A viagem papal, os roteiros já escritos e ''o imprevisto''

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16 Janeiro 2018

O caos dos cenários latino-americanos é suficiente para fazer com que pareça enganoso o esquema que aplica às projeções internacionais de Bergoglio as fórmulas que prevaleceram na leitura do pontificado de Karol Wojtyla. O ícone do “papa superstar” é usado agora como álibi por aqueles que querem polarizar a atenção sobre ele, separando-o da Igreja para, depois, contar os seus “fracassos”. Mas é preciso muito pouco para se livrar do “roteiro” pré-constituído.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada por Vatican Insider, 15-01-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A véspera da viagem do Papa Francisco ao Chile e ao Peru viu o desencadeamento de tensões, descontentamentos e até atos violentos em torno de mais uma visita apostólica do bispo de Roma ao seu continente de origem. E agora o fluxo midiático visa a apresentar a viagem latino-americana como uma espécie de “teste de força” do pontificado bergogliano.

À espera do papa no Chile, há os incêndios em igrejas reivindicados em nome de supostas causas indigenistas e uma Igreja agredida há anos pelos casos de abuso sexual perpetrados por religiosos e sacerdotes, expoentes de destaque do clero local. No Peru, uma sociedade de vida apostólica de origem peruana, que, nos últimos anos, desfrutara de boas entradas também no Vaticano, acaba de receber a intervenção da Santa Sé, após as pesadas acusações de caráter sexual que atingiram a sua liderança.

As próximas aterrissagens do primeiro papa portenho no Chile e no Peru também fizeram explodir ao extremo as polêmicas no seu país de origem. Nas redes sociais argentinas, há quem dissemine comentários ressentidos sobre o “papa traidor” que, a quase cinco anos da sua eleição pontifícia, evitou voltar à sua pátria, embora tendo visitado quase todos os grandes países da América do Sul. Enquanto isso, dezenas de milhares de compatriotas viajam para Santiago para ver Bergoglio. Tudo isso enquanto os bispos argentinos confirmam implicitamente os excessos de conflitualidade que ocorreram em torno da figura do ilustre compatriota, divulgando uma carta em que recordam que “ninguém falou ou pode falar em nome do papa” e que “a sua contribuição à realidade do nosso país deve ser encontrada em seu abundante magistério e em suas atitudes como pastor, não em interpretações tendenciosas e parciais que só aumentam a divisão entre os argentinos”.

Na Argentina – é o que a mensagem dos bispos permite intuir – descarrega-se sobre a figura do papa também o conjunto de tensões políticas e sociais de um país com problemas, onde os confrontos de rua e os incêndios nas rodovias voltaram, desgastado por conflitos de poder, pelo desaparecimento da classe média e pela inércia das classes dominantes.

Mas o mal-estar e um estado de crise “sistêmica” parecem ser o traço comum da condição de boa parte da América Latina: da Venezuela ao Brasil, de Honduras à Colômbia, a fragmentação e a estagnação econômica caracterizam a fase terminal daquela “virada à esquerda” da América Latina, que começou há 15 anos e entrou em crise nos anos do papado argentino.

A memória curta dos saudosistas de 1989

Os descontentamentos argentinos ou as polêmicas chilenas – incluindo aquelas sobre os custos econômicos da visita papal – são suficientes, por si sós, para sugerir o quão inapropriado e enganoso é aplicar às viagens e às projeções internacionais do Papa Bergoglio as fórmulas interpretativas que predominaram na leitura do pontificado de Karol Wojtyla, o “papa globe-trotter”.

As próprias turbulências latino-americanas que coincidem com os anos do papa nascido na Argentina parecem ser incomparáveis com a sequência faustosa de “sucessos” atribuídos em muitos círculos do Ocidente à veia geopolítica do papa polonês nos anos 1980 e 1990.

Nas crônicas jornalísticas, continua-se atribuindo a São João Paulo II a queda do Muro de Berlim. A epopeia de 1989 ainda é revivida à luz dos slogans como “Deus venceu no Oriente”, lançados pelos teólogos neocons ocidentais que, naquele tempo, saudavam uma mundaníssima passagem na história dos poderes do mundo, como se fosse a aurora de uma nova era para a fé e para a Igreja.
Naqueles anos, também nos documentos eclesiais oficiais, prestava-se homenagem à saga de 1989, ano em que se via o início de uma virada providencial na história da humanidade, com o iminente triunfo universal da democracia, da liberdade e da insaciável sede de Deus, que os regimes ateus tentaram em vão sufocar.

Depois, vieram os massacres entre povos “cristãos” da ex-Iugoslávia, os fluxos de migrantes do Leste Europeu em fuga da fome e das guerras, e os processos de descristianização real que avançavam na vida dos povos, tanto no Oriente quanto no Ocidente, sob a retórica dos renascimentos espirituais.

São João Paulo II, nos últimos anos de pontificado, distanciou-se de maneira cada vez mais clara daqueles que atribuíam veias de palingênese geopolítica ao seu pontificado: “Depois de 1989”, por exemplo, já afirma a carta apostólica Tertio Millennio Adveniente de 1994, “levantaram-se novos perigos e novas ameaças. Nos países do ex-bloco de Leste, após a queda do comunismo, apareceu o grave risco dos nacionalismos, como infelizmente mostram as vicissitudes da região balcânica e de outras áreas vizinhas”.

Palavras que hoje são ainda mais proféticas, diante dos líderes políticos do Leste Europeu que tentam reduzir as referências cristãs a ideologia identitária para justificar as suas políticas anti-imigrantes.

“Um imprevisto é a única esperança”

Os códigos de leitura impostos pelos circuitos liberal e neoconservadores agora também pressionam e atacam o pontificado em curso. Desde os anos de Wojtyla, permaneceu o vício ocioso, mediático-clerical, de atribuir às visitas papais efeitos mirabolantes na vida dos países e das Igrejas locais visitadas.

“Há muitas pessoas que esperam que, nos dois ou três dias da visita papal, realize-se uma mudança radical da Igreja chilena e também do país. E isso é, pelo menos, ingênuo”, disse o jesuíta chileno Fernando Montes, ex-reitor da Universidade Alberto Hurtado e colega de estudos de Jorge Mario Bergoglio.

A viagem papal que acaba de começar se presta às operações daqueles que, depois de terem construído o ícone do “papa superstar”, se preparam para fustigar as insuficiências mostradas pelo papa no cumprimento da agenda projetada para ele pelos circuitos midiático-clericais liberais e neoconservadores. A comparação implícita e subentendida com os “faustos” da era wojtyliana também pode voltar a ser útil para isso.

Os centros de informação globais já montaram a grade bloqueada dos dois ou três temas – em primeiro lugar, os abusos sexuais do clero e talvez algumas referências aos “viri probati” – sobre os quais pretendem medir a viagem papal ao Chile e ao Peru, para depois poderem encher de perplexidade e insinuações às “promessas não cumpridas” o dilúvio iminente das “avaliações” dos primeiros cinco anos do pontificado bergogliano.

A viagem latino-americana se oferece para ser utilizada por quem visa a aumentar ainda mais a atenção polarizante sobre o “personagem” papal – separando-o do resto da Igreja e do caminho do povo de Deus – para depois censurá-lo por fracassos reais ou alegados no caos dos cenários latino-americanos, agora que indubitáveis “sucessos” do trabalho diplomático vaticano – como a contribuição com o degelo entre Cuba e os Estados Unidos – também parecem ser questionados pelo mutável fluxo dos eventos e das lideranças.

Os reflexos condicionados do conformismo midiático visam a aumentar a pressão sobretudo sobre a questão dos abusos sexuais, para brincar com o clichê de uma Igreja intimidada e encurralada, congestionada pela ansiedade do desempenho, que “não consegue” se livrar do mal, padronizando as medidas de autocontrole e autorregulação, como funciona qualquer boa “companhia”, capaz de fazer cumprir as regras internas do seu “código de ética”.

O roteiro parece já estar escrito, com os aparatos prontos para relançar as declarações de intenção sobre a “tolerância zero”. Mas, muitas vezes, como escrevia Eugenio Montale, quando se parte para uma viagem, depois de prepará-la por muito tempo e com cuidado, “um imprevisto é a única esperança”.

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