Ao menos no sentido de que não é uma missão impossível. Temos o poder para isso, mas não a sabedoria.

 

Se você pudesse escrever 'Homo Deus' agora, seria mais pessimista sobre o futuro da humanidade?

 

Absolutamente. Escrevi esses livros em 2014 e 2015. A impressão era de que problemas como a guerra, as epidemias e a fome sempre poderiam surgir pelas leis da natureza. Sempre pode surgir uma nova doença ou carestia, mas sentíamos que a humanidade havia construído uma ordem global forte o suficiente para que essas situações ficassem sob nosso controle. Foi o que aconteceu com o Ebola, em 2014. A ação internacional foi rápida para contê-lo. Mas nos últimos cinco ou seis anos a humanidade abandonou a ordem que construiu. Permitimos que ela colapse.

 

É como se construíssemos uma barragem em um rio e pensássemos: “Então, é isso. O rio está sob controle. Não há mais inundações”. Mas, então, você começa a abandonar a barragem. Há rachaduras e pedaços caindo, mas você não faz nada a respeito. No final, a barragem se rompe e há uma inundação terrível. É o que está acontecendo.

 

Mesmo os países que lideraram essa ordem global, como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, estão sabotando essa ordem. O Brexit é um sinal para Putin de que a Grã-Bretanha não está mais interessada na Europa. Então, “se você invade a Ucrânia, nós não faremos nada”. O mesmo acontece com a eleição de Donald Trump e suas políticas isolacionistas contra qualquer colaboração internacional. Este também foi um claro sinal. Os Estados Unidos abandonam a ordem global e não querem mais liderá-la. É um chamado para que pessoas como Putin pensem que não vão intervir, caso faça algo.

 

 

Não é tarde demais para salvar a ordem global e melhorá-la, mas depende de nossas decisões. Não se trata de leis naturais ou de milagres divinos, mas de humanos construindo instituições. Se você constrói boas instituições, podem controlar e conter problemas como a guerra, as doenças e a fome. Mas se você permite que entrem em colapso, todos esses problemas voltarão. A fome é o melhor exemplo, vemos que está voltando.

 

É preciso deixar claro que isto não é um desastre natural. Há centenas de anos, pode ser que sim. Devido a inundações, terremotos ou outros eventos, um território podia ficar sem comida. Não tínhamos a tecnologia para evitar a fome, nem para levar comida rapidamente de um território para outro. Estávamos desamparados.

 

Agora, a única fome que existe é a fome política. Se há pessoas morrendo de inanição no mundo, é apenas porque algum político quer que morram de fome. Temos a tecnologia para produzir e transportar alimentos. Espero que tenhamos a sabedoria de construir instituições melhores, que evitem que a fome se torne novamente uma ameaça à humanidade.

 

Uma das ideias que você desenvolveu em 'Homo Deus' foi a da perda de liberdade na ação e o pensamento humanos, em favor do controle tecnológico e a influência dos algoritmos. Você relaciona a crise da ordem global, que menciona, com esse ensimesmamento?

 

Alguns acreditam que há uma contradição entre globalismo e nacionalismo, ou entre globalismo e individualismo. Considero que isto é um grande erro. Não há contradição. Muitas vezes, para florescer como indivíduo, é necessário cooperar com os outros e com outras nações. Se você analisa a alimentação, o esporte, a religião, a arte. Se questiona de onde vêm, a maior parte vem de fora. Se você gosta de tomar café, os etíopes o introduziram na esfera doméstica. Toda vez que você toma café, deveria agradecê-los.

 

Se você gosta de futebol, foi inventado pelos ingleses. Se você é cristão e lê a Bíblia, foi escrita no Oriente Médio. Se você gosta da língua espanhola, é filha do latim e vem da Itália. Se pensa em todas essas coisas como indivíduo, perceberá que não há contradição alguma entre ser individualista e cooperar alegremente com os outros. É como ser um patriota: não se trata de odiar estrangeiros e minorias, mas de amar as pessoas ao seu redor.

 

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