20 Mai 2021
Atores/as, cantores/as, atletas, produtores negros, entre eles Denzel Washington, Jojo, Darryl Strawberry, Dexter Darden, Angie Stone, Mark Burnet e Roa Downey, criadores da minissérie para a televisão “A Bíblia”, alugaram salas de cinema para a exibição do documentário Chicago: America's Hidden War, lançado no dia 12 de maio.
A reportagem é de Edelberto Behs, jornalista.
O documentário, liderado pelo pastor Dimas Salaberrios, apresenta, numa abordagem jornalística, a violência de uma verdadeira guerra interna em Chicago. Ele traz à tela testemunhos em primeira mão de pregadores de rua, cidadãos/ãs e crianças que testemunham só se sentirem seguros “na escola e na igreja”, enquanto a violência aumenta.
O filme retrata crianças de Chicago e a violência traumática que sofrem diariamente, ao se depararem com o contínuo desaparecimento de espaços seguros, num sistema educacional negligente, e com a morte regular de familiares e amigos.
Em 2013, foram fechadas mais de 50 escolas públicas em Chicago, o que resultou no corte de 850 empregos e forçou as crianças a frequentarem educandários em outras áreas que não as de sua zona de residência. Entre 2010 e 2014, a violência de gangues matou 114 crianças em idade escolar.
De acordo com o documentário, 90,9% das mortes em Chicago em 2020 resultaram de violência armada. Relatórios indicam que uma pessoa é baleada a cada duas horas e uma pessoa é morta por arma a cada dez horas. “É momento de todos nós nos unirmos e tomar uma posição porque esta não é mais uma guerra oculta da América. Esta é a nossa guerra”, frisa a sinopse do filme.
“Quando você tem mais pessoas morrendo em Chicago do que no Afeganistão, você tem uma guerra em suas mãos”, arrolou uma figura chave do filme, o pastor Crey Brooks. “O índice de crimes entre negros e latinos é alarmante”, denunciou Salaberrios.
Em entrevista ao Christian Post, Salaberrios frisou que é hora dos cristãos praticarem o que foram chamados a fazer. “ Ruanda está acontecendo em solo americano; negros estão sendo assassinados”, denunciou.
Salaberrios é um ex traficante de drogas que se tornou missionário e se sentiu chamado a se posicionar a respeito da guerra de armas em Chicago. Depois de uma greve de fome por cinco dias de paz na cidade, ele conseguiu reunir igrejas, líderes de gangues e a comunidade local para dar passos em direção à paz.
O documentário mostra como mais de 100 igrejas tomaram as ruas de Chicago e conseguiram, com a manifestação massiva, que o índice de criminalidade caísse mais de 20% em 12 meses, ao oferecerem atividades esportivas, educacionais e um currículo de Aprendizagem Social Emocional.
Mas ainda é preciso mais para se alcançar a paz. Os cineastas esperam encorajar as igrejas a se envolverem e alcançarem mudanças genuínas em Chicago.
A Universidade de Chicago construiu projeto para combater a violência armada. Relatório do seu Laboratório Criminal (CrimeLab), divulgado em inícios de março, calculou os custos sociais provocados pela violência, que chegam a 2,5 bilhões de dólares (cerca de 13,14 bilhões de reais) por ano, ou cerca de 2.500 dólares (13,1 mil reais) por família na cidade.
“A violência armada continua sendo uma ameaça generalizada e evitável para a vida e a saúde de jovens e famílias de Chicago. Muitas dessas mortes e ferimentos poderiam ser evitadas se nossa sociedade investisse recursos nas intervenções mais eficazes”, defendeu a médica pediatra de emergência no Children’s Memorial Hospital.
O CrimeLab detalha a extensão do problema e suas causas:
a) Álcool, problemas de saúde mental e fracasso escolar contribuem para a violência armada.
b) A idade mais vulnerável para o envolvimento dos jovens com gangues e violência dá-se no início da adolescência, quando as prisões e a evasão escolar aumentam.
O CrimeLab constatou que para cada assassinato, 70 pessoas são desencorajadas a se mudar para Chicago ou motivadas a se transferirem de Chicago para outra cidade.
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