Síria, a esquecida

Foto: Boyaser/Wikimedia Commons

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

22 Outubro 2020

Em inícios deste ano, múltiplos acontecimentos deixaram a questão síria em um segundo plano nas esferas midiática e política, na Europa ocidental e nos Estados Unidos. A crise sanitária, econômica e social derivada da propagação do coronavírus e o intenso e contínuo acompanhamento diário da pandemia, por um lado e, por outro, a sucessão de acontecimentos no Oriente Médio e África - no Iraque e Líbia, depois no Líbano, e antes disso na Argélia e Sudão -, junto com as notícias da normalização das relações dos Emirados Árabes Unidos e Bahrein com Israel, distanciaram a Síria dos “radares” da cobertura e dos observatórios daqueles assuntos que afetam a região.

A reportagem é de Ziad Majed, publicada por Rebelión, 21-10-2020. A tradução é do Cepat.

Assim, hoje, o conflito na Síria e pela Síria já é uma “luta” distante do interesse que suscitava em muitos âmbitos jornalísticos e políticos. Se não fosse por algumas conversas dispersas e os poucos artigos que abordam o fenômeno dos mercenários sírios que lutam na Líbia e a nova guerra que explodiu entre os azeris e os armênios, em Nagorno-Karabakh, seria possível dizer que lembrar da questão síria passou a ser algo que compete exclusivamente a alguns ativistas que acompanham a questão nas redes sociais e a alguns pesquisadores cujo campo de especialização continua sendo o país.

Mapa da Síria. (Fonte: Wikimedia Commons)

É muito provável que a situação continue assim durante um período nada desprezível, dado que a atenção hoje está centrada nas eleições estadunidenses, em seu possível resultado e nos cenários que possam surgir dele e, por outro lado, nos acontecimentos na fronteira da Europa oriental com a Rússia.

Não obstante, existem outras causas que explicam a alienação “ocidental” (e a árabe e a internacional), em relação à questão síria, que nem sempre obedecem a prioridades: determinadas notícias e crises retiram da observação e análise as questões relativas a Idlib, aos detidos e desaparecidos há vários anos e aos cenários no sul, leste e nordeste do país.

Que o conflito sírio tenha saído de seu marco nacional, que as ocupações estrangeiras se enfrentem para tirar proveito da geografia síria e que tenha diminuído o ritmo de bombardeios e as operações militares significam que falar hoje da revolução e o regime, da oposição e os partidários de Assad e das matanças e violações seja como recolocar um disco muitas vezes reproduzido, entre 2011 e 2018, e que já não interessa ao público, independentemente da qualidade do conteúdo e o quanto seja atual.

Do mesmo modo, a intervenção russa, que modificou radicalmente os equilíbrios das forças a favor do regime, depois que o Irã (e a inação árabe e ocidental) conseguiu salvá-lo e garantir suas rotas aéreas e terrestres de fornecimento, criou uma situação que levou os líderes e políticos dos diferentes Estados, assim como a maioria dos meios de comunicação desses mesmos países, a considerar tal situação como o fato mais firme, claro e inextrincável, ao mesmo tempo.

Para aqueles que são partidários de Moscou, o que é possível fazer contra este país à margem das sanções que impedem que se possa impor uma solução definitiva, que reflita sua superioridade militar? O que é possível acrescentar ao que já foi dito, repetido e fotografado na cobertura desta tragédia humana, há anos, exceto destacar, de vez em quando, que o coronavírus avançou aqui e ali ou manifestar um novo crime cometido pela artilharia ou a aviação em tal ou qual município? Como é possível investigar alguma novidade que afete as políticas estadunidenses, turcas e iranianas (e israelenses) em relação à Síria, quando já se disse tudo milhares de vezes e os fatos e seu contexto se repetiram tanto que entediam a maioria daqueles que estão cientes? É possível, por meio da denominada Comissão Constituinte, oferecer algo novo sobre a trajetória política e suas negociações esquecidas até mesmo por aqueles que debateram sobre a formação das delegações e os preparativos para isso?

Todas essas considerações e dúvidas nos levam, se assim são, a buscar vias para recuperar a presença da questão síria nos âmbitos político e midiático e a evitar que as causas que representa desapareçam do debate público, mas isto não será nada fácil. O desinteresse pela questão síria, após anos de reflexão, centrando-se nela e expressando opiniões contrárias a seu respeito, o fator tempo e a mudança dos rostos do conflito, assim como a divisão das lealdades e as alianças e o fato de que a violência ultrapasse, desde o início, os limites da atrocidade que uma mente possa imaginar, sem dar trégua aos traumas e estupefação, acrescentam às prioridades que apontamos crises e “coberturas” midiáticas que não deixam muita margem para influenciar uma opinião pública que se sente impotente e pensa que qualquer mobilização é inútil, sobretudo, após a queda de Alepo, em fins de 2016, como consequência dos ataques da maquinaria de guerra russa.

A cobertura de negociações, trajetórias políticas e nomeações de enviados da Organização das Nações Unidas conduziu a iniciativas pouco claras e que desvirtuaram as responsabilidades internacionais, retirando das comissões e organismos ocidentais o peso de um “expediente” espinhoso, no qual é difícil se envolver de cheio e em cujos acontecimentos é difícil influenciar diretamente, sem considerar que podem ocorrer os “piores” cenários possíveis, como se costuma repetir.

Não há dúvida de que a desaceleração das organizações sírias, a redução dos atos em que participam algumas delas nas capitais europeias, durante um tempo, o desaparecimento das organizações opositoras oficiais e de seu discurso político e midiático e a transformação da maioria delas em porta-vozes de atores regionais que se enfrentam pioraram esta ausência síria.

Apesar de alguns julgamentos na Alemanha e França terem iniciado e da emissão de ordens de prisão contra responsáveis do regime sírio, graças ao trabalho de associações e indivíduos sírios, e apesar dos esforços judiciais em outros países para julgar os criminosos de guerra, o desinteresse tem se mantido praticamente nos mesmos níveis.

Tudo isso supõe que hoje é necessário propor iniciativas e retomar as campanhas que voltem a ter o foco na questão síria, e aproveitar as experiências anteriores para recordar que abandonar a Síria como cenário de morte e de imunidade dos assassinos, por anos, além de uma profunda injustiça e uma série de violações já conhecidas, provocará mudanças no Oriente Médio e em todo o mundo, desde o fato de que a Al-Qaeda e o Daesh exploram a tragédia dos sírios e se esforçam para utilizar as injustiças para atrair jovens e convertê-los em jihadistas à crise e o sofrimento dos refugiados, e as decisões, disputas e exploração racistas que ocorrem a respeito desse tema em todas as partes.

Além disso, ocorre o avanço da Rússia frente ao retrocesso ocidental na Síria e da forma como a mesma o aproveita para avançar em muitos outras frentes, o fracasso político no comportamento internacional com o Irã, que se expande pelo Iraque, Síria e Líbano, as tensões europeias com a Turquia e o aumento da ingerência desta última em guerras das quais também tiram benefício Estados (como Emirados e Arábia Saudita) que buscam desempenhar “papéis relevantes”, ao mesmo tempo em que os conflitos se mantêm abertos e a impotência ocidental e da Organização das Nações Unidas continuam patentes na hora de abordá-los. Por tudo isso, acontecem múltiplas mutações, nos últimos anos, e não resta dúvida de que a Síria continua sendo uma das causas mais destacadas disso.

Nada impede que aconteçam novas e perigosas mutações com base nas anteriores, nem se pode descartar que sejam retomados episódios de assassinatos que devolvam a questão dos refugiados ao contexto das tensões e as chantagens, e que aqueles que haviam esquecido a Síria se lembrem que segue havendo uma matança intermitente nela.

Por tudo o que foi dito, por muitas outras questões, pela lembrança das dezenas de milhões de detidos e desaparecidos e pelo fato de que se deve insistir em que manter criminosos no governo não colocará fim ao conflito, nem devolverá a estabilidade, mesmo que o mundo tenha se esquecido das valas comuns e da destruição de casas, é preciso retomar a atividade e ampliar seus horizontes para impedir que o esquecimento, em um mundo em que os meios de comunicação desempenham uma função determinante na hora de provocar reações e gerar causas para defender, engula a Síria definitivamente.

 

Leia mais