Chile. "Fiquei profundamente impressionado com a sinceridade do Papa; suas palavras são de um pai". Entrevista com Peter Kliegel

Foto: Religión Digital

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17 Abril 2018

Em relação à Igreja de Osorno, ainda presidida por dom Barros, o padre Peter Kliegel, presbítero da diocese de Osorno, “ficou profundamente impressionado” com a carta do Papa ao Chile, denuncia a covardia do cardeal Errázuriz e aponta para a necessidade de uma profunda mudança dos bispos do país: “A hierarquia chilena tem de descer das sedes episcopais e trocar a mitra por um boné”.

A entrevista é de José Manuel Vidal, publicada por Religión Digital, 15-04-2018. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O que você sentiu ao ler a carta do Papa à Igreja do Chile?

A carta é um pronunciamento esperado. Fiquei profundamente impressionado com a sinceridade do Papa. São palavras de um pai que sabe que causou profundas feridas em seus filhos e filhas e agora percebe que tais feridas não cicatrizam com facilidade. O pai reconhece sua cegueira e suas deficiências e, na minha opinião, pede humildemente magnanimidade, oferece-a em sua pessoa e a exige de seu filho. Sinto-me grato por ter um pai tão corajoso. É exemplar.

O Papa se queixa de que foi enganado. Quem poderia ter feito isso?

O Papa deixa transparecer que a comunicação com ele sofre grandes dificuldades. A palavra “engano” na informação inter-vaticana já foi usada, anos atrás, pelo Papa João Paulo II, quando ele descobriu um mau uso de sua autoridade.

Também na Igreja interesses são defendidos e, quando o poder assume o comando, o amor é muitas vezes silenciado. Interpretando a informação que está à mão, há apenas um culpado: a obediência à maior autoridade por covardia, na comunidade episcopal.

Ficam especialmente ‘tocados’ o núncio Scapolo e o cardeal Errázuriz, tão próximo ao Papa e que faz parte do C9?

A Nunciatura fez os trâmites em consciência, não tenho dúvidas; faltou ao cardeal Errázuriz a coragem do arcebispo de Boston.

Você está surpreso com a opção do Papa pelo discernimento colegial e com o fato de que as decisões sejam tomadas pelos bispos, em conjunto com o Papa?

Lendo atentamente os escritos do Papa Francisco, não tenho dúvida de que em sua mente está a visão eclesial de Medellín: a comunidade cristã como lugar de encontro com Jesus. Algo assim buscará neste momento no discernimento colegial episcopal, sabendo que laços de tradição hierárquica ainda o vinculam, mas que todos os afetados por essa causa devem realmente colocar-se em uma atitude de discernimento aberto e sincero. Haverá um longo caminho a percorrer para que isso aconteça na Igreja Católica. Mas “a esperança não decepciona”.

O que a hierarquia chilena precisa fazer para recuperar a credibilidade social perdida?

Descer das sedes episcopais, trocar a mitra por um boné e remar com os fiéis, para sentir novamente o forte vento que deve soprar na vida dos fiéis, e animar suas irmãs e irmãos com a sabedoria que o Espírito Santo lhes concedeu. O que mais Jesus fez?

Está na hora de mudar o método de selecionar as ternas para a escolha dos bispos?

Foi dada pouca importância à missão profética de cada batizado. Esta missão é uma realidade ou uma palavra bonita? A presença do Espírito Santo não pode ser uma mera promessa. O Espírito está! A partir desta confiança no povo de Deus, é preciso iniciar uma nova estrutura eclesial. Está na hora de compreender que o Deus da história faz maravilhas e que estas não estão restritas às mãos de poucos.

O documento de Medellín, em sua mensagem aos povos latino-americanos, propõe: renovar e criar novas estruturas na Igreja, para institucionalizar o diálogo e canalizar a colaboração entre bispos, consagrados e leigos. Aí está o caminho. Sem ficar em palavras e em bons conselhos! Por que será que Jesus disse tantas vezes “não tenham medo”?

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