Missionário no Senegal e com grande prestígio no clero: quem era Marcel Lefebvre antes da FSSPX? Artigo de Christian Stahler Padilha

Dom Marcel Lefevbre em 1981, 7 anos antes de sua excomunhão. (Foto: Marel Antonisse/Anefo/Wikimedia Commons)

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29 Julho 2026

"No catolicismo, apenas um bispo pode ordenar novos padres. Sem bispos próprios, a Fraternidade ficaria refém da boa vontade de Roma para sobreviver, algo que ele já não estava mais disposto a arriscar. Optou, portanto, por consagrar sem autorização papal, ato configurado como cismático pelo Código de Direito Canônico", escreve Christian Stahler Padilha, estudante de jornalismo da Universidade do Vale do Rio dos SinosUnisinos, membro da Pastoral da Comunicação (PASCOM) e estagiário do Instituto Humanitas UnisinosIHU

Eis o artigo.

No dia 2 de julho, a Santa Sé confirmou, por meio do Dicastério para a Doutrina da Fé, a excomunhão automática (latae sententiae) e o ato cismático da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) após a ordenação de quatro bispos sem autorização papal. O grupo é conhecido pelo apego ao tradicionalismo litúrgico, como a missa em latim rezada com sacerdotes e fiéis voltadas para mesma direção, e por suas posições contrárias ao Concílio Vaticano II.

O que poucos sabem, porém, é que seu fundador, Dom Marcel Lefebvre, excomungado em 1988, já foi uma das vozes de maior confiança do clero romano: participou do Concílio Vaticano II como padre conciliar e construiu, antes disso, uma sólida carreira como missionário no continente africano.

Marcel Lefebvre antes da forte oposição à Igreja pós-conciliar

Hoje associado à criação da FSSPX e às críticas duras ao que considerava "modernismo" na Igreja, Lefebvre foi, por décadas, um homem de confiança de Roma. Sua reputação foi construída em Dakar, no Senegal, onde chegou como missionário e viria a se tornar, anos depois, o primeiro Arcebispo da capital senegalesa. O francês foi nomeado Vigário Apostólico de Dakar pelo Papa Pio XII em 1947. Um tempo depois, em 1955, com a criação da hierarquia eclesiástica local, seria elevado à condição de Arcebispo.

Naquela época, a Igreja Católica representava cerca de 5% da população senegalesa e mantinha fortes vínculos históricos com a administração colonial francesa, num período em que a independência do país ainda demoraria 13 anos para chegar. Sua atuação missionária é tida como uma das grandes impulsionadoras do catolicismo local: o número de alunos nas escolas católicas cresceu, a rede de seminários se expandiu, e Lefebvre multiplicou o número de padres nativos formados, além de organizar a Ação Católica leiga na região.

Não à toa, anos mais tarde, em 1960, foi nomeado pelo Papa São João XXIII membro da Comissão Central Preparatória do Concílio Vaticano II, ajudando a redigir os textos que seriam levados à discussão dos bispos do mundo inteiro. Foi nas sessões do próprio Concílio, entre 1962 e 1965, que a relação de Lefebvre com Roma mudaria para sempre. Grande parte dos textos que ele ajudara a preparar acabou rejeitada pela assembleia conciliar.

Por que o Concílio Vaticano II foi convocado?

Afinal, o que fez com que alguém consultado e confiado pelos grandes líderes espirituais da Igreja fosse excomungado pelo Papa São João Paulo II em 1988?

Antes de mais nada, é importante entender o contexto em que o catolicismo romano se encontrava. Curiosamente, essa reunião foi convocada apenas três meses após a eleição de São João XXIII, sem consulta prévia ampla à Cúria, o que causou grande surpresa e certa resistência logo de cara pela ala mais “conservadora" do corpo da Igreja.  O Concílio Vaticano I havia ocorrido em 1870, quase 90 anos antes. Ou seja, tratava-se de um evento raro.

A palavra-chave que justificou essa reunião foi o termo italiano aggiornamento, que significa atualização. A ideia de São João XXIII era "abrir as janelas da Igreja para entrar um ar fresco" em um mundo cada vez mais secularizado e menos católico. A intenção não era mudar dogmas, mas repensar a forma de apresentar a doutrina. 

Partindo para o começo do Concílio, em 1960, ainda como membro da Comissão Central Preparatória, Lefebvre ajudou a redigir os primeiros esquemas que seriam levados à discussão dos bispos. Muitos deles eram alinhados com sua visão mais tradicionalista, à qual ele era muito apegado. Quando as sessões se abriram, entre 1962 e 1965, dos mais de 70 esquemas preparados pela Comissão Central, quase todos foram rejeitados pela assembleia conciliar e reescritos, muitas vezes por comissões favoráveis à renovação proposta pelo Santo Padre. O esquema sobre a liturgia foi o único texto preparatório aceito como base de discussão, embora também tenha recebido numerosas modificações antes de se tornar a Sacrosanctum Concilium, documento que abriu caminho para a missa em língua vernácula. Em outras palavras, isso significava celebrações eucarísticas no idioma original dos fiéis e não no latim, língua oficial da Igreja.

Diante do rumo tomado pelos debates por uma ala que ele julgava ser mais progressista e modernista, Lefebvre se uniu a outros bispos que compartilhavam visões semelhantes. Dentre eles, estava Dom Antônio de Castro Mayer, bispo de Campos dos Goytacazes. Juntos, fundaram o Coetus Internationalis Patrum, que representaria uma minoria conciliar que buscava conter o que pensavam ser excessos doutrinários. Todavia, o grupo não conseguiu reverter a direção geral dos documentos, mas conseguiu, por meio de emendas, suavizar algumas formulações. O próprio Lefebvre afirmaria posteriormente que o esquema sobre a liberdade religiosa foi sucessivamente reformulado ao longo de aproximadamente cinco versões antes da redação final, processo que ele atribuía, em parte, à resistência organizada pelo Coetus

No fim, três frentes de reforma marcariam definitivamente a ruptura de Lefebvre com o Concílio. A liturgia, com a introdução das línguas vernáculas e a reformulação do rito da Santa Missa. O ecumenismo, com a abertura ao diálogo com outras confissões cristãs. E a liberdade religiosa, consagrada na Dignitatis Humanae, que ele via como uma ameaça à afirmação tradicional de que a Igreja Católica era a única depositária plena da verdade revelada.

Criação da FSSPX e excomunhão em 1988

Ao contrário do que muitos pensam, os primeiros anos da FSSPX se deram em plena comunhão jurídica com Roma. Criada em 1970, teve reconhecimento do Vaticano no ano seguinte, bem como aprovação oficial de François Charrière, bispo de Friburgo, na Suíça, país em que até hoje mantém sede, em Menzingen (embora as sagrações episcopais tenham se dado em Écône).

Vale notar, porém, que essa aprovação inicial não era definitiva. Charrière a concedeu por seis anos "ad experimentum", ou seja, em caráter experimental. Foi justamente essa brecha que, em 1975, permitiu ao seu sucessor no bispado de Friburgo revogar o reconhecimento à Fraternidade. Foi um primeiro racha sério com Roma, treze anos antes da excomunhão de 1988, que a própria FSSPX considera ilegítimo até hoje.

A relação voltou a piorar quando, já com 82 anos e cada vez mais desconfiado de que as negociações com Roma não chegariam a lugar nenhum, Lefebvre decidiu consagrar bispos sem autorização do Papa São João Paulo II. Ele justificou o ato dizendo que temia morrer sem deixar sucessores validamente consagrados, vendo toda a obra construída desde 1970 desaparecer junto com seu padecimento.

No catolicismo, apenas um bispo pode ordenar novos padres. Sem bispos próprios, a Fraternidade ficaria refém da boa vontade de Roma para sobreviver, algo que ele já não estava mais disposto a arriscar. Optou, portanto, por consagrar sem autorização papal, ato configurado como cismático pelo Código de Direito Canônico.

Consagrações episcopais

Em 30 de junho de 1988, ao lado do brasileiro Dom Antônio de Castro Mayer, seu antigo aliado do Coetus Internationalis Patrum, Lefebvre consagrou quatro novos bispos em Écône, sem mandato pontifício. Entre eles estava Dom Bernard Fellay, então com apenas 30 anos, e Dom Alfonso de Galarreta. O ato resultou na excomunhão automática de Lefebvre, de Castro Mayer e dos quatro consagrados, decretada pelo próprio São João Paulo II.

De volta aos tempos atuais, em 2026, os mesmos nomes escolhidos por Lefebvre consagraram, juntos, quatro novos bispos para a FSSPX, resultando novamente em excomunhão automática. Os ordenados foram Pascal Schreiber (Suíça), Michael Goldade (Estados Unidos), Michel Poinsinet de Sivry (França) e Marc Hanappier (França). A penalidade eclesiástica, além de atingir os envolvidos, engloba também todos aqueles que aderem formalmente às ideias do grupo.

Esta foi, de forma bem resumida, a história de Dom Marcel Lefebvre antes da FSSPX. Rezemos pelo pontificado do Santo Padre Leão XIV, bem como pela unidade da Igreja. Cismas não devem ser celebrados. Mas, como bem lembrou o próprio Dicastério para a Doutrina da Fé no decreto de julho de 2026, a Igreja, como mãe solícita, seguirá de portas abertas para quem um dia quiser retornar à plena comunhão.

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