Rumo a uma pequena “globalização entre amigos”?

Fonte: Piqsels

12 Mai 2022

 

A pandemia e a guerra na Ucrânia estão acelerando o declínio da globalização que começou em 2008. Elas também podem levar a economia mundial a uma maior fragmentação dos sistemas produtivo e financeiro.

 

A reportagem é de Christian Chavagneux e Aude Martin, publicada por Alternatives Économiques, 05-05-2022. A tradução é do Cepat.

 

Depois de uma crise financeira, de uma pandemia e de uma guerra na Europa, como está a globalização econômica? Ela está definitivamente menos bem! De que ponto de vista? A globalização é, em primeiro lugar, a organização de cadeias produtivas em nível global pelas multinacionais. Elas decidem onde cada coisa é produzida e em que condições de trabalho. Essas escolhas já são menos globais desde 2008 e serão ainda menos no futuro próximo.

 

A globalização é também a circulação da poupança em busca de investimentos internacionais, com bancos e investidores financeiros decidindo quem recebe os capitais (país, empresas, coletividades locais etc.) e a que taxa de juros. Aí também o declínio está em marcha. Mas não a ponto de provocar uma desglobalização completa ou de suprimir o domínio do dólar sobre o sistema monetário internacional. A globalização econômica não desaparecerá, mas continuará a diminuir de intensidade.

 

Uma dinâmica interrompida

 

Para apreciar plenamente a importância das mudanças em andamento, precisamos fazer um recuo na história. Após a Segunda Guerra Mundial, a globalização seguiu uma primeira fase de desenvolvimento gradual desde o final da década de 1950 até a década de 1990. Depois, até 2007-2008, entramos em uma segunda fase descrita pelo pesquisador americano Dani Rodrik como “hiperglobalização”, com uma explosão dos investimentos de multinacionais no exterior e uma forte circulação internacional de capitais.

 

A partir da crise financeira de 2008, entramos em uma terceira fase, durante a qual a globalização econômica atingiu um platô antes de recuar um pouco. A Organização Mundial do Comércio (OMC) monitora regularmente a participação das empresas nas cadeias produtivas globais e hoje fala em “slowbalization”, em desaceleração.

 

 

Uma forma de medir o grau de globalização da produção é observar a participação, no valor agregado nacional, dos bens intermediários, ou seja, dos produtos inacabados, destinados a serem exportados para serem retrabalhados em outro país. Passou de 9,6% em 1995 para 14,2% em 2008 e 12,1% em 2020; o declínio já começou.

 

No lado financeiro, vemos as mesmas tendências. As atividades internacionais dos bancos caíram em um quarto entre sua maior alta em 2008 e o final de 2021, e em até 40% para os bancos da zona do euro. Da mesma forma, os Estados agora se financiam cada vez menos com a contribuição da poupança externa. Por exemplo, a parcela de detentores não residentes da dívida pública caiu, na França, de 71% em 2010 para 48% no final de 2021. E para o maior mercado de dívida pública do mundo, o dos Estados Unidos, a participação de detentores estrangeiros é de cerca de 45% do total, ante quase a metade em 2008.

 

Cadeias de suprimentos vulneráveis

 

É sobre essas tendências de declínio da globalização que sobreveio uma pandemia global em 2020 e o conflito na Ucrânia em 2022. Os dois eventos mantêm a dinâmica de refluxo da globalização.

 

A OMC aponta que “a Covid-19 expôs sobremaneira as vulnerabilidades de muitas cadeias de produção”. Quando as fábricas estão fechadas e os portos bloqueados do outro lado do mundo, mesmo que a situação melhore em seu país, é difícil conseguir suprimentos. E no seu exercício de previsão publicado no final de abril, o Fundo Monetário Internacional (FMI) sublinha que “a desagregação das cadeias de abastecimento tem importantes efeitos reais nos estoques, na produção e nas vendas das empresas. Esses efeitos ainda estavam presentes no início de 2022”.

 

Quando os casos de Covid rebrotam em Xangai e o principal porto comercial da China se encontra fechado, grande parte da globalização está em pane. Quando o conflito na Ucrânia priva o mundo de parte da produção de alimentos e de determinados metais (paládio, ródio), é a mesma coisa. Longe da globalização feliz, os vínculos comerciais internacionais aparecem agora aos olhos dos Estados e das empresas como potenciais fontes de vulnerabilidade.

 

 

Consequentemente, dos Estados Unidos à Europa, os líderes políticos estão desenvolvendo novas políticas industriais, em semicondutores, baterias elétricas, nuvem etc., para ganhar autonomia e ser menos dependentes do resto do mundo. E em todas essas indústrias estratégicas, os governos colocam agora mais barreiras à possibilidade de investidores estrangeiros comprarem empresas locais. Em média, no período 2003-2007, para os países que modificaram suas regulamentações em relação aos investidores estrangeiros, apenas 15% dessas regulamentações eram restritivas, sendo um terço em 2020.

 

Além disso, em um discurso proferido no dia 13 de abril, Janet Yellen, secretária do Tesouro dos EUA, apresentou um novo conceito, o de “globalização entre amigos” (friendshoring). “Nosso objetivo deve ser o de ter um comércio livre, mas seguro”, precisa ela, entendido no sentido da integração econômica reservada aos países aliados no cenário político internacional.

 

Análise semelhante é feita pela OMC, para quem um dos efeitos diretos da guerra na Ucrânia será provocar “um movimento para uma globalização entre amigos em que bens estrategicamente importantes sejam produzidos nacionalmente ou provenientes de países aliados”.

 

Deste ponto de vista, “a guerra na Ucrânia representa potencialmente um choque mais forte para a globalização do que a pandemia”, analisa Sébastien Jean, professor no Conservatório Nacional de Artes e Ofícios (Cnam). Para ele, “a guerra terá um impacto duradouro nos comportamentos: a clivagem com a Rússia veio para ficar e o uso das sanções econômicas aumentará. Isso aumentará a busca pela autossuficiência. É o caso da China, dos Estados Unidos e da Europa, onde setores considerados estratégicos serão massivamente subsidiados para garantir a produção local”.

 

A tudo isso podemos acrescentar que desde o acordo alcançado em 2021 sobre a implementação, prevista para o final de 2023, de uma taxa mínima de tributação dos lucros apresentados no estrangeiro por multinacionais, os Estados decidiram recuperar a soberania fiscal.

 

Em suma, para Larry Fink, presidente do BlackRock, o maior fundo de investimentos do mundo, após a pandemia, “a invasão à Ucrânia por parte da Rússia pôs fim à globalização como a conhecemos nos últimos trinta anos”.

 

O fim do dólar? Não imediatamente!

 

A economia global poderia, assim, experimentar um cenário de maior fragmentação. Com as cadeias de produção mais nacionais ou mais regionais e mais flutuantes de acordo com os caprichos da geopolítica global. Uma fragmentação que afetará não apenas o sistema produtivo, mas também as finanças globais.

 

As sanções impostas à Rússia aceleraram a perda de confiança no dólar e no euro, garantiu, no início de abril, Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin. É este realmente o caso? Em resposta à eclosão da guerra na Ucrânia, o Ocidente congelou todas as reservas monetárias mantidas em seu solo pelo Banco Central da Rússia.

 

“Esta é a primeira vez, e corre o risco de reduzir um pouco a confiança que o resto do mundo tem no dólar, tradicionalmente percebido como o ativo mais seguro do mundo”, admite Carl Grekou, economista do Cépii (Centre d'Études Prospectives et d'Informations Internationales). Esse congelamento mostra que mesmo o dólar não é uma reserva de valor 100% segura e que pode se tornar uma fraqueza no caso de seu detentor não se alinhar com os Estados Unidos.

 

A Rússia já havia entendido isso, pois seu banco central reduziu recentemente suas reservas em dólares (representavam 16% do total em junho de 2021, contra 22% um ano antes) a favor do euro e, em menor medida, da libra esterlina e do renminbi chinês.

 

 

Mas será preciso mais para desafiar o domínio do dólar no sistema monetário internacional herdado do sistema de Bretton Woods, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial. “A internacionalização de uma moeda é avaliada pela sua utilização off-shore, fora do seu território nacional, para trocas comerciais e financeiras, como reserva cambial (…). A importância do país no comércio internacional, seu peso econômico e o desenvolvimento de seu sistema financeiro são os elementos fundadores desse papel”, observa Mary-Françoise Renard, professora de economia da Universidade Clermont Auvergne. A este respeito, o dólar está à frente. Sua participação nas reservas do banco central certamente diminuiu desde a década de 2000 (-12 pontos percentuais), mas ainda é de 59%, muito à frente do euro (20%).

 

No comércio internacional, as faturações em dólares e em euros têm uma proporção semelhante (43%, contra 37%). “No entanto, observemos a dimensão internacional do dólar: os Estados Unidos representam aproximadamente 11% do comércio mundial, ou seja, uma relação de faturamento em dólares/quota no comércio de 3,7, contra apenas 1,2 para o euro”, pondera Carl Grekou.

 

E até agora, o dólar não tem concorrentes sérios. Na ausência de mecanismos de solidariedade orçamentária na zona do euro, que permitam assegurar que as dificuldades de pagamento de um país europeu sejam cobertas pelos outros países, a moeda única não é um porto seguro suficientemente confiável. Não oferece ativos suficientes percebidos como seguros, com exceção da dívida emitida por alguns países, como a Alemanha.

 

A alternativa chinesa

 

E se uma mudança vier da China? Pequim vem se esforçando há vários anos para internacionalizar sua moeda, como evidenciado pelo estabelecimento, em 2015, de um sistema de pagamento interbancário (Cips, para China International Payment System) alternativo ao Swift.

 

 

“A transição ecológica, por exigir o uso de terras raras detidas em grande parte pela China, também poderia jogar a favor do uso do renminbi”, explica Carl Grekou. Internacionalizar o renminbi? Sim, mas não muito rapidamente. “Embora os planos quinquenais ainda contemplem este objetivo (…), não é atualmente a prioridade do regime, que enfrenta desequilíbrios internos (endividamento das empresas, setor imobiliário) que podem agravar uma política de abertura financeira demasiado rápida”, pondera Sophie Wieviorka, economista especializada em Ásia no Crédit Agricole.

 

“As mudanças monetárias internacionais não podem ser decretadas. São uma questão de confiança. E assim, enquanto o mundo mantiver a confiança na estabilidade da economia americana e em seu poder, o dólar manterá seu status privilegiado”, conclui Mary-Françoise Renard.

 

E o que o rublo tem a ver com tudo isso? “Quanto mais a Rússia politizar seu sistema financeiro – por exemplo, forçando seus exportadores a vender suas moedas estrangeiras ao banco central, ou decidindo unilateralmente que os europeus devem pagar pelo gás em rublos –, mais forte será a proteção oferecida pelas moedas ocidentais”, analisa Zach Meyers, pesquisador do Centre for European Reform.

 

O dólar ainda não está completamente fora de moda. Deve continuar a ser um instrumento monetário internacional por mais algum tempo, numa economia que se desglobaliza e corre o risco de fragmentação. Amanhã, como ontem, a globalização econômica continua em grande parte nas mãos do leader americano.

 

Para combater as tentativas de atores privados de criar sua própria moeda (o Facebook com o Diem, por exemplo) e tornar as transações mais seguras e instantâneas, os bancos centrais estão considerando a criação de moedas digitais. A China é a mais avançada nesse caminho, graças ao e-yuan. “Desde o final de 2019, o país tem uma moeda digital do Banco Central operacional, lançada e testada através de programas piloto”, contam Michel Aglietta, Guo Bai e Camille Macaire em um livro sobre o assunto, publicado em meados de abril. E-yuans foram oferecidos a indivíduos durante o Ano Novo Chinês de 2021 e chegaram diretamente em sua conta.

 

Quais são as consequências para o sistema monetário internacional? Tudo depende de como os bancos centrais cooperam em escala global. “Se vários países desenvolverem sua própria moeda digital do Banco Central, pode ocorrer uma incompatibilidade dos códigos digitais registrados no protocolo de uso. Se essas moedas não forem compatíveis entre si, as transações internacionais se tornam caóticas”, explica Michel Aglietta em entrevista ao jornal Les Echos. E o sistema monetário mundial se fragmenta.

 

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