Didier Fassin é professor no Collège de France, titular da Cátedra “Questões Morais e Desafios Políticos nas Sociedades Contemporâneas”, e professor de ciências sociais no Institute for Advanced Study de Princeton. Antropólogo, sociólogo e médico, é também diretor de estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales. Conduziu pesquisas no Senegal, na África do Sul, no Equador e, mais recentemente, nos Estados Unidos e na França. Proferiu aulas notáveis como Roger Moore Lecture sobre “o ressentimento” em Harvard; Tanner Lectures “sobre o castigo” em Berkeley; e as conferências Adorno Lectures sobre a vida em Frankfurt e a Eric Wolf Lecture sobre as teorias da conspiração em Viena. Recebeu a medalha de ouro da antropologia na Academia Real das Ciências da Suécia, foi o primeiro pesquisador em ciências sociais reconhecido com o Distinguished Scientist Award da Fundação Nomis e é laureado com a Huxley Memorial Medal, a mais alta distinção do Royal Anthropological Institute.
Eleito para a American Philosophical Society e para a Academia Europea, é doutor honoris causa da Universidade de Liège e da Universidade Livre de Bruxelas. Antigo vice-presidente de Médicos Sem Fronteiras, preside o Comede, Comitê para a Saúde dos Exilados. É autor de uma vintena de obras, traduzidas em doze línguas, notadamente A força da ordem: uma antropologia da polícia nos bairros; A sombra do mundo: uma antropologia da condição carcerária; Punir: uma paixão contemporânea; A vida, modo de usar crítico; Morte de um viajante: Uma contrainvestigação; Os mundos da saúde pública; Excursões antropológicas e, com Anne-Claire Defossez, O exílio, sempre recomeçado: crônica da fronteira (publicados no Brasil pela editora UFMG). Seus últimos livros são Uma estranha derrota: sobre o consentimento ao esmagamento de Gaza e Lições de trevas: o que a violência diz do mundo (no prelo).
Didier Fassin (Foto: Wikimedia Commons)
O professor Fassin concedeu esta entrevista por e-mail ao mestre em História Comparada e doutorando da UFRJ pelo PPGHC Thiago Gama.
A Desigualdade das Vidas à Prova de 2026: Em seus trabalhos sobre a biopolítica, o senhor destaca que todas as vidas não têm o mesmo valor aos olhos do poder. Diante das tragédias concomitantes em Gaza e na Ucrânia, assistimos a uma hierarquização radical e definitiva da humanidade, onde o Sul Global se torna um laboratório permanente de “vidas precárias”?
A desigualdade das vidas, no sentido da desigualdade na maneira como as sociedades tratam as vidas humanas, é uma questão à qual venho me dedicando há muito tempo. Vindo da medicina e da saúde pública, foi inicialmente através da epidemiologia e da estatística que a abordei, analisando esta realidade terrível de que, na França, a diferença na expectativa de vida ao nascer entre os 5% mais ricos e os 5% mais pobres é de 13 anos e que, nos Estados Unidos, ela atinge 15 anos entre homens brancos com formação universitária e homens negros que abandonaram a escola antes de concluir o ensino secundário; mas as pesquisas que realizei sobre a Aids na África do Sul e, sobretudo, sobre a guerra de extermínio em Gaza me conduziram, por um lado, a ampliar as questões para sua dimensão internacional e, por outro, a considerar diferentes componentes da vida.
Podemos partir da distinção feita por Hannah Arendt entre a vida enquanto se desenrola do nascimento à morte, o que vale igualmente para os animais e as plantas, e a vida enquanto é preenchida por acontecimentos que podem ser narrados, sendo, portanto, específica aos seres humanos.
Propus falar de vida biológica e vida biográfica. Em Gaza, a desigualdade das vidas biológicas pode ser medida pelos diferenciais quase inimagináveis de mortalidade durante as duas guerras de 2008 e 2014: houve, cada vez, 250 vezes mais civis mortos entre os palestinos do que entre os israelenses.
Durante a operação militar iniciada em 8 de outubro de 2023, o excesso de mortalidade atualmente divulgado é bastante subestimado, pois não leva em conta os corpos soterrados sob os escombros e, sobretudo, as mortes indiretas, sendo provável que ultrapasse os 200.000 mortos, com uma taxa talvez superior à dos conflitos anteriores.
A desigualdade das vidas biográficas também deve, e talvez sobretudo, levar em consideração a diferença entre viver no conforto de um país rico onde se desfruta de um conjunto de direitos e liberdades e viver, há dezessete anos, numa prisão a céu aberto em estado de sítio, na qual se é mantido à força, num estado de dependência quase completa da ajuda externa, à mercê de drones e tiros inimigos, com o risco de ser arbitrariamente preso e encarcerado sem julgamento.
Após 8 de outubro, essa vida em Gaza tornou-se invisível, como declararam os responsáveis políticos e militares israelenses, com a destruição de todos os edifícios, da maioria das infraestruturas, da quase totalidade dos hospitais e clínicas, a privação de água, de alimentos, de cuidados, o espetáculo cotidiano dos corpos desmembrados, e a desolação, a fome e a morte presentes em toda parte. O que é, então, uma vida quando ela se tornou invisível, e se é condenado a vivê-la porque se é prisioneiro?
Se quisermos dimensionar o significado dessa desigualdade das vidas em escala mundial, então é preciso mudar o foco. No que diz respeito à vida biológica, há, primeiramente, o apoio diplomático, político e militar prestado a Israel para que seu exército possa devastar Gaza e dizimar seus habitantes.
Raramente, na história, os países ocidentais se terão tornado tão coletivamente cúmplices do que numerosos juristas, especialistas em crimes de massa, organizações internacionais de direitos humanos e a comissão independente das Nações Unidas chamaram de genocídio.
No que tange à vida biográfica, houve, durante todo o período de guerra intensa, uma indiferença quase total dos grandes meios de comunicação ocidentais pelo sofrimento dos palestinos, cuja experiência dos massacres era quase totalmente ignorada e cuja voz se recusava a fazer ecoar, apesar da presença de jornalistas arriscando suas vidas no local, enquanto, inversamente, tínhamos reportagens diárias sobre a vida dos israelenses. A desigualdade na economia da atenção é talvez a mais dolorosa para suas vítimas.
Gaza e o Suicídio Moral do Ocidente: Como o senhor interpreta o mutismo ou a impotência das instituições internacionais diante da evidência do massacre? É o fim da “ficção humanitária” que por muito tempo serviu de verniz à hegemonia ocidental?
A relação do mundo ocidental com o resto do mundo, tanto em sua versão europeia colonizadora quanto em sua versão estadunidense imperial, sempre soube se adornar com atrativos morais para ocultar sua violência.
A colonização foi feita em nome da civilização; o imperialismo colocou em primeiro plano a pacificação. No final do século XX, os Estados ocidentais invocaram frequentemente a razão humanitária para justificar suas intervenções militares, notadamente na Somália, no Kosovo, no Afeganistão, na Líbia, cada vez, na verdade, com objetivos geoestratégicos, econômicos e políticos.
No caso da devastação de Gaza e do esmagamento de sua população, vários elementos pesam no apoio dos países ocidentais.
Para se justificar, alguns governos, a começar pela Alemanha, invocam a memória do Holocausto, mas parece difícil legitimar o genocídio dos palestinos pelos descendentes das vítimas do genocídio dos judeus da Europa, do qual vários dos países envolvidos participaram. Na realidade, as razões são outras.
Por um lado, Israel é visto desde sua criação como o bastião avançado da suposta civilização ocidental, que é preciso defender contra um Oriente Médio declarado bárbaro. Por outro lado, os palestinos sofrem da tripla estigmatização do racismo antiárabe, do sentimento antimuçulmano e da associação ao terrorismo.
Além disso, é preciso lembrar que esses países têm, em grande parte, um passado colonial ou imperial que alimentou sua hostilidade e seu desprezo em relação às sociedades dos países do Sul.
Governança Algorítmica vs. Governança Pastoral: Minhas próprias pesquisas versam sobre a colisão entre a “Governança Pastoral” (Foucault) e a automatização algorítmica do controle. A inteligência artificial se tornou o novo instrumento de uma soberania que não precisa mais “cuidar” para governar?
A inteligência artificial é um instrumento que pode ser aplicado em situações e contextos extremamente diferentes. Ela serve tanto para vigiar a população quanto para traduzir textos numa diversidade de línguas, para aconselhar compras de bens quanto para determinar golpes mortíferos contra inimigos, como se viu com os ataques perpetrados por Israel em Gaza e pelos Estados Unidos no Irã.
O único elemento comum a todas as suas aplicações se resume a um extrativismo dos dados sobre os seres humanos e produzidos por eles, seja por sua atividade criadora, seja por sua atividade consumidora, tendo como efeito o enriquecimento das companhias que produzem essa inteligência artificial ou que dela se servem.
O poder pastoral, de que fala Michel Foucault a propósito, notadamente, do cristianismo, consiste, para aqueles que o arrogam, em cuidar do rebanho enquanto exercem sobre ele um controle, em princípio benevolente.
Por ter conhecido o fundador do Google e o ouvido anunciar suas perspectivas para o mundo em matéria de administração das necessidades e preferências de cada um pelo trabalho algorítmico, é verdade que há, no sonho da inteligência artificial, uma forma de governamentalidade pastoral, exercendo-se não mais no sentido de uma vida moral, mas de uma vida consumista.
Como no cristianismo, o poder é subentendido por uma forma de obediência, mas esta não é mais a direção das almas: ela é uma orientação das escolhas. E essas escolhas podem também ser criminosas.
Soberania e Necroeconomia na América Latina: Diante das renovadas pressões sobre a Venezuela e os recursos do Sul, como as nações periféricas podem reivindicar uma soberania que não seja imediatamente qualificada como “risco global” pelo centro imperial?
O imperialismo estadunidense, sob o pretexto da doutrina Monroe e de seu corolário Roosevelt, consagrou o continente latino-americano como caça reservada dos Estados Unidos, cujas intervenções militares se multiplicaram a partir do fim do século XIX.
Na segunda metade do século XX, com a guerra de baixa intensidade conduzida contra o comunismo no quadro da Guerra Fria, ele permitiu a desestabilização dos regimes progressistas e a instalação de ditaduras militares em vários grandes países.
Houve, no entanto, uma certa trégua no início do século XXI, menos em razão de uma mudança radical de política do que devido aos novos campos de batalha do exército estadunidense no Oriente Médio.
O segundo mandato de Donald Trump foi marcado, desde o início, por ameaças contra o México e o Brasil, o sequestro do presidente da Venezuela e o anúncio de um próximo ataque contra Cuba.
O imperialismo agressivo dos Estados Unidos inscreve-se, portanto, na longa tradição de um país que esteve em guerra durante 231 anos desde seu nascimento há 248 anos, ou seja, 93% de sua breve existência.
O Lawfare como Violência de Estado: O senhor analisou longamente os dispositivos de punição. Como o senhor percebe o uso distorcido do direito (lawfare) para neutralizar os intelectuais e os líderes políticos que contestam a ordem estabelecida no Sul?
As políticas e as práticas punitivas que estudei são as dos países contra sua própria população, e mais particularmente das classes populares e das minorias etnorraciais. Embora não tenha trabalhado sobre essas políticas e essas práticas nas relações internacionais, parece-me que se podem observar mecanismos semelhantes em termos de utilização da ferramenta jurídica como instrumento de repressão resolutamente desigualitário.
Os países ocidentais decidem sanções contra a Rússia que invade a Ucrânia, mas oferecem seu apoio a Israel que massacra os palestinos, bombardeia e ocupa o Líbano e a Síria, lança um ataque mortal contra o Catar e contra o Irã.
Estamos evidentemente no duplo padrão. Mas os Estados Unidos vão ainda mais longe, invertendo completamente as regras morais, pois, após terem tentado em vão reduzir as prerrogativas do Tribunal Penal Internacional, não o ratificaram por medo de que seus soldados pudessem ser incriminados, mas doravante sancionam os magistrados que nele proferem decisões desde que estas não visem apenas países do Sul, mas concernam aos crimes cometidos por Israel. Para defender os criminosos amigos, pune-se aqueles que os julgam.
O Futuro da Verdade e do Arquivo: Num mundo saturado pela imediatez digital, qual papel resta ao historiador e ao antropólogo para preservar um “arquivo da resistência” que não seja devorado pelos algoritmos do Norte?
Ao contrário daqueles que se inquietam com a pós-verdade, vendo-a nas teorias da conspiração e nas redes sociais, parece-me que, por um lado, a principal ameaça hoje não vem dessas teorias e dessas redes, cuja realidade dos problemas que colocam, no entanto, não nego, mas que ela vem da potência da reação conservadora e das mentiras dos poderes que a implementam, e que, por outro lado, formas de resistência existem, frequentemente pouco visíveis, frequentemente reprimidas, mas, no entanto, expressões do que Michel Foucault chama de coragem da verdade.
As pesquisadoras e os pesquisadores em ciências humanas e sociais têm, certamente, um papel importante a desempenhar nessa resistência, ao lado de numerosos outros que Antonio Gramsci designava como os intelectuais orgânicos.