O Papa fica do lado de Marx

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11 Junho 2021

 

"O que realmente impressiona pela leitura da carta de Francisco a Marx é sua conclusão. Para pedir-lhe que ficasse, o Papa recorda o diálogo entre São Pedro e Jesus, quando Pedro disse ao seu Mestre para se afastar dele porque era um pecador. E Jesus respondeu para "apascentar" suas ovelhas. Aquele diálogo está na base da investidura do Sucessor do Chefe dos Apóstolos, isto é, de todos os Papas que se sucederam na história. Pode ser lido como um aval de Francisco em favor de seu pupilo, Marx, em vista de um futuro Conclave?", escreve Maria Antonietta Calabrò, jornalista, em artigo publicado por Huffington Post, 10-06-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Rejeita a oferta de renúncia do cardeal e faz uma comparação singular com o apóstolo Pedro. Um aval em vista de um futuro conclave?

O Papa Francisco rejeitou a renúncia apresentada pelo Cardeal Reinhard Marx do governo da Diocese de Munique e Freising (que já fora sé do bispado de Joseph Ratzinger). Ele o fez em uma carta na língua original espanhola (que é a língua materna do pontífice), da qual a imprensa do Vaticano forneceu a tradução para o alemão (o idioma do destinatário). Nenhuma tradução italiana foi publicada (o italiano é o vernáculo da Cúria do Vaticano).

O fato de que o Papa teria rejeitado a renúncia era dado como certo. Marx a havia apresentado como uma forma de assumir a responsabilidade pela "catástrofe da pedofilia" na Alemanha - assim ele escreveu - (Marx também foi presidente da Conferência Episcopal alemã por muitos anos).

Além disso, será publicado somente no próximo mês um relatório independente sobre a pedofilia na diocese de Munique (depois daqueles que trataram das dioceses de Regensburg e Colônia).

Afinal, Marx é um dos principais homens do pontificado de Francisco. A renúncia de Munique teria desencadeado aquelas no Vaticano (como chefe do Conselho para a Economia e como membro do Conselho de Cardeais que tem ajudado o Pontífice no governo da Igreja Universal).

Mas o que realmente impressiona pela leitura da carta de Francisco a Marx é sua conclusão. Para pedir-lhe que ficasse, o Papa recorda o diálogo entre São Pedro e Jesus, quando Pedro disse ao seu Mestre para se afastar dele porque era um pecador. E Jesus respondeu para "apascentar" suas ovelhas. Aquele diálogo está na base da investidura do Sucessor do Chefe dos Apóstolos, isto é, de todos os Papas que se sucederam na história. Pode ser lido como um aval de Francisco em favor de seu pupilo, Marx, em vista de um futuro Conclave?

As três laudas da carta enviada pela Casa Santa Marta hoje, 10 de junho, estão cheias de "afeto fraterno" do Papa pelo cardeal, porque, explica Francisco, ele aprova a forma como Marx enfrentou, assumindo a responsabilidade, a "crise da pedofilia".

Não há - nem mesmo na carta do Papa como antes na de Marx - a menor referência a outras questões - controversas - levantadas pelo polêmico caminho sinodal alemão (nada sobre padres casados, nada sobre diaconisas, para sermos bem claros), mas unicamente o dramático, duradouro, sistêmico ou sistemático (se preferir) drama das violências sexuais contra menores.

Francisco mostra que compartilha a maneira como Marx assumiu o controle da crise e não a transformou em conflito. Ele não agiu como Pilatos, que lavou as mãos diante da decisão de outros de executar Cristo ("Eu sou inocente deste sangue ... que recaia sobre vós"). E aqui Francisco usa uma palavra que soa particularmente forte no território alemão (dado o precedente histórico de Martinho Lutero): ele usa a palavra "reforma". Reforma que deve ser, primeiramente, reforma de si mesmos para o Senhor. É o único caminho, escreve o Papa, do contrário, se não se colocar em jogo a própria carne, acabar-se-ia por ser "ideólogos da reforma". “Os silêncios, as omissões, dar maior peso ao prestígio das instituições, levam apenas ao fracasso pessoal e histórico e trazem de volta a convivência com ‘esqueletos no armário’, como reza o ditado”.

Em suma, renovação espiritual. Assim como Pedro fez diante de Jesus, que se reconheceu como pecador.

Em um momento em que muitos cardeais estão "fora do jogo" (os italianos e a Secretaria de Estado envolvidos pelo caso Becciu, o Cardeal Pell, agora na casa dos 80 anos fora do Conclave, a hierarquia estadunidense dividida e empoleirada principalmente na "estéril” defesa de valores não negociáveis), a carta de Francisco parece dar o seu aval sobre o que é o percurso, o caminho do Evangelho.

Nada de suposto "cisma alemão". Talvez outro alemão vá a Roma, para continuar a reforma de seu predecessor.

Este é o futuro. Mas o futuro - como argumentavam os gregos - está sempre nas mãos de Júpiter.

 

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