O alambique do General (Confissões sobre os carismas de um futuro Papa)

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26 Novembro 2021

 

Nestes tempos que obrigam a mudança, tempos dolorosos, desafiantes e também confusos – como é hoje – recordei uma circunstância do passado que permite compreender, creio, a perspectiva inovadora que contem aquelas observações distantes. Era 2008, dia 22 de julho. Uma terça-feira, para ser mais exato. Em pleno centro de Buenos Aires, na sede de uma instituição relacionada com o Direito, Bergoglio – naquele momento arcebispo de Buenos Aires e presidente do episcopado argentino – apresentava um livro do padre Giussani por convite dos responsáveis de Comunhão e Libertação. Era a quarta vez que o fazia, e nesta oportunidade tratava-se de “Se pode viver assim?”, uma antologia de diálogo publicados em 1994 cujo subtítulo é “Uma aproximação estranha à existência cristã”. Naquela oportunidade, como nas anteriores, Bergoglio afirmou em primeiro lugar que aceitava os convites do movimento local do CL pela gratidão que Giussani o inspirava. Quando conheceu seus escritos – repetiu – sentiu que eram “para ele”, que lhe “acomodavam a vida”.

 

O relato é de Alver Metalli, em artigo publicado no seu blog Contraluz, 25-11-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Porém, diferente das vezes anteriores, Giussani já havia falecido. A questão de sua presença, agora que o fundador da CL já não era uma referência viva, era mais atual que nunca e creio que Bergoglio havia captado a inquietude do carisma na ausência do fundador. Por isso na apresentação decidiu se deter “em um ponto que não se encontra nas reflexões de Giussani e levantar o problema”, disse depois de ter exposto alguns dos principais conceitos do livro sobre o que estava falando. Com simplicidade, Bergoglio afirmou: “Giussani morreu. Deixou-nos seus escritos, suas intuições, seus ensinamentos, sua escola, seu caminho”. A pergunta que Bergoglio se fazia era “o que supõe fazer-se responsável da herança de um fundador, em concreto da herança escrita? Qual é a hermenêutica para fazê-lo?”. Resultava evidente que sua abordagem não era precisamente uma pergunta retórica. Imediatamente acrescentou que “a grande tentação que existe nestes casos é codificar a herança e fazer um manual das ideias ou dos ditos, de Giussani, nestes casos”.

Dito tudo isso tendo a seu lado os responsáveis de Comunhão e Libertação na Argentina, frente a pouco mais de uma centena de pessoas. Creio que de alguma maneira queria alentar os presentes para que seguissem adiantes, pressentido uma certa, inevitável e longa dispersão na base de Comunhão e Libertação.

Depois do encontro público, eles lhe perguntaram em particular por que ele estava tão preocupado. “Porque isso acontece com todos”, respondeu ele. Isso porque o desaparecimento do fundador representa um problema inevitável para aqueles que o seguem. Pouco antes, no auditório, havia afirmado: “Isto é válido para todos os carismas. Propomos agora que a voz de Giussani ainda está viva. Mas daqui a vinte anos, este critério terá de ser levado em consideração”.

Qual é o critério e como é levado em consideração?

Duas semanas depois da apresentação em Buenos Aires, o cardeal Bergoglio voltou a alertar sobre o risco de codificar a experiência cristã, diante de uma audiência que não era de CL e seus apoiadores. Foi quando apresentou o livro “Conviver”, do fundador da Comunidade de Santo Egídio, Andrea Riccardi. Para explicar sua preocupação, recorreu a uma anedota da história da Companhia de Jesus, fundada por Santo Inácio de Loyola, à qual ele próprio pertence. Ele contou um momento na epopeia jesuíta referindo-se ao superior da Companhia, que é conhecido por um título militar, General – em espanhol. Vale a pena reler um trecho das anotações que fizemos naquela época.

“Já o terceiro General depois de Santo Inácio teve a tentação de codificar a intuição inaciana da fórmula do Instituto e das constituições e normas começou a aparecer para todos: para os sacerdotes, para os alunos, para o sacristão, para o porteiro... Tudo o que eles tinham que fazer era criptografado”. É provável que Bergoglio se referisse a Everardo Mercuriano, eleito em 1573, sacerdote belga, terceiro na linha de sucessão depois de Diego Laínez (eleito em 1558) e Francisco Borgia (eleito em 1565). Observe a duração média do mandato dos três primeiros superiores gerais, que foi de sete anos. Bergoglio disse então: “Muito mais tarde, durante o pontificado de Pio XI, um General da Companhia recodificou todas as regras, isto é, os Jesuítas passaram por uma segunda destilação, um segundo alambique. Este General escreveu o que é chamado de Epítome [o compêndio] do Instituto da Companhia, onde a Constituição e as Regras eram misturadas, todas bem codificadas por assunto; um aparato crítico muito grande. Aquele General, um homem muito santo, foi ver o superior dos beneditinos e trouxe de presente o que ele havia escrito. O beneditino olhou para ele e disse: ‘Padre, com isso o senhor acabou de matar a Companhia’”. O general, mais uma vez citado espontaneamente por Bergoglio, deve ter sido o polonês Włodzimierz Ledóchowski, cujo mandato de superior-geral cobriu o pontificado de Pio XI, de 1915 a 1942.

Bergoglio respondeu então à sua própria pergunta – “Como assumir a herança de um fundador” – com as sugestões de São Vicente de Lerino [Nota: Escritor eclesiástico do sul da Gália do século V] para preservar a integridade da fé: ser fiel ao dinamismo histórico e aos diferentes lugares, tempos e povos e, ao mesmo tempo, preservar o carisma na sua riqueza mais profunda fazendo-o andar, não o fechando. “O carisma de dom Giussani, neste caso, será preservado se for consolidado ao longo dos anos, não se for preservado; isto é, se com o passar dos anos se enraíza nos homens e nas mulheres, se se expande e adquire outras formas com o tempo, se se sublima em expressões cada vez mais ricas com o tempo. É um risco, sem dúvida, mas risco maior é a codificação, tendo o carisma enlatado. Em seguida, o arcebispo se dirigiu diretamente a “quem segue” o carisma de dom Giussani: “Ou são encorajados a caminhar na fidelidade ao carisma e aos tempos vividos ou ficam estagnados e deixam de ser fecundos”.

Voltei a ouvir o eco destas amistosas confidências de tantos anos atrás nas palavras que o Papa dirigiu, no sábado, 16 de setembro de 2021, aos responsáveis dos movimentos convocados a Roma para lhes falar das responsabilidades de governo em associações leigas. Nesta última ocasião, voltou a relacionar a fidelidade ao carisma com a mudança: “De fato, pertencer a uma associação, a um movimento ou a uma comunidade, sobretudo se referindo a um carisma, não deve envolver-nos numa ‘torre de marfim’, que faz nos sentirmos seguros, como se não fosse necessário responder aos desafios e às mudanças”. Como em 2008, observou que “é compreensível que, após a morte do fundador, a fidelidade seja entendida como forma de proteção. É uma tentação que ocorre com frequência em novas congregações ou novos movimentos e, portanto, considerar que nenhuma mudança é necessária pode se tornar uma falsa segurança. As novidades também envelhecem em breve!”. E como naquela época sugeriu que para salvaguardar um patrimônio do qual nasceram as formas de educação e presença, é necessário “aprofundar cada vez mais este carisma e refletir sobre ele, para incorporá-lo nas novas situações”. Formas diferentes que, claro, não mudam o essencial.

 

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