O nada e o silêncio como instrumentos de trabalho ao serviço de Deus no Opus Dei

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10 Julho 2020

“O Opus Dei demonstra agora uma negação. Obviar a suas vítimas e agressores, lutando por manter limpa a existência do ente etéreo, da organização, do grupo, que para eles é indestrutível, imprescindível e inquestionável”, escreve Juan Cuatrecasas, presidente da Associação Infância Roubada, em artigo publicado por Religión Digital, 09-07-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

Finalmente estamos inteirados que a Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz e Opus Dei convive próxima as teses do filósofo alemão Martin Heidegger e com a obra do também filósofo Jean-Paul Sartre, “O ser e o nada”, publicada em 1944.

“Não vamos dizer nada”, disse um porta-voz da sede da Obra na rua Castelló, quando lhes interpelaram pela sentença inócua, ainda que condenatória que por via canônica chegou desde a Doutrina da Fé contra o numerário Manuel Cociña.

Dupla negação, não e nada, que para a desgraça do Opus Dei, sabemos que esta vez não se torna em afirmação, exceção à regra. Ne pas, Monsieur Ocariz. Mais lhe vale apelar ao Ciclo de Jespersen e começar a reconhecer que a liberalização do negativo te faz maior e que, como Confúcio referiu-se, “o homem que cometeu um erro e não o corrige, comete outro erro maior”.

A existência humana está ligada ao nada desde um conceito de tédio e angústia. O nada, como vetor do tédio e da angústia, representa o estado emotivo básico da existência. E, se ao ser existente perguntarmos o motivo de sua angústia, como por impulso dirá que é por nada.

O Opus demonstra agora uma negação. Obviar a suas vítimas e agressores, lutando por manter limpa a existência do ente etéreo, da organização, do grupo, que para eles é indestrutível, imprescindível e inquestionável.

O nada e o silêncio como instrumentos de trabalho ao serviço de Deus, de seu Deus, esse que, segundo eles, é indulgente com os pescadores e negacionista com os vulneráveis, sobreviventes denunciantes ou silentes de graves delitos contra a infância e a adolescência. Não diremos nada, dizem.

O filósofo grego Parmênides de Eleia estabeleceu que do não ser, ergo la nada, não se pode falar. Shunyata budista, vacuidade, mente vazia. A negação como corta-fogo, como bandeira de uma prelazia pessoal mais relacionada com os hábitos das aves struthioniformes (avestruzes) que com a misericórdia e o humanismo que defende a religião que dizem professar.

O despertador em suas mesas de cabeceira toca há muito tempo e eles preferem evitar o barulho e continuar sobrecarregados em um sonho imaginário, um exercício onírico e malicioso e errôneo para salvar a estrutura do navio sem atender marinheiros e náufragos. Como eles se preocupam pouco com suas vítimas e agressores, o que realmente os preocupa é negar as evidências para seguir o caminho distorcido que alguém imaginou com menor ou maior eficiência e racionalidade.

O nada e o não servem à causa, a máquina de barro do grande Umberto Eco, funciona cada vez com menos eletricidade e sabão, com menos força centrífuga e mais delírios de grandeza, entre aromas de incenso, tormentos lendários e enfeites brilhantes de Lignum Crucis. Lavar dentro de casa sem que se espalhe a denúncia e o escândalo, limpar de costas para a verdade, não digais nada, colocaremos o pedófilo nas mãos de um padre e o enviaremos para o exterior para estudar inglês. Mover o pecado de lugar, como no jogo do copo, “em qual deles está escondida a bola”?

Enquanto o não e o nada resplandecerem, o sim e o ser humano murcharão. Condenações inócuas, com a falta de pedido de perdão, de reconhecimento e de reparação... se tivermos um ou vários pedófilos em nossas fileiras, os esconderemos debaixo do tapete, estenderemos o peito para defendê-los, mesmo com doses insuportáveis de ousadia, e então o tempo fará recorrer ao sacramento da penitência, é para isso que serve. O importante é que ninguém descubra, que aqueles que denunciam se cansem, não sejam capazes com nossa rocha e com a teoria do apoio divino e mariano para nossa causa, esse auxílio que provém mais de um conceito atrofiado da que dê uma visão franca do cristianismo.

Aos padres ou religiosos pedófilos se combatidos com a oração, perdão e consciência das vítimas. Deus proverá. Feche os olhos e tudo passará. Mas as iniciais, a marca, são irredutíveis. As vítimas são danos colaterais e, como tal, devem ser tratados. A impunidade não é negociável. A saúde de suas vítimas uma milonga. O atrito, a imperfeita contrição, da Escola de Gilbert de la Poitiers, inclusive fica aquém. Eles nem acreditam em arrependimento. Eles só estão interessados em continuar, mesmo que seja negando a dor dos outros.

“A mente humana tem um mecanismo de autodefesa primitivo que nega todas as realidades que produzem muito estresse para o cérebro suportar. Chama-se negação”, a conclusão do escritor Dan Brown em seu romance Inferno (2013) que resume, pensando bem, a atitude demonstrada pelo Opus Dei no tratamento de seus casos de pedofilia.

Pensando mal, todos devem fazê-lo como acharem oportuno. Não é preciso ser Sartre ou Heidegger para refletir a respeito disso.

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