Contra o poder ideológico do imperialismo

Presidente da República, Jair Bolsonaro, e o Primeiro-Minstro da Índia, Narenda Modi. (Foto: Clauber Cleber Caetano/PR | Agência Brasil)

07 Julho 2022

 

Do Brasil à Índia, a extrema direita percebeu que não precisa mais dar golpe militar para chegar ao poder no século XXI. Para entender este processo num mundo cada dia mais conflagrado, conversamos com o marxista indiano Vijay Prashad, que explicou as raízes deste fenômeno e mostrou como a classe trabalhadora está revidando em cada país.

 

Prashad é diretor-executivo do Tricontinental: Institute for Social Research, editor-chefe da LeftWord Books e membro sênior não-residente do Chongyang Institute for Financial Studies, Renmin University of China. Seus últimos livros publicados no Brasil foram Uma História Popular Do Terceiro Mundo e Balas De Washington – Uma História Da CIA, Golpes e Assassinatos, ambos pela Expressão Popular.

 

Nesta entrevista à Gercyane Oliveira, ele falou sobre as semelhanças e diferenças políticas entre Brasil e Índia, o movimento dos camponeses que está desestabilizando o governo conservador de Narendra Modi, os motivos por trás guerra na Ucrânia e as consequências para o Oriente Médio e América Latina num mundo com horizonte cada dia mais conflagrado devido ao lento declínio do império norte-americano.

 

A entrevista é de Gercyane Oliveira, publicada por Jacobin Brasil, 03-07-2022.

 

Eis a entrevista.

 

O autor Raju Das escreveu um interessante trabalho sobre economia e política na Índia, onde ele apresenta ideias gerais sobre as lutas de classe de uma maneira muito interessante. Como você analisa a política capitalista na Índia, as tendências fascistas de sua classe dominante e a esquerda indiana?

 

A Índia, como muitas partes do Sul Global, viu o desaparecimento de pactos anteriores das elites governantes para proporcionar benefícios sociais, uma negação que veio junto com a onda neoliberal ao redor do mundo empurrada pelo FMI. Este fim do bem-estar social desgastou a base de poder das antigas elites governantes e sua orientação mais desalinhada e desenvolvimentista. Como a esquerda foi enfraquecida pelo paradigma da globalização impulsionado pelos EUA, a porta se abriu para a direita emergir. A emergência da direita sugere três importantes – e novas – descobertas.

 

Primeiro, que a extrema direita não acredita mais que precisa acabar com a democracia liberal e que exige força direta – um golpe militar – para chegar ao poder. Agora ela pode chegar ao poder usando os instrumentos da democracia liberal. Isto foi mostrado na Índia, mas também no Brasil. Os limites constitucionais à lei e à enxurrada de dinheiro na política estão lá. Portanto, esta é a primeira descoberta.

 

A segunda, que a direita foi capaz de dizer que espremeria a economia pela garganta e a faria tossir empregos. Esta promessa era sem nenhuma teoria econômica séria, mas era apelativa. O refrão de Donald Trump de “make America great again / fazer a América grande novamente” ou o slogan de ModiMake in India” é a mesma coisa, uma promessa vazia de fazer a economia crescer. Mas não se trata de homens que são contra a globalização ou que querem se desenvolver. Na verdade, eles são a favor da globalização, mas fazem estes ruídos de uma forma retórica e não de uma forma prática.

 

E em terceiro lugar, estes neofascistas da extrema direita asseguram maiorias eleitorais significativas mudando o terreno de discussão de ser sobre questões de classe para ser sobre questões sociais. O elogio aos militares e à disciplina ou opiniões contra as mulheres e as minorias sociais aguça a base da extrema direita, a quem é dito que seus problemas econômicos estão lá por causa da falta de disciplina na sociedade ou que eles estão lá porque as mulheres e as minorias sociais estão assumindo os empregos. Estas são visões sedutoras que precisam apenas produzir blocos eleitorais suficientemente comprometidos para garantir a reeleição.

 

As vitórias de Modi têm sido feitas nesse sentido. O Brasil é ligeiramente diferente, porque em Lula você tem um quadro dirigente para uma política de classe trabalhadora que retorna às grandes greves industriais dos anos 80 e ao seu período de governança. Não existe uma figura como Lula na Índia, e é por isso que a social-democracia indiana está completamente quebrada e segue a extrema direita em muitos de seus movimentos políticos.

 

A Índia tem um forte, mas extremamente fragmentado movimento comunista. Tanto seu partido – o PCI marxista – quanto outros fenômenos, como um movimento guerrilheiro maoísta de longa data, os naxalitas, se destacam neste cenário. Na sua opinião, há alguma chance de iniciar um diálogo?

 

A esquerda indiana é muito fragmentada, como você diz. A classe trabalhadora e a camponesa estão em movimento em muitas arenas, mas também estão fragmentadas. Um dos propósitos de um partido de esquerda é reunir as muitas lutas diferentes da classe trabalhadora e do campesinato e fazer com que suas lutas tenham uma base política, para enraizá-la em uma teoria de transformação social. Mas, como em todos os países, a própria esquerda se fragmenta com base em sérias discordâncias de linha e táticas.

 

A primeira grande divisão do movimento comunista, que começou em 1920, ocorreu em 1964 entre o Partido Comunista da Índia (PCI) e o Partido Comunista da Índia (Marxista) ou PCI(M), ao qual eu pertenço. O PCI(M) argumentou que a burguesia indiana não era uma aliada, que é o que a PCI sugeriu, e também que a URSS era um partido fraternal, mas não o centro da revolução mundial. Então, em 1967, uma seção se separou da PCI(M) para formar as correntes maoístas, que eles mesmos dividiram muitas vezes.

 

 

O maoísmo indiano acreditava que o Estado indiano era semi-feudal e semi-capitalista, o que significava que seu sistema parlamentar tinha que ser ignorado como um local de política e que o caminho armado seria bem sucedido. Os maoístas estão agora em grande desordem. Seu último congresso propriamente dito foi em 2007. Muitos de seus líderes estão na prisão e a atividade armada diminuiu. Uma seção dos maoístas – o PCI (Marxist-Liberation) – veio à tona em 1992. Estes setores da esquerda comunista – a PCI, a PCI(M), Libertação e uma série de outros grupos – trabalham em conjunto, tanto em frentes eleitorais quanto em lutas de massa. Eles também trabalham em estreita colaboração com setores de esquerda menores que operam com base em questões sindicais contra uma fábrica ou contra o esquema de privatização da água.

 

O principal objetivo não é a unificação em uma plataforma rasa de unidade, mas trabalhar em conjunto tanto quanto for possível e construir a unidade da classe trabalhadora e do campesinato. Nosso objetivo é unificar a classe trabalhadora e o campesinato, não para unificar todos os grupos de esquerda; mas a fragmentação entre os grupos de esquerda desorienta a classe trabalhadora e o campesinato se os grupos de esquerda passarem todo seu tempo lutando uns com os outros em público.

 

 

Seu partido é muito ativo em Kerala, uma região conhecida como o Estado vermelho da Índia. Kerala parece ser praticamente o único lugar no país onde a divisão de castas perdeu peso social, político, cultural e ideológico. Que fatores podem representar um desafio para a expansão desta democracia socialista a nível nacional?

 

Kerala é um Estado na Índia de 35 milhões de pessoas. O partido ao qual pertenço – o PCI(M) – faz parte da Frente Esquerda que governa o Estado e transformou a vida social de Kerala ao longo do século passado. Há algumas questões específicas sobre o desenvolvimento social de Kerala que fazem com que seu próprio projeto não seja exportável. O movimento de reforma – antes e ao lado dos comunistas – desempenhou um papel importante na ruptura das hierarquias de casta e patriarcado. Isso moldou a sociedade, facilitando a defesa de valores igualitários.

 

No norte da Índia, por exemplo, os movimentos de reforma eram fracos e, em alguns casos, os movimentos de reforma tinham uma orientação de direita. Lá os comunistas têm que mover uma agenda contra a hierarquia social, bem como construir maiorias para lutar pelo socialismo. Esta é uma agenda muito difícil. O governo de Kerala é um farol de esperança para todos nós em todo o mundo. Ele tem – em uma parte pobre do mundo – avançado uma série de políticas sociais, incluindo o planejamento inovador das pessoas para construir todo o orçamento do Estado, um forte sistema de saúde pública e educação, uma rica tradição de ação pública assistida pelos sindicatos, as organizações de mulheres e os grupos camponeses, cooperativas muito grandes – o que Karl Marx chamou de possível comunismo – que produzem uma gama de bens e serviços, inclusive de tecnologia para a internet e no comércio da construção civil. É preciso aprender mais sobre Kerala para dar ideias e esperança às pessoas em diferentes partes do mundo.

 

A esquerda brasileira tem acompanhado uma mobilização camponesa massiva e vitoriosa na Índia contra as políticas reacionárias do Modi, que promovem os interesses imperialistas. Você poderia nos falar um pouco mais sobre a contundente resistência desses camponeses e os desafios que se apresentam diante dos movimentos sociais?

 

Durante a pandemia, o governo Modi aprovou três leis agrícolas que elevariam a produção agrícola, fazendo com que os camponeses se tornassem como os motoristas do Uber. Os agricultores lutaram durante um ano e forçaram o governo indiano a derrubar as leis. Mas eles estão indo mais fundo, exigindo preços mínimos de apoio, eletricidade subsidiada e uma série de outras demandas que atraíram o governo para um papel mais intervencionista e social no sistema agrícola. Os agricultores reconhecem que esta é uma luta existencial, portanto, não vão recuar. Esta é a vitória trabalhista mais significativa em muitos anos.

 

A cada ano, cerca de 200 a 250 milhões de trabalhadores e camponeses entram em greve na Índia para pressionar o governo em uma série de questões. Este ano, a greve de dois dias no final de março foi um sucesso total.

 

Gostaria de saber sobre sua perspectiva do socialismo em nosso tempo. Após o desmantelamento capitalista da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), o liberalismo triunfou como a ordem hegemônica mundial, proclamando o “fim da história”. Sob não apenas o domínio global dos interesses imperialistas e capitalistas, mas também a crise organizacional e ideológica em que a classe trabalhadora se encontra, quais são as perspectivas do socialismo hoje? A classe trabalhadora ainda é a classe que tem o futuro em suas mãos? O socialismo ainda é uma alternativa real, uma alternativa capaz de vencer?

 

O rescaldo da queda da URSS foi catastrófico. Primeiro foi um desastre para o povo soviético, cuja vida desmoronou, a expectativa de vida caiu e a sensação de estar sendo maltratado se generalizou. Este atrito social na ex-URSS foi passado com comentários superficiais, em sua maioria da esquerda. A classe trabalhadora da URSS estava fragilizada e desiludida, o acesso aos serviços básicos foi cortado. A vida das mulheres deteriorou-se drasticamente, com altas taxas de desemprego e altas taxas de violência – características que tinham se acelerado no início dos anos 90. Lembro-me de ler que em 1993, apenas dois anos após o fim da URSS, quase três quartos daqueles que mantiveram seus empregos e ainda assim foram classificados como extremamente pobres eram mulheres. A perda de status e de poder das mulheres soviéticas nesta situação mal foi comentada na época.

 

A queda da URSS – quaisquer que tenham sido os problemas da própria URSS – causou vários problemas na esquerda global. Primeiro, como os Estados Unidos e os países capitalistas avançados não tiveram nenhum desafio político e ideológico de uma potência equivalente, os EUA foram capazes de conduzir uma agenda de globalização que integrou as economias mundiais ao sistema do Departamento do Tesouro do FMI – como uma corporação multinacional dos EUA. Centenas de milhões de trabalhadores na ex-URSS e na Europa Oriental, bem como da China, entraram na força de trabalho global para serem subordinados às empresas capitalistas globais, enquanto o FMI forçou os países do Terceiro Mundo – por meio de Programas de Ajuste Estrutural – a renunciar a suas leis trabalhistas e fragmentar os sindicatos. Grandes fábricas foram desmanteladas para dar lugar a novas cadeias de produção de commodities, protegidas por novas regras de propriedade intelectual.

 

Estes desenvolvimentos – novos trabalhadores no mercado de trabalho capitalista e a desarticulação da produção – enfraqueceram o sindicalismo, que tem sido o principal reservatório do poder de esquerda. Em segundo lugar, a nova liberalização do mercado agrícola, o declínio do crédito agrário subsidiado pelo governo, o fim de um regime de subsídio-tarifário para proteger a agricultura interna e o desaparecimento das agendas de reforma agrária enfraqueceram as organizações camponesas. Estes dois acontecimentos, juntamente com o crescimento das agendas intelectuais pós-modernas, penalizam severamente a esquerda.

 

 

Após a crise financeira global de 2007, a esquerda começou a se recuperar um pouco. Em todo o mundo, nossas forças têm crescido à medida que começamos a organizar a força de trabalho precária e informal, onde desenvolvemos força ao lado do setor de trabalho de cuidado cada vez mais organizado, e construímos uma nova confiança na esfera intelectual através de nosso entendimento geral do fracasso do neoliberalismo em responder às perguntas que o projeto socialista recentemente mais assertivo – como sob Xi Jinping a partir de 2013 na China – tem sido capaz de fazer.

 

A China aboliu a pobreza extrema durante a pandemia, um feito inigualável em qualquer Estado capitalista. Isto abriu espaço para discussões sérias sobre a vitalidade dos projetos socialistas – por mais limitada que seja – nas nações mais pobres em oposição aos projetos capitalistas nas nações mais ricas. Estes desenvolvimentos – juntamente com o crescimento de importantes movimentos que combatem o racismo, o patriarcado e o sufocamento social geral – forçaram-nos a repensar a natureza dos reservatórios da esquerda. Nossas lutas crescentes hoje indicam que estamos diante de uma escolha: ou permitimos que o horror do capitalismo e sua desumanidade da direita continuem a moldar o mundo ou então a esquerda tem que inaugurar uma era de dignidade humana e melhores relações humanas com a natureza.

 

Vemos agora um conflito militar se desenrolando na Europa Oriental, que se intensificou graças ao expansionismo agressivo da OTAN. Há um intenso debate na esquerda internacional sobre como caracterizar a natureza deste conflito. Qual é a sua avaliação? O que você acredita que está em jogo nesta guerra, quais são suas causas e quais são seus possíveis resultados?

 

Enquanto a Rússia permaneceu subordinada à agenda do Atlântico Norte ou Ocidental durante a época de Boris Yeltsin (1991-1999) e nos primeiros anos da presidência de Vladimir Putin, tudo estava bem. De fato, a Rússia aceitou a OTAN como “Parceiro para a Paz” em 1994, e dez anos depois, em 2004, a Rússia não se opôs quando sete países do leste europeu aderiram à OTAN, incluindo dois que fazem fronteira com a RússiaEstônia e Letônia. As duas guerras brutais da Rússia na Chechênia, sob Yeltsin entre 1994 e 1996 e sob Putin de 1999 a 2000, foram bem-vindas pelo Ocidente. Quase não houve críticas a nada que acontecesse na Rússia, enquanto a liderança política (Yeltsin, Putin e seus governos) permanecessem subordinados aos EUA e à OTAN, que é o Cavalo de Tróia dos EUA.

 

Após a crise financeira global em 2007, as elites russas que eram próximas a Putin começaram a reconsiderar sua orientação pró-Ocidente. Nos anos seguintes, a Europa permitiu que os EUA cortassem dois de seus três principais fornecimentos de energia – Irã e Líbia. A Rússia tornou-se cada vez mais importante para os mercados energéticos europeus, mas a Rússia também começou a fornecer energia e a desenvolver laços mais estreitos com a China. Os gasodutos do Ocidente tornaram-se interessantes para os chineses – onde aumentou o investimento – assim como para a Europa. 

 

Em 2015, a Polônia aderiu à Iniciativa Rodoviária e de Cinturão da China (BRI), depois a Itália aderiu em 2019. Dezessete países da Europa Central e Oriental aderiram ao BRI, abrindo as portas para um maior investimento chinês na Europa e para uma maior integração euro-asiática. Isto é o que os EUA se opuseram. Os EUA usaram todos os meios possíveis – incluindo o Cavalo de Tróia da OTAN – para forçar a Europa a romper os laços com a Rússia e a China e para reafirmar os laços com o Atlântico Norte. A campanha de pressão sobre a Ucrânia, que aqueceu em 2014, foi precisamente sobre isso e não sobre a democracia ou o controle russo ou algo parecido. Em 2002, os Estados Unidos já haviam se retirado do Tratado de Mísseis Antibalísticos, e quando os EUA deixaram o Tratado de Forças Nucleares em 2019, isso enviou uma forte mensagem à Rússia de que os EUA poderiam colocar mísseis em sua fronteira e ameaçá-la até a submissão. Estes são movimentos perigosos e desestabilizadores por parte dos EUA. Eles aceleraram o conflito na Ucrânia. Agora que Joe Biden disse que Putin deve cair, ou seja, que anunciou que os EUA querem uma mudança de regime na Rússia, a temperatura está muito alta.

 

19 de março marcou o aniversário da invasão do Iraque pelos EUA e pela Grã-Bretanha, enquanto outro grande conflito se desenrola hoje na Ucrânia. As comparações entre tais guerras podem elucidar algumas questões. Que diferenças e semelhanças podem ser tiradas deste debate, e o que ele nos diz sobre poder e imperialismo no mundo? E a pergunta maior permanece: foram aprendidas algumas lições nestes últimos vinte anos?

 

É evidente que a guerra dos EUA contra o Iraque resultou em mais de um milhão de vítimas. Não houve um verdadeiro ultraje sobre a destruição de Bagdá em 2003 ou sobre o índice de assassinatos pelos bombardeios e violência dos EUA. Ninguém inundou a internet com bandeiras iraquianas e nenhuma história de iraquianos comuns capturou a imaginação. Quando o repórter da Al-Jazeera Tareq Ayyoub foi assassinado intencionalmente por um tanque dos EUA em abril de 2003, ninguém se indignou. A situação com a Ucrânia não poderia ser diferente.

 

Há uma suposição subjacente de que uma guerra dentro da Europa, uma guerra em que as potências ocidentais não são os adversários (como na guerra contra a Sérvia em 1999), é uma guerra terrível; uma guerra contra o Iraque, a Líbia, o Iêmen, o Afeganistão ou a Somália é uma condição normal de vida. Isto se reflete na visão mais ampla da humanidade que temos. Supõe-se que seja aceitável que os trabalhadores na Índia, na Malásia ou no Haiti trabalhem por salários de fome porque se diz que eles não têm expectativas de vida semelhantes às dos trabalhadores na Alemanha ou no Canadá. Para que seus salários sejam suprimidos e seus super lucros sejam feitos pelas corporações multinacionais. Esta supressão salarial, tratada como normal, é a mesma forma como as mortes de afegãos por bombas norte-americanas são tratadas como normais, e a mesma forma como a negação de um refugiado sírio ao direito de entrar na Europa como os refugiados ucranianos é tratada como normal. Esta é a “divisão internacional da humanidade”. Trata-se de um escândalo evidente.

 

 

A esquerda foi para as ruas contra a guerra no Iraque. Nós protestamos contra a guerra na Líbia. Protestamos contra todas as guerras da OTAN e as guerras promovidas pelos EUA. Protestamos esta guerra também na Ucrânia. Mas protestamos igualmente como os EUA e a OTAN aceleraram as condições para a guerra ao colocá-las em movimento com um golpe na Ucrânia em 2014 e a permissão para que o ultranacionalismo e as políticas antidemocráticas floresçam no país (incluindo a proibição dos partidos de esquerda). Mas enquanto protestamos contra a OTAN, somos chamados de apoiadores de Putin como fomos chamados de apoiadores de Saddam e Assad e assim por diante.

 

Este é o poder da ideologia imperialista, na medida em que durante todos estes anos tentou camuflar sua violência deslocando-a por outro lado, que de alguma forma Saddam é pior que Ronald Reagan, cujas políticas destruíram centenas de milhões de vidas na América Central e na Ásia Central, ou que Putin é de alguma forma pior que Bush e Biden, cujas políticas mataram mais de um milhão de pessoas somente no Iraque. Temos que ser fortes e dignos na defesa de nossos pontos de vista contra a ideologia imperialista. Eles vão tentar nos difamar. Temos que ser fortes e nos agarrar à clareza que nos foi dada pelos movimentos populares.

 

 

Como este conflito na Europa Oriental pode definir os novos caminhos da geopolítica? Em meio a tudo isso, que conexões você vê entre o Oriente Médio e a América Latina? 

 

É muito cedo para ver exatamente o que vai sair da guerra na Ucrânia. Certamente, a primeira questão é que este terrível conflito vai criar uma inflação enorme dos preços dos alimentos e dos combustíveis, que terá um impacto negativo sobre a classe trabalhadora no mundo. É preciso ver como as elites russas se comportarão, se estarão dispostas a resistir à tempestade das sanções ou se gostariam de voltar a uma política maior de acomodação com o Ocidente. Tudo isso deve ser analisado, quer Putin se mantenha firme ou decida voltar à sua orientação anterior ou dar lugar a uma pessoa mais Yeltsin (seu mandato termina em 2024). 

 

Também deve ser visto como os chineses reagem, uma vez que a integração da China com o Ocidente é substancial e sua própria liderança pode não estar disposta a ficar ao lado da Rússia até o fim. Temos que ter cuidado para não saltar à frente das evidências e permitir que o pensamento desejoso conduza nossa análise. Não estamos nem perto do início de uma era de multipolaridade. O que vemos é a fragmentação do poder dos EUA e o surgimento de um novo período. O que esse período se assemelhará é difícil de prever completamente.

 

É claro que deve haver alerta na América Latina. Como a região começa a desenvolver laços com a China, como a adesão da Argentina à iniciativa Belt and Road Initiative em 2021, haverá uma pressão de Washington para cortar esses laços. O apoio morno à posição dos EUA sobre a Ucrânia define muitas das respostas dos estados latino-americanos, o que é de se esperar. A corrida de Washington para Caracas para ver se ela pode mudar o equilíbrio de forças rompendo o elo entre a Rússia e a Venezuela foi uma representação interessante da fragilidade de Washington.

 

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