Francisco: o vírus e o poder nu dos Estados

Foto: Vatican News

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

11 Fevereiro 2021

O poder dos Estados está nu. A sua pretensão de totalidade foi ridicularizada pela pandemia, mesmo que isso seja confirmado pelo fato de as decisões a esse respeito ainda estarem nas mãos dos governos individuais. O Papa Francisco abordou essa situação no discurso do dia 8 de fevereiro aos membros do corpo diplomático credenciado junto à Santa Sé (183 Estados, 88 com sede diplomática em Roma), concentrando a interpretação do ano de 2020 nas consequências da Covid-19.

A reportagem é de Lorenzo Prezzi, publicada por Settimana News, 10-02-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“As repercussões da pandemia são verdadeiramente globais, tanto porque ela envolve de fato toda a humanidade e os países do mundo, quanto porque ela incide sobre múltiplos aspectos da nossa vida, contribuindo para agravar crises fortemente inter-relacionadas, como a climática, a alimentar, a econômica e a migratória”.

A lista torna-se sistemática: crise sanitária, ambiental, econômico-social, política, antropológica. Em um discurso aos governos, a questão pandêmica se entrelaça com assonâncias e dissonâncias das várias potências políticas em relação à obra da Santa Sé. Assim também o reconhecimento de alguns pontos mundiais indicados como particularmente graves. Vou mencioná-las antes de abordar a ilustração das crises individuais.

As potências e a Santa Sé: assonâncias e dissonâncias

No que diz respeito à Rússia e aos EUA, há um apreço pela extensão do Tratado de Redução de Armas Estratégicas – New-Start, mas eles não devem ter gostado do pedido pelo fim da corrida armamentista (nuclear, química e convencional) e, no que diz respeito à Rússia, a menção às guerras do Cáucaso (Armênia-Azerbaijão), sem ignorar a da Ucrânia e da Geórgia. De um modo geral, fica muito evidente a renovada (não total) sintonia com o novo governo estadunidense de J. Biden.

Em relação à União Europeia, existem dois destaques positivos. O primeiro diz respeito à sua capacidade de reagir em conjunto perante a crise econômica, mediante o plano Next Generation UE (750 milhões de euros de investimentos em inovação industrial, habitacional, ecológica e digital). O segundo, mais nuançado devido às resistências de algumas nações como a Polônia e a Hungria, refere-se ao esperado novo pacto sobre as migrações. Dirige-se à Europa e ao conjunto do Ocidente a constatação de que, “sob o pretexto de garantir supostos direitos subjetivos, um número crescente de legislações do mundo parece se afastar do dever imprescindível de tutelar a vida humana em todas as suas fases”.

Há maiores consonâncias com as Nações Unidas. São citados o tratado sobre a proibição de armas nucleares, o compromisso da Organização Internacional para as Migrações (OIM) e a próxima conferência das Nações Unidas sobre o clima (COP-26, Glasgow). Um consenso que se estende de forma mais geral a todo o sistema multilateral de relações entre os Estados. Também é previsível a citação positiva sobre o Acordo China-Santa Sé sobre a nomeação de bispos, renovado em 2020. Tema discutido e acordo duramente criticado pelo governo Trump.

Resta a distância em relação à crescente desconfiança da Europa e dos EUA em relação à China. Em discurso no dia 4 de fevereiro passado, Biden destacou a firmeza em relação a ela, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, confirmou várias vezes que o país asiático é “um parceiro de negócios, um concorrente econômico e um rival sistêmico”.

Mas ambos reconhecem a legitimidade e talvez a oportunidade da abertura da Santa Sé que, por sua vez, certamente não está disposta a não ver as violações aos direitos humanos em Hong Kong, contra os tibetanos e os uigures. Além disso, as palavras críticas explícitas sobre a reviravolta militar em Mianmar são uma denúncia indireta à incapacidade da China de moderar a pretensão dos militares locais fortemente ligados a ela.

Os pontos candentes dos confrontos de guerra, das tensões e dos desastres naturais são reconhecidos sobretudo na África: Burkina Faso, Mali, Níger, Sudão, Sudão do Sul, Moçambique, Sahel, República Centro-Africana, Líbia. Há um aceno às situações mais graves na América Latina e na península coreana na Ásia. Mais forte é a invocação à paz para o Oriente Médio, em particular para a Síria, Iêmen, Israel-Palestina.

Neste ano, a atenção está no Líbano, que “corre o risco de perder a sua identidade”, indo ao encontro do “fracasso do país, com a possível consequência de perigosos desvios fundamentalistas”. E o terrorismo fundamentalista é indicado como uma “grave chaga deste nosso tempo”.

Cinco crises

A lista das crises começa com a sanitária, que impacta dimensões fundamentais da vida: a doença e a morte. O Papa Francisco enfatiza o “acesso universal aos cuidados básicos de saúde”, retirando os cuidados de saúde da lógica do lucro. A distribuição justa de vacinas anti-Covid deve ser acompanhada por comportamentos pessoais responsáveis.

A crise ambiental é o sinal da doença da terra. “Certamente existem profundas diferenças entre a crise sanitária provocada pela pandemia e a crise ecológica causada por uma indiscriminada exploração dos recursos naturais. Esta última tem uma dimensão muito mais complexa e permanente, e requer soluções compartilhadas de longo prazo. Na realidade, os impactos, por exemplo, das mudanças climáticas, sejam eles diretos, como os eventos atmosféricos extremos, como inundações e secas, ou indiretos, como a desnutrição ou as doenças respiratórias, são muitas vezes repletos de consequências que persistem por muito tempo”.

A crise econômica e social é consequência de uma “economia baseada na exploração e no descarte tanto das pessoas, quanto dos recursos naturais”. “É preciso uma espécie de ‘nova revolução copernicana’ que recoloque a economia a serviço do ser humano e não vice-versa”.

As atuais dificuldades afetam os mais pobres, aqueles que trabalham em setores informais, sem nenhum seguro e cobertura, e aqueles que são vítimas das diversas emergências humanitárias, em particular os prófugos, os refugiados e os migrantes.

Não menos grave é a crise política e democrática. “Manter vivas as realidades democráticas é um desafio deste momento histórico, que interessa de perto a todos os Estados; sejam eles pequenos ou grandes, economicamente avançados ou em desenvolvimento”. “O desenvolvimento de uma consciência democrática exige que se superem os personalismos e prevaleça o respeito ao Estado de direito. O direito, de fato, é o pressuposto indispensável para o exercício de todo o poder e deve ser garantido pelos órgãos responsáveis independentemente dos interesses políticos dominantes”.

Mas a crise mais grave é a crise antropológica, a crise das relações humanas. Apesar da contribuição positiva das novas tecnologias, os longos meses de isolamento e confinamento estão produzindo uma “catástrofe educacional”. Pelo bem das futuras gerações, é preciso uma “renovada temporada de compromisso educativo que envolva todos os componentes da sociedade”. A começar pela família.

Breve mas intensa é a referência às consequências do vírus sobre as liberdades pessoais, incluindo também a da , com os limites impostos às atividades de culto, de educação e de caridade. Se as limitações são compreensíveis em relação à saúde de todos, “não se deve ignorar que a dimensão religiosa constitui um aspecto fundamental da personalidade humana e da sociedade, que não pode ser obliterado”.

“Não se pode considerar a dimensão espiritual e moral da pessoa como secundária à saúde física.” “A liberdade de culto, além disso, não é um corolário da liberdade de reunião, mas deriva essencialmente do direito à liberdade religiosa, que é o primeiro e fundamental direito humano.” Só assim se entende como “fraternidade e esperança (são) remédios de que o mundo precisa hoje, assim como as vacinas”.

 

Leia mais