Como celebrar a Assunção de Maria diante dos escândalos de abuso sexual?

Mais Lidos

  • Influenciadores ou evangelizadores digitais católicos? Artigo de Dom Joaquim Mol

    LER MAIS
  • Os equilíbrios de Lula no Brasil pós-Bolsonaro. Artigo de Bernardo Gutiérrez

    LER MAIS
  • Para onde estamos indo? Artigo de Leonardo Boff

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

17 Agosto 2018

Um efeito do culto de acordo com um calendário litúrgico é que cada comemoração ocorre em meio a uma constelação de outras, de modo que sempre começamos uma celebração e pregamos uma nova homilia cientes de onde estávamos e para onde estamos indo.

A reflexão é do padre estadunidense Terrance Klein, da Diocese de Dodge City e autor de Vanity Faith (Liturgical Press, 2009). O artigo foi publicado em America, revista dos jesuítas americanos, 15-08-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Papa João Paulo II sabia exatamente isso quando designou a Maximiliano Kolbe a data memorial de 14 de agosto, um dia antes da solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria. O padre mártir não apenas morreu na véspera da sua festa, mas seu ministério também se centrou na devoção a Maria.

A história de sua morte não poderia ser mais inspiradora. Prisioneiro em Auschwitz por causa de sua atividade no âmbito das publicações cristãs, ele viu 10 homens serem escolhidos aleatoriamente para morrer de fome porque outros 10 haviam escapado. Quando um deles gritou: “Minha esposa! Meus filhos!”, o Pe. Maximiliano se voluntariou para ocupar o seu lugar.

Outro efeito de um calendário litúrgico é que, a cada ano, viajamos pela mesma constelação de celebrações, enquanto o mundo ao nosso redor encontra novas crises e novos desafios. Neste verão [no hemisfério Norte], o heroísmo e a caridade do Pe. Maximiliano Kolbe se justapõem à divulgação do relatório da Procuradoria Geral da Pensilvânia sobre a investigação de abusos clericais em seis das oito dioceses do Estado. Ele envolve pelo menos 300 clérigos em décadas de atividade criminosa envolvendo o abuso de menores.

Este também é o verão que revelou a longa história de abusos escondida dentro do ministério do cardeal Theodore McCarrick. De fato, neste ano litúrgico, seria muito difícil encontrar um continente intocado pelo escândalo clerical. Então, o que devemos fazer com Maximiliano e Maria neste verão? Com o seu martírio e a sua assunção?

Poderíamos dizer que a Igreja, assim como o próprio mundo, sempre foi um campo de batalha entre as forças do bem e do mal. Esse é um truísmo cristão comum, enraizado na parábola evangélica do trigo e do joio.

Poderíamos admitir, mais uma vez, que a nossa liderança clerical não está imune ao pecado e que nunca deveríamos nos surpreender com a influência do mal nas suas fileiras. Sabemos disso desde que os primeiros cristãos aceitaram o martírio, assim como quando algumas das primeiras lideranças da Igreja sucumbiram. E quem pode contar o número de clérigos que Dante colocou no inferno?

As orações eucarísticas sempre incluíram orações pelos papas e bispos, e, no caso destes últimos, mediante o uso brusco do seu nome de batismo, em vez do sobrenome mais típico que empregamos quando falamos do seu ministério oficial. É uma admissão antiga de que um líder nunca está livre da tentação e do pecado, e que a própria escolha de servir a Cristo convida ao perigo e, portanto, requer uma oração protetora.

Os clérigos e as lideranças da Igreja são culpados, devem ser detidos e punidos? Sim, sim e sim. Como tantas vezes acontece na vida cristã, individual e coletivamente, nós sofremos por causa dos nossos próprios pecados. Pior ainda, nós causamos o sofrimento do inocente.

No entanto, nenhum cristão deveria sentir prazer com o fracasso moral dos outros. Também não se promove uma causa nobre ao revelar os fracassos morais dos possíveis oponentes. Lembremos que eles sempre podem fazer o mesmo.

Será que um jovem Theodore McCarrick e inúmeros outros como ele se propuseram a perpetrar o grande mal? Eles devem ser punidos porque o perpetraram, mas eles também devem receber compaixão, porque, assim como aqueles que estão no corredor da morte, também são vítimas do mal. O ódio aos perpetradores não faz nada para restaurar aquilo que as suas vítimas perderam. O ódio não tem parte em Cristo.

Então, neste verão, voltamos à Virgem de Nazaré. E dizemos que, aqui, na parte mais impotente da Igreja, na metade sofredora dos sexos, neste “pequeno” singular, a salvação de Cristo não encontrou nenhuma oposição. E, assim, ela nunca conheceu a dor do pecado e da morte, que sempre é autoinfligida.

É assim que é neste ano. Sinta compaixão e puna os poderosos, mas não sinta prazer com a queda deles. “Pois é preciso que ele reine até que todos os seus inimigos estejam debaixo de seus pés” (1Coríntios 15, 25).

A sociedade clama com justiça à Igreja. Dentro das suas fileiras, devemos lutar contra a triste e terrível disseminação do pecado, mesmo quando refletimos sobre a salvação silenciosa que Cristo ainda opera em nosso meio. E, acima de tudo, devemos nos esforçar para aprender, porque aprender é uma graça.

Leituras:

1ª Leitura – Ap 11, 19a; 12, 1-6a.10ab
Salmo – Sl 44(45),10bc.11.12ab.16 (R. 10b)
2ª Leitura – 1Cor 15, 20-26.28
Evangelho – Lc 1, 39-56

Leia mais:

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Como celebrar a Assunção de Maria diante dos escândalos de abuso sexual? - Instituto Humanitas Unisinos - IHU