Dez anos da revolução síria

Destruição na área de Bab Dreeb em Homs, Síria, em 2012 (Fonte: Wikimedia Commons)

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18 Março 2021

"A terra ardeu, e a Síria de al-Assad é um país que não existe mais. Milhões de sírios e sírias no exílio, em acampamentos de refugiados e nas prisões do regime seguem almejando construir uma Síria livre e democrática naquela terra arrasada pelo fogo”, escreve Carolina Bracco, cientista política e doutora em Culturas Árabe e Hebraica, professora na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, em artigo publicado por Página/12, 16-03-2021. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

“É sua vez, doutor”, escreveram algumas crianças na parede da escola de Deraa, ao sul da Síria, no dia 6 de março de 2011. Com o impulso da Primavera Árabe, que havia destituído dois ditadores da região, Ben Ali, na Tunísia, e Hosni Mubarak, no Egito, agora, era a vez do sírio Bashar al-Assad, portador de um diploma de oftalmologista.

As crianças de Deraa foram sequestradas e torturadas pelas forças de segurança com a brutalidade habitual que as caracteriza, mas desta vez despertou a consciência de milhões de pessoas que foram às ruas, no dia 15 de março, para reivindicar pacificamente seu direito a uma vida digna, tal como havia acontecido, meses antes, na Tunísia e no Egito. Assim começou e continua a revolução síria: com o anseio de liberdade e dignidade.

Depois veio “a guerra síria” e mais tarde “a crise síria”. Mas primeiro foi a revolução e mudou tudo. Muito pouco se fala das organizações de base, as técnicas de resistência não violentas e a desobediência civil. Muito pouco se fala do povo sírio, de seu direito à liberdade, à dignidade e o seu mais básico direito à vida.

O poder das manifestações, que rapidamente se tornaram multitudinárias, quebraram a distância entre as pessoas, essa distância que os regimes totalitários criam, que minam a solidariedade entre as pessoas, as isola e as condena à mais absoluta solidão. “Ainda que vivíamos juntos, estávamos separados. Seu vizinho era seu vizinho, mas se você dizia algo incorreto, podia acabar na prisão”, comentava o jornalista Ramy Jarrah.

Esta Síria de “paredes com ouvidos” foi edificada por Hafez al-Assad, o pai de Bashar, após um golpe de Estado, em 1971, que o manteve no poder até sua morte, em 2000. Sua autocracia se solidificou sobre a base de uma ampla rede de corrupção em aliança com uma extensa rede de serviços secretos: os mukhabarat. Não são necessariamente agentes especiais, pode ser um companheiro da universidade, um entregador de jornais, um vizinho que tem a missão de reportar comentários ou atividades contrárias ao regime ou potencialmente “perigosos”.

Assim, construiu-se um emaranhado de desconfiança mútua ao ponto de que todos sabiam que em cada aula, reunião familiar ou lugar de trabalho havia mukhabarat prestes a entregar qualquer pessoa, em qualquer momento. A discricionariedade própria da prática fez com que ninguém confiasse em ninguém e que as prisões estivessem cheias de opositores e inimigos pessoais dos mukhabarat, que também controlavam a maioria das atividades comerciais do país.

Durante anos, Hafez al-Assad preparou seu filho mais velho Basel para que o sucedesse, após sua morte, mas este morreu em um acidente automobilístico, em 1994. Sendo assim, inesperadamente, o “doutor”, que estava distante dos assuntos familiares, vivendo em Londres, precisou se preparar para o cargo, que assumiu em 2000. Os primeiros anos pareciam dar algum respiro à sociedade síria, com a abertura de serviços de telecomunicações e internet. No entanto, rapidamente, foram desenvolvidas novas estratégias de censura, perseguição política e corrupção habilitadas pelas modernas tecnologias e setores da economia relacionados.

Quando começaram as revoltas, Bashar estava há mais de uma década no poder e, em vez de recuar como Ben Ali e Mubarak, iniciar uma transição democrática e negociar algum tipo de acordo, declarou guerra ao seu próprio povo. Desde então, “Assad ou queimamos o país” é o lema das forças leais ao presidente, ao longo desta década de massacres, deslocamentos forçados, perda do patrimônio histórico do país, surgimento e fomento da radicalização dos grupos islamistas e muito mais.

“A Síria que vocês conheceram não existe mais”, assim começa e termina o livro “La tierra empezaba a arder” da escritora argentina de origem síria Cynthia Edul, e que relata sua viagem ao país de seus ancestrais, em outubro de 2010. A terra ardeu, e a Síria de al-Assad é um país que não existe mais. Milhões de sírios e sírias no exílio, em acampamentos de refugiados e nas prisões do regime seguem almejando construir uma Síria livre e democrática naquela terra arrasada pelo fogo.

 

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