Um teólogo assiste a série “The Young Pope”

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13 Janeiro 2017

No Vaticano, por volta do século XXI, a eleição de um jovem e bonito americano como papa traz uma surpresa terrível aos cardeais. Eles esperavam um Vigário de Cristo inexperiente, maleável. Em vez disso, Lenny Belardo – que assume o nome de Pio XIII – mostra-se implacável na remoção dos inimigos de seus cargos, adepto da manutenção de seus aliados e habilidoso em neutralizar os escândalos que cria. No longo curso da história papal, algo assim não é novidade. O difere a forma como Lenny descarta as tradições pós-Vaticano II de um papado acolhedor e ecumênico. Há um novo pontífice na cidade, e às vezes ele até mesmo fala como um xerife.

O comentário é de Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA, em artigo publicado no jornal Il Mattino, publicado por Commonweal, 09-01-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.


Com uma descrição assim, “The Young Pope” de Paolo Sorrentino (ao ar nos EUA pela HBO a partir de 15 de janeiro), poderá soar com a versão vaticana de “House of Cards”. Nesta série bem-elaborada de dez episódios, alguns verão uma caricaturização dos pecados que têm rendido ao Vaticano a reputação que vem merecendo mais ou menos desde que a corte papal foi criada no começo do segundo milênio. A cidade de Roma, cuja majestade decadente nós admiramos no filme “A Grande Beleza” de Sorrentino (vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2014), está aqui condensada no Vaticano medieval, renascentista e barroco. Mas seria um engano ver “The Young Pope” apenas como uma paródia.

Pio XIII, interpretado por Jude Law, é um papa ficcional que exibe qualidades associadas com os papas do pós-Segunda Guerra Mundial, escolhidos por Sorrentino a fim de mostrar as complexidades e ambiguidades do poder papal. No jovem Pio XIII existe algo de Pio XII, algo de Bento XVI e algo de Francisco. Existem outras diferenças na associação com figuras reais tiradas dos últimos 60 anos: os gestos teatrais de Lenny recordam Pio XII, enquanto a presença de uma freira idosa administrando o Vaticano ao invés do papa (aqui interpretado por Diane Keaton) lembra a infame Madre Pascalina Lehnert. Menções de um “lobby gay” no Vaticano podem trazer à mente o papado de Bento XVI, assim como o fará o emprego do termo semper puer para descrever Lenny – termo que os opositores de Bento, por sua vez, gostavam de usar. Há também paralelos entre o cardeal ficcional Voiello, secretário de Estado de Pio XIII, e o secretário de Estado de Bento, o Cardeal Bertone, incluindo um enorme apartamento luxuoso e a paixão intensa por futebol (Nápoles para o napolitano Voiello, Turin Juventus para Bertone, de Piemonte).

Quanto aos paralelos com (e as críticas ao) Papa Francisco... Em Pio XIII temos uma determinação semelhante de abordar o estilo e a orientação do Vaticano, algo que lembra a disposição de mudar a forma como este faz negócios, incluindo merchandising da imagem do papa. A ansiedade, o medo e a perplexidade da Cúria em como lidar com Pio XIII soa extremamente parecido também.

Então “The Young Pope” não é nenhuma paródia, mas também é mais profundo do que a sátira anticlerical. Especialmente durante a Renascença e os primórdios da era moderna, a cidade de Roma foi planejada intencionalmente e (re)construída como um palco teatral do sagrado. Neste palco, Pio XIII incorpora uma síndrome típica do drama do catolicismo: a solidão radical do papa, que paradoxalmente é encarregado de manter a Igreja em comunhão. Em termos não teológicos, Sorrentino visualiza o papado como um ícone da solidão. Na vida real, evidentemente, ainda estamos lidando, visual e teologicamente, com o fato de que há agora dois homens de branco no Vaticano. “The Young Pope” pode nos ajudar a compreender como esta imagem da solidão papal mudou quando Bento renunciou e escolheu residir dentro dos muros da Cidade do Vaticano no Mosteiro de Mater Ecclesiae.

“The Young Pope” igualmente tem algo a dizer sobre a autoridade religiosa e a imprensa. Pio XIII está determinado a transformar as relações entre estes dois; não quer ser popular meramente por causa da visibilidade que ganha via imprensa. Ele também rejeita os pedidos para ser um modelo visível e acessível de fé para os homens e mulheres de hoje, o que corre contra as noções vigentes do século passado sobre esta função em um papado. Além disso, o jovem Pio XIII é avesso à obsessão contemporânea de se estar sempre atualizado; no entanto sua juventude e energia também parecem ser uma ameaça mortal à estabilidade da Igreja. A história da Igreja de Lenny pode ser interpretada como um alerta sobre a sustentabilidade de uma mudança radical para as nossas instituições sociais e políticas.

“The Young Pope” bateu recordes de audiência quando foi ao ar na Itália no ano passado. Mas ele poderia ser mais desafiador para o público americano, tanto em seu temor pela magnificência do Vaticano como pelas suas suposições sobre a religião em termos morais absolutos.

“The Young Pope” é uma alegoria que usa o Vaticano e o papado de um modo muito inteligente e provocativo para mostrar algo que a Igreja Católica incorpora e representa, conscientemente ou inconscientemente, tanto para os católicos como para os não católicos. E, ao retratar aquele momento mais delicado no Vaticano – a transição do poder papal para um novo papa –, Sorrentino convida para uma reflexão sobre toda a transação de poder. Assim alguns espectadores poderão ver em “The Young Pope” paralelos entre a eleição de Lenny Berlardo ao papado e a eleição de Donald Trump à presidência.

“The Young Pope” retrata o que acontece quando o recém-eleito decide romper com os modos tradicionais e a etiqueta da comunicação; quando se abandonam os costumes concernentes à visibilidade, acessibilidade e adesão às normas anteriores; e quando se exerce um poder que parece supremo, único e aterrorizante. O fato de que os dez episódios vão ao ar entre os últimos dias de governo Obama e os primeiros dias da era Trump é – para usar uma expressão teológica – providencial.

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