O desafio amazônico do futuro cardeal

Dom Leonardo Steiner (Fonte: Wikimedia Commons)

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

01 Junho 2022

 

"Dom Leonardo Steiner, como cardeal, será a ponte entre a Amazônia e a Igreja de Roma num exercício difícil porque muitos muros permanecem erguidos", escreve Ivânia Vieira, jornalista, professora da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), doutora em Processos Socioculturais da Amazônia, articulista no jornal A Crítica de Manaus, co-fundadora do Fórum de Mulheres Afroameríndias e Caribenhas e do Movimento de Mulheres Solidárias do Amazonas (Musas).

 

Eis o artigo.

 

A nomeação de Dom Leonardo Steiner, arcebispo metropolitano de Manaus, para o colégio de cardeais implica numa série de questões relevantes no trato da Amazônia a partir da autoridade máxima da Igreja Católica. Pela primeira vez, um sacerdote com atuação na região será, oficialmente, inserido no corpo de assessores diretos do Papa.

 

Ao fazê-lo, o Papa Francisco altera o molde da Igreja de Roma lidar com a Amazônia, tema frequentemente presente nas falas papais e nas manifestações de fiéis na Praça São Pedro, no Vaticano. Ainda assim, as vozes e os rostos amazônicos pareciam distantes, projetados por meio de filtros e recortes, o que é um movimento delicado considerando a complexidade do universo Pan-Amazônico, desconhecido pela maioria de nós, de setores da Igreja, das instituições e dos governos.

 

Há 42 anos, João Paulo II fez a primeira visita papal à Amazônia brasileira, incluindo a cidade de Manaus. Em julho de 1980, uma multidão acompanhou as celebrações do Papa e, entre tantas falas marcantes, uma delas permanece atual, a do líder indígena Marçal Guarani, Marçal de Souza Tupã-y, assassinado a tiros três anos depois de denunciar a situação dos povos indígenas. Segue trechos do discurso de Marçal:

 

“Eu sou representante da grande tribo guarani, quando, nos primórdios, com o descobrimento desta pátria, nós éramos uma grande nação. E hoje, como representante desta nação, que vive à margem da chamada “civilização”, Santo Padre, não poderíamos nos calar pela sua visita a este país. Como representante, porque não dizer, de todas as nações indígenas que habitam este país, que está ficando tão pequeno para nós e tão grande para aqueles que nos tomaram esta pátria. Somos uma nação subjugada pelos potentes [poderosos], uma nação espoliada, uma nação que está morrendo aos poucos sem encontrar caminho, porque aqueles que nos tomaram este chão não têm dado condições para a nossa sobrevivência.

 

Nossas terras são invadidas, nossas terras são tomadas, os nossos territórios são diminuídos, [e] não temos mais condições de sobrevivência. Queremos dizer a Vossa Santidade a nossa miséria, a nossa tristeza pela morte dos nossos líderes assassinados friamente por aqueles que tomam o nosso chão, aquilo que para nós representa a nossa própria vida e a nossa sobrevivência neste grande Brasil, chamado um país cristão”.

 

As agressões, com mortes, aos povos indígenas foram intensificadas e são acompanhadas pelo silêncio governamental. O Papa Francisco, na exortação apostólica “Querida Amazônia”, fruto da escuta papal durante o Sínodo Especial para a Amazônia, escreve sobre quatro sonhos tendo a região como lugar de realização desse sonhar e no qual compromete a Igreja – “sonho com comunidades cristãs capazes de se devotar e encarnar de tal modo na Amazônia, que deem à Igreja rostos novos com traços amazônicos”. Dom Leonardo Steiner, como cardeal, será a ponte entre a Amazônia e a Igreja de Roma num exercício difícil porque muitos muros permanecem erguidos. O Papa e o sacerdote estudioso os conhecem, lidam com eles e têm disposição para, estrategicamente, enfrentá-los e animar a base de construção visível dos rostos amazônicos.

 

Leia mais