''A abertura de Martini aos não crentes foi um ato de responsabilidade''. Entrevista com Massimo Cacciari

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03 Setembro 2012

Uma fé rigorosa, testemunhada com perfeito estilo inaciano, tanto na pastoral quanto no âmbito cultural. Uma fé que não admitia compromissos, mas aceitava as diversidades. E que, como tal, sabia produzir relação, diálogo, até com os não crentes. A afirmação, lembrando o amigo "Carlo Maria", é do filósofo Massimo Cacciari.

A reportagem é de Francesco Dal Mas, publicada no jornal dos bispos italianos, Avvenire, 01-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Eu conheci o cardeal Martini em 1984-85, quando ele me expôs a sua ideia de dar origem naquela época à cátedra dos não crentes. Eu colaborei com ele na definição do projeto e da primeira edição, quando o tema era o fundamental, isto é, a dinâmica da fé com relação ao século, e, por isso, como o crente se relaciona com o não crente, também com o ateu".

Eis a entrevista.

A partir de qual pressuposto vocês partiram? Um passo atrás, cada um?


Não, no máximo um passo à frente cada um. Partia-se de um princípio fundamental, que a cada dia o próprio crente duvida da própria fé, mas para reafirmá-la com mais força. Justamente por isso a cátedra era um diálogo verdadeiro. Nesse âmbito, não buscávamos o compromisso fácil, fácil demais, banal demais.

Do diálogo e do confronto brotavam as diferenças. Mas que não levavam ao distanciamento...

Absolutamente não. A fé que Martini testemunhou na sua vida e que deixou clara também nessa cátedra é a fé que responsabiliza.

E qual é a fé que responsabiliza?

É aquela que é capaz de responder. E de responder a todas as perguntas do século, além de qualquer separação abstrata entre intelecto e razão, entre crença e não crença. Uma fé adulta, que compreende o século e que, como fé, é capaz de dar respostas concretas. Nada a ver com relativismo.

Aqui também tem relação a mística inaciana de Martini?

Seguramente. É a fé sem moralismos, sem sentimentalismos, atenta, competente, capaz. É a oração sólida e também rigorosa.

Foi o rigor de Martini, portanto, que interpelou os intelectuais, mesmo aqueles não crentes?

Falo por mim mesmo. Eu me sinto interpelado pelo crente que se reconhece como crente apenas no debate com o não crente. Eu sempre tive relações com essa fé nunca negligente, sempre "inteligente".

A fé popular também é assim?

Seguramente, quando é genuína. Martini teve uma extraordinária relação com a intelligentsia secular, a verdadeira intelligentsia secular, não aquela que acredita que a religião é um sintoma de superstição infantil. Ele forçou esses intelectuais a se interrogar sobre questões de ordem geral, mas também muito concretas. Como não lembrar do engajamento civil e social de Martini, os seus discursos sobre o trabalho, sobre a crise econômica, sobre as questões éticas. E como esquecer o modo com que Martini se expressava. Inacianamente, isto é, em termos sempre ordenados. Por outro lado, a mística inaciana ensina a nunca se deixar vencer por paixões desordenadas. Recordamos nesse sentido a classe de Martini, sintoma exterior de uma alma profundamente inaciana.

Totalmente ao contrário, portanto, daqueles que afirmaram que na Cátedra dos Não Crentes se ensinava – até mesmo da sua parte, professor Cacciari – a viver sem fé e sem certezas...

Como é possível escrever essas tolices? Sabe qual era a verdadeira extraordinariedade de Martini?

Qual?

A profunda convicção da absolutez do cristianismo. Se Jesus fosse um mestre como tantos outros, por que alguém deveria se dizer cristão? Martini, essa sua fé tão profunda, rigorosa, embora atravessada por temores e tremores, ele soube vivê-la, não só testemunhá-la, até produzir diálogo, debate, compreensão, misericórdia. É uma fé, a sua, que se fez próxima. Longe de dizer: "Queiramo-nos bem, abracemo-nos juntos porque somos todos iguais".

Fé e solidariedade. Eis outro binômio que aproximou os intelectuais.

Escrevemos sobre isso juntos novamente em 1995, quando até dissemos que era preciso criar uma rede de solidariedade contra a intolerância.

Martini também fará falta à intelligentsia secular?

Seguramente fará falta a nós, intelectuais, assim como à Igreja. Ele havia compreendido que as formas da pregação do Verbo são radicalmente insuficientes, viciadas por moralismos, por culturalismos, em toda uma série de questões. Mesmo de fronteira. E ele sofria enormemente por causa disso.

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