"Vejam, sou um de vocês": diretor Ermanno Olmi dá voz ao cardeal Martini

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15 Fevereiro 2017

A promessa do título é mantida até o fim. Uma das últimas fotos de Vedete, sono uno di voi [Vejam, eu sou um de vocês], o filme que Ermanno Olmi dedicou à vida e à figura de Carlo Maria Martini, mostra o idoso cardeal no seu quarto do Aloisianum, em Gallarate. Um grupo de amigos veio encontrá-lo e, no momento da despedida, pede-lhe a bênção.

A reportagem é de Alessandro Zaccuri, publicada no jornal Avvenire, 11-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Martini está tomado pela doença, fala com dificuldade, as mãos até agora permaneceram imóveis, desajeitadas. No ato de abençoar, porém, é como se ele se despertasse. A intercessão de Maria é invocada com firmeza, o sinal da Cruz é repetido três vezes com segurança inesperada. Por um instante, Martini reencontra a energia do passado, e o enquadramento do seu rosto sofredor e sereno é sobreposto, na mente do espectador, ao rostinho do bebê da boa sociedade de Turim visto no início do filme.

Tudo corresponde: os olhos claros, o nariz pronunciado, o sorriso. Em Martini também a idade avançada remete à infância. E Martini também não pode se esquecer do gesto no qual a sua vida se resume por inteiro. Até mesmo nisso ele é como cada um de nós, na verdade.

Realizado em estreita colaboração com Marco Garzonio – que continua sendo o mais influente conhecedor e intérprete do cardeal – Vedete, sono uno di voi é algo de mais complexo do que o documentário bastante acurado que se poderia esperar. A quantidade de material de arquivo é impressionante e provém em grande parte do Instituto Luce-Cinecittà, que produziu o filme junto com a Rai Cinema.

O que marca o relato, porém, são as gravações feitas especialmente por Olmi, que também reserva para si o papel de narrador. As palavras que escutamos pertencem todas, rigorosamente, a Martini: são tiradas dos seus escritos, retomadas das entrevistas, às vezes obtidas de discursos extemporâneos. Mas a voz que escutamos é a de Olmi, muito reconhecível na tonalidade um pouco rouca, na cadência lombarda que, em mais de uma ocasião, provoca uma salutar defasagem em relação à original.

De sequência em sequência, este se torna cada vez mais o Martini de Olmi. E de Garzonio, é claro, cuja contribuição se torna decisiva não estão no meticuloso trabalho de costura das citações, mas também na visão abrangente do relato biográfico. Damo-nos conta disso, em particular, no momento em que a sequência cronológica é abruptamente abandonada, de modo que a evocação da Tangentopoli [escândalo de corrupção na Itália nos anos 1990] precede a dos anos do terrorismo. Uma inversão que serve para ressaltar ainda mais o papel de guia moral assumido por Martini no seu papel de arcebispo de Milão.

A denúncia da corrupção se coloca no mesmo plano da oposição ao extremismo homicida. O debate – franco até a dureza – com os expoentes da política e do empresariado remete ao diálogo com os brigadistas, que culminou no célebre episódio das armas entregues ao cardeal.

O retrato que surge daí nos restitui um Martini talvez menos convencional, mas nem por isso menos semelhante. Olmi – que reutiliza muitas cenas tiradas dos seus próprios filmes, especialmente de E venne un uomo, sobre João XXIII, e a ainda atualíssima reportagem poética Milano 83 – insiste na dimensão social e civil do testemunho de Martini, mostra-o envolvido nas periferias romanas já durante os estudos bíblicos em Roma, ao lado da Comunidade de Santo Egídio e, justamente, liga o momento mais alto do seu magistério intelectual, a iniciativa da Cátedra dos Não Crentes, à frequentação assídua aos detentos da prisão de San Vittore.

A dimensão espiritual não é nada negligenciada, como demonstra a atenção reservada ao método introspectivo da lectio divina, mas nunca é isolada do tumulto da história: a Turim dos anos 1930, o fascismo, a guerra, os entusiasmos e as contradições da reconstrução, as expectativas suscitadas pelo Concílio Vaticano II. Quem disputa a cena são duas cidades, os dois lugares de eleição na história de Martini. De um lado, está Milão, à qual protagonista se entrega no dia 10 de fevereiro de 1980, com a famosa entrada a pé na metrópole da qual se tornou arcebispo. Gesto simbólico e, ao mesmo tempo, muito concreto, em uma síntese já extraordinariamente milanesa.

E, depois, está Jerusalém, impossível de esquecer. Quem o diz é o salmista, e Martini repete, o qual, em um trecho de entrevista, indica ao cinegrafista, do alto de um terraço, os lugares onde ocorreu a Paixão de Jesus, onde Cristo morreu e ressuscitou. Em Jerusalém, no Vale de Josafat, o cardeal confessa que sonhou por muito tempo em ser sepultado, mas o tempo corre veloz em outra direção, e o quarto despojado do Aloisianum se aproxima cada vez mais.

É a primeira imagem que Olmi escolhe para mostrar ao espectador: o ventilador pendurado no teto, a cama simples, as cadeiras recolhidas como que para acolher os visitantes. Martini morreu ali, no dia 31 de agosto de 2012, aos 85 anos de idade. O seu túmulo está agora na catedral de Milão, a cidade que se tornou a sua Jerusalém.

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