O estrangeiro, os temores globais e a longa onda dos muros entre a América e a Europa

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08 Setembro 2017

Donald Trump rasga brutalmente o Sonho Americano dos Dreamers, imigrados quando crianças e, portanto, 'inocentes' inclusive quanto à violação da lei. Barack Obama sai de seu silêncio para condenar essa decisão "contrária ao espírito da América, e ao bom senso". Mas Trump mantém uma promessa que está o coração do seu contrato com os eleitores. Não se consegue parar a longa onda antiglobalização, apesar dos repetidos desastres dessa presidência anômala e até mesmo grotesca. O mundo dos Muros, a busca de um bode expiatório frente aos problemas sociais: tudo ainda está entre nós, mais atual do que nunca.

O comentário é de Federico Rampini, jornalista italiano, correspondente do jornal La Repubblica nos EUA, publicado por La Repubblica, 06-09-2017.

Do Brexit às resistências italianas sobre o Ius soli, um fio resistente costura esses eventos. Alguém tinha se iludido que a vitória de Macron na França, a solidez de Merkel na Alemanha fossem os sinais do fim de um ciclo, a inversão de tendência em relação ao avanço dos populismos. Mas a Alemanha de hoje é mais fechada do que a de 2015, Merkel ganhou força aceitando algumas instâncias de seus adversários, os inimigos das fronteiras abertas. A história dos Dreamers impressiona por seu caráter absurdo, é claro. São 800.000 jovens sem permissão de residência e de trabalho, mas que chegaram aos Estados Unidos quando crianças, e esse país é, portanto, a sua única pátria. Quando Obama ofereceu-lhe um processo de regularização agiu com bom senso, é claro: inclusive endossado por alguns republicanos moderados.

É complicado, além de desumano, expulsá-los e deportá-los: eles perderam os vínculos com o país de origem dos seus pais. Muitos já estão inseridos na comunidade, não por acaso expoentes da economia como Tim Cook (Apple) e Mark Zuckerberg (Facebook) os defendem: vários foram contratados, principalmente naqueles estados progressistas, a Califórnia e Nova York, em que há anos vigoram efetivamente anistias. Igualmente absurdo foi o voto anti-imigrante da Grã-Bretanha (a verdadeira razão para o sucesso do Brexit), a campanha contra "a invasão dos trabalhadores poloneses e romenos", em um país cuja economia prosperou graças à injeção de forças novas e talentos do exterior.

Quanto ao debate sobre o Ius soli na Itália, ele foi amalgamado de forma insensata com o tema dos refugiados, aos quais não se aplicaria uma reforma reservada a quem nasceu no país. E agora, o que fazer para desatar o emaranhado de incongruências, inconsistências e contradições? O drama dos Dreamers rechaçados para a ilegalidade ajuda a entender.

No eleitorado nacionalista e popular da direita norte-americana, os verdadeiros temores já estavam bem definidos antes de Trump. Com 11 milhões de imigrantes sem o green card ou vistos, sempre houve o temor de uma anistia generalizada. Não foi esta a reforma de Obama, bastante circunscrita. Porém foi vista como um primeiro tiro contra o princípio da legalidade. Tema sobre o qual os comícios de todo republicano arrancavam ovações estrondosas: se violaram a lei e os perdoamos, como fica o Estado de direito? E mais: estamos fazendo um desserviço para muitos outros estrangeiros que seguiram os trâmites regulares. E, finalmente: estamos perdendo o controle sobre nossas fronteiras, que Estado somos sem a autoridade para decidir quem pode e quem não pode entrar?

A tudo isso se sobrepõe a questão da segurança, alimentada pelo terrorismo islâmico, mas há mais: junto com as pessoas desesperadas que chegam de países da América Central, onde impera a violência, também há o fenômeno das gangues impiedosas, de Long Island (Nova York) a Oakland (San Francisco). Tudo se condensa na questão da identidade. "Quem somos nós?", já se perguntava Samuel Huntington – o teórico do choque de civilizações - refletindo sobre um modelo ético e de valores de origem anglo-saxônica e protestante, diluído pelas chegadas. Tornou-se o símbolo do alheamento a gravação da resposta automática dos sistemas de telefonia que pedem ao usuário "tecle um para o inglês, dois para o espanhol".

Os muros e os arroubos de hostilidade em relação ao Outro, não são uma resposta e a economia americana mergulharia em uma crise se desaparecessem os 11 milhões de imigrantes ilegais, privando da mão-de-obra a agricultura, a construção civil, o turismo e a assistência aos doentes. Mas se a longa onda não mostra sinais de recuo, é também porque a frente globalista - a esquerda política mais o establishment econômico - subestimou os problemas reais ou não construiu respostas adequadas. Um quarto de século de globalização deixa como saldo o empobrecimento da classe trabalhadora e da classe média.

A concorrência dos imigrantes no mercado de trabalho existe e exerce uma pressão pela redução dos salários da população local (de Karl Marx em diante, este foi um tema da esquerda). As classes sociais mais fracas, que ocupam as funções menos qualificadas e estão competindo pelas mesmas vagas com os estrangeiros, também são aquelas que vivem nos mesmos bairros, nos mesmos conjuntos habitacionais populares. Sofrem mais devido à criminalidade ou por um sentimento generalizado de desordem. Essas pessoas se sentem "estranhos em sua própria casa ou estrangeiros na pátria" (título de um ensaio esclarecedor sobre os brancos pobres que elegeram Trump), porque a eles é demandado suportar o máximo esforço de integração, o sentido de insegurança. Permanecerá como obra-prima negativa a campanha eleitoral de Hillary Clinton, que falava a todas as minorias, exceto ao trabalhador branco desqualificado e desprezado por seu universo de valores 'retrógrados'.

Aquela campanha desenhava uma ‘América’ governada por uma coalizão de ‘todos os outros'; e os brancos vingaram-se elegendo um extremista. Muitos republicanos conhecem vários Dreamers, os viram brincar com seus filhos, e alguns colocarão a mão na consciência. Mas a esquerda precisa encontrar uma linguagem sobre a imigração que não despreze os temores legítimos.

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