“Como resistir aos futuros inevitáveis quando os países ricos tentam proteger seus interesses?” Entrevista especial com Jess Auerbach

A seguir, a pesquisadora sul-africana reflete sobre os desafios do Sul global à luz do novo regime climático

Foto: 350.org

Por: Edição: Patricia Fachin | 07 Outubro 2022

 

No atual contexto de emergência climática, inúmeras são as dúvidas dos pesquisadores acerca do futuro, mas uma opinião é consensual: os países do Sul global, em particular os mais pobres, serão mais atingidos pelos fenômenos climáticos extremos. Por isso, quando se trata de projetar o futuro em perspectiva aos desafios do novo regime climático, é preciso retomar alguns questionamentos sobre as políticas adotadas no presente, disse Jess Auerbach, pesquisadora sul-africana, em videoconferência ministrada no Instituto Humanitas Unisinos – IHU na última sexta-feira, 30-09-2022.

 

Uma destas políticas, ressalta, diz respeito à ideia de perpetuação do crescimento em detrimento das necessidades básicas dos povos. “Qual é a energia básica que sustenta as atividades econômicas e sociais? Em Lobito, município da província de Benguela, há muita fumaça em decorrência do uso das lareiras e do fogo à lenha que as pessoas acendem em função da crise energética. Uma coisa que precisamos pensar é que, enquanto estamos perpetuando o consumo capitalista e a ideia de crescimento constante, em muitas partes do mundo – e Angola é um desses locais – a água potável é muito mais cara do que a gasolina que colocamos nos carros. Veja todo o investimento feito no petróleo e o pouco investimento feito em relação à água potável. É muito fácil observar, em Angola, quem pode pagar para ter um sistema de filtragem da água e quem não pode. É fácil ver quantas pessoas só podem beber água da torneira e quantas podem beber água sem correr o risco de intoxicação”, relata.

 

Outra questão relevante a ser discutida no contexto do novo regime climático, reitera, diz respeito ao futuro. “Como resistir aos futuros inevitáveis quando cada vez mais países ricos tentam proteger seus interesses para fortalecer as fronteiras? Vemos isso no Mediterrâneo, onde há um fechamento para a entrada dos refugiados. Tentamos não aceitar isso, resistimos e continuamos”, lamenta.

 

A seguir, publicamos os principais trechos da conferência de Jess Auerbach, intitulada “Perspectivas decoloniais: o papel do Sul global no novo regime climático”, no formato de entrevista.

 

Jess Auerbach (Foto: Stanford)

 

Jess Auerbach é doutora em Antropologia pela Universidade Stanford, EUA. Atualmente, é professora associada e diretora do Mestrado em Filosofia, especializado em Inovação Inclusiva, da Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul, e pesquisadora associada da Universidade da Califórnia.

 

Confira a entrevista.

 

IHU – Como você tem refletido sobre o processo de descolonização em países do Sul global, como Brasil, Angola e África do Sul?

 

Jess Auerbach – Esses países são muito semelhantes em muitas coisas e os problemas globais também se manifestam de forma contundente e visível neles.

 

Na imagem abaixo, que frequentemente uso nas apresentações e nas aulas, algumas pessoas veem uma borboleta, mas, se vocês prestarem a atenção, verão que é um mapa do Atlântico Sul, que está no topo da imagem, e do Atlântico Norte, que está embaixo, e, entre eles, o oceano que nos liga, isto é, liga a África ao Brasil.

 

(Foto: Reprodução | YouTube)

 

No momento, estamos nos comunicando por um cabo de internet submarino, justamente repetindo a trajetória do escravismo no passado. Então, vou começar com essa imagem porque é importante utilizarmos os mapas usuais de forma que priorizem, destaquem ou enfatizem as conexões entre nós. As formas como as fronteiras continentais ou nacionais são estabelecidas são consequências arbitrárias de processos históricos de colonização, independência e da era pós-colonial que herdamos. A única ferramenta para pensar essas conexões e a redistribuição dos problemas é aprender a pensarmos juntos. Então, utilizo essa imagem para que pensemos sobre ela.

 

Angola

 

No passado, Angola era um lugar em que não se podia falar como sul-africano branco. Muitos dos meus amigos brancos fizeram parte das forças armadas angolanas na fronteira onde tinham soldados, em regime de apartheid, tentando provocar a ideologia do capitalismo no solo angolano. Então, havia muitos conflitos e combates. Mas, em geral, na década de 1990, era muito difícil, como sul-africana jovem, falar de Angola porque havia um trauma nacional por causa do apartheid. Além disso, ter ido para outros países “proteger certas ideologias” era considerado um tipo de “pecado”. Então, muitos dos meus amigos ficaram traumatizados por isso.

 

Abaixo, vemos um mapa publicado em um artigo que escrevi com três colegas ecologistas. É um bom exemplo do trabalho interdisciplinar. Ele mostra as estimativas mínimas do número de aves que têm nomes latinos baseados em uma pessoa europeia, em cada país.

 

 (Foto: Reprodução | YouTube)

 

A República Democrática do Congo tem o maior número de aves com nomes em homenagem a europeus. Isso ajuda a entender a imposição de certo tipo de estrutura de dominância ocidental em ecossistemas, indivíduos, coletivos e pessoas que agora estão estruturados por nomes europeus.

 

Quando o artigo foi publicado, centenas de milhares de pessoas na internet pegaram essa imagem e a inverteram. Lembro que o Norte não é real; não existem as noções de “em cima” e “embaixo” no espaço. Essa ideia de Norte e Sul é um constructo dos navegadores portugueses do século XV, que, na época das chamadas “descobertas”, acharam apropriado colocar o Norte no topo do mundo porque aí a Europa estaria mais próxima de Deus. Era a ideia de que havia uma evolução da humanidade em direção a Deus.

 

 

Então, essa divisão entre Norte e Sul não era embasada na ciência como é hoje. Mas, depois da publicação do artigo e do mapa, o interessante é que as pessoas ficaram bravas – especialmente as do Norte global – porque ousamos colocar o Sul no lugar do Norte e a África como centro do mundo. Foi interessante observar como muitos ficaram furiosos e disseram que esse tipo de conceitualização do mundo se adequa aos nossos interesses, que trabalhamos no Sul global.

 

Essa perspectiva decolonial, ilustrada no mapa, é importante porque lembra que o neoliberalismo não é a única opção que temos. Para mostrar isso, compartilho o exemplo da Universidade de Katyavala Bwila, uma pequena universidade em Angola.

 

Entre 1500 e 1800, Angola e Brasil tinham uma ligação muito próxima e, geograficamente, há muita coisa em comum, particularmente nas costas brasileira e angolana. Os mesmos diamantes que se encontram em Angola se encontram no Brasil, e há muitas semelhanças entre os dois países em função da colonização portuguesa. Também há conexões climáticas e transatlânticas, e ambos compartilham música, religião etc.

 

Durante meus estudos, lecionei economia na Universidade de Katyavala Bwila e isso me ajudou a refletir e perceber como, em Angola, em função do contexto da Guerra Fria, metade dos professores foi formada na antiga ex-União Soviética ou em Cuba. Muitos acadêmicos que hoje administram o país foram formados nas condições do socialismo. Um pequeno número de pesquisadores foi enviado para países do bloco capitalista, como os EUA. Poucos voltaram para Angola. Muitos foram enviados para Portugal, outros para a África do Sul e Itália, mas aqueles que foram formados na condição do capitalismo assumiram hábitos incomuns: questionam qual é a responsabilidade do Estado, quem toma as decisões, como pensamos sobre as redes sociais e o tráfico de influências e quem é responsável pelo quê.

 

Para mim, isso é muito intrigante porque, ao menos na África do Sul, às vezes é difícil imaginar um futuro coletivo, mas em Angola ainda há o sentimento de que, embora o socialismo não tenha dado certo, é necessário se comprometer de uma forma diferente do capitalismo puro e das economias individualistas.

 

 

IHU – Como tem refletido sobre a perspectiva de futuro a partir da realidade dos países do Sul global?

 

Jess Auerbach – Pensemos nas solidariedades globais do século XXI. A imagem da estátua abaixo, que se assemelha ao Cristo Redentor do Rio de Janeiro, em Lubango, Angola, foi um presente do governo brasileiro para Angola.

 

 (Foto: Reprodução | YouTube)

 

O nariz da estátua foi destruído por tiros durante a guerra civil e falta um dos dedos em uma das mãos. Essa estátua é um símbolo. Quando pensamos no catolicismo e na extensão de como as experiências compartilhadas do mundo religioso continuam, ainda hoje, através do cristianismo presente no Brasil, em Angola e em muitos outros países de língua portuguesa, levantamos um discurso poderoso e eficaz em termos de mudanças no comportamento das pessoas, comparativamente a muitos outros discursos do âmbito comercial e do âmbito acadêmico.

 

Futuro

 

Temos que pensar no futuro. A questão que faço é: Que futuro estamos imaginando? Um futuro no qual todos consomem no mesmo nível dos EUA, de modo que precisaremos ter cerca de 300 planetas? Ou um futuro no qual as crianças e as mães podem viver com o mínimo conforto, com um nível de participação global e algum tipo de conectividade internacional? Quando penso sobre a classe média angolana, surge a questão: Como nós a definimos? Definimos de acordo com um potencial de ganhos econômicos ou temos que pensar sobre as casas, os carros e a educação, basicamente como a forma de descrever a liberdade de circular, a segurança e as possibilidades de futuro que podem ser diferentes do nosso?

 

 

Desafios do colapso climático

 

Para pensar sobre o colapso climático e os tipos de desafios que enfrentaremos com mais frequência no futuro, vale refletirmos em termos do Sul global. Antes do evento, precisei desconectar a minha internet e colocar a bateria porque a rede elétrica na África do Sul não atende todas as nossas necessidades. Então, às vezes, temos apagões no país e, em função disso, precisamos ter um backup de bateria e sistemas inovadores para lidar com os blecautes.

 

Mas a África do Sul está passando o que vocês, brasileiros, já passaram. É interessante que uma das últimas coisas que Boris Johnson fez como primeiro-ministro foi, aparentemente, enviar uma delegação à África do Sul para aprender o que é feito aqui porque podem ocorrer apagões no Reino Unido no próximo inverno. Então, esse tipo de complexidade com a qual precisamos lidar diariamente no Sul global vai se tornar um “normal” nos países ricos e do Norte global, com a qual eles também terão que lidar. Veremos isso também em função do conflito entre a Rússia e a Ucrânia; eles vão precisar se preparar para o inverno.

 

 

IHU – Pode nos falar de algumas experiências de resoluções locais para problemas sociais em Angola?

 

Jess Auerbach – Vou falar de como pensamos as soluções locais e, ao mesmo tempo, os ecossistemas além das fronteiras nacionais. O único motivo pelo qual os flamingos, em Angola, não estão extintos é porque foi lançada uma campanha muito forte de preservação do ecossistema, a fim de salvar pelo menos metade do habitat natural desses pássaros icônicos.

 

Mas temos que pensar os ecossistemas além das fronteiras nacionais porque, à medida que as mudanças climáticas aumentarem, todos seremos impactados pelas mudanças que ocorrerão em lugares específicos do mundo. Outra coisa que precisamos pensar é como as economias serão alimentadas: Qual é a energia básica que sustenta as atividades econômicas e sociais? Em Lobito, município da província de Benguela, há muita fumaça em decorrência do uso das lareiras e do fogo à lenha que as pessoas acendem em função da crise energética.

 

 

Uma coisa que precisamos pensar é que, enquanto estamos perpetuando o consumo capitalista e a ideia de crescimento constante, em muitas partes do mundo – e Angola é um desses locais – a água potável é muito mais cara do que a gasolina que colocamos nos carros. Veja todo o investimento feito no petróleo e o pouco investimento feito em relação à água potável. É muito fácil observar, em Angola, quem pode pagar para ter um sistema de filtragem da água e quem não pode. É fácil ver quantas pessoas só podem beber água da torneira e quantas podem beber água sem correr o risco de intoxicação.

 

São os sistemas globais que permitem que isso ocorra. Vimos em relação às vacinas contra a Covid-19 e observamos várias questões agora em termos de insegurança alimentar. Como é possível que as coisas tenham o preço que têm? Como pode o lobby mudar as relações internacionais? Veja como essas questões podem afetar o regime dos direitos humanos em todo o mundo.

 

 

IHU – Quais as alternativas diante desse cenário?

 

Jess Auerbach – A sugestão é que precisamos investir muita energia em formas alternativas de educação e aprendizagem. As estruturas através das quais pensamos e trabalhamos são as estruturas que saem do sistema universitário do império colonial. As fronteiras interdisciplinares são desenhadas ao redor das necessidades e dos interesses coloniais, em vez de serem pensadas com vista à solução de problemas para questões complexas e desafiadoras, como a mudança climática.

 

Mitigação, sobrevivência e resistência

 

Vou falar do que aprendemos, em um país como Angola, sobre mitigação, sobrevivência e resistência. A mitigação ajuda a entender que, de uma forma ou outra, no Sul global, estamos lidando com experiências de colapso climático e estamos aprendendo a trabalhar com isso muito mais rapidamente – e com uma maior resiliência – em lugares onde as pessoas nunca pensaram sobre precariedade.

 

Esta imagem abaixo mostra uma casa em Angola. A maioria das casas do país é construída de modo que as pessoas encontrem formas de mitigar as circunstâncias. Nesse sentido, uma das questões é como nós, pesquisadores, amplificamos e destacamos o sucesso da mitigação, da resiliência e de novas invenções e formas de trabalhar, para que não fiquemos perdidos constantemente na depressão e possamos enfocar também as formas coletivas.

 

(Foto: Reprodução | YouTube)

 

Outra questão diz respeito ao futuro: Como resistir aos futuros inevitáveis quando cada vez mais países ricos tentam proteger seus interesses para fortalecer as fronteiras? Vemos isso no Mediterrâneo, onde há um fechamento para a entrada dos refugiados. Tentamos não aceitar isso, resistimos e continuamos.

 

Na foto abaixo, vemos um cabo de eletricidade descendo. É uma escola em Lobito, onde não há colégios suficientes e não é possível construir rapidamente outras instituições de ensino. Então, escolas foram feitas uma sobre a outra. Logicamente, isso pode ser perigoso, mas, ao mesmo tempo, permite que mais crianças tenham acesso à aprendizagem digital.

 

(Foto: Reprodução | YouTube)

 

Mudança pela educação

 

Meu trabalho se baseia em como nós nos mudamos pela educação. Compartilho alguns exemplos. No artigo que mencionei antes, meus dois colegas e eu perguntamos quais os passos que podemos dar para mudar a forma como um tópico de aprendizagem é retratado no mundo.

 

A primeira coisa que precisamos perceber é que o conhecimento tem muitas formas, que podemos desconsiderar ideias que limitam a maneira como pensamos a solução para os problemas. Então, a primeira questão é como abrimos o nosso conhecimento para que algo mude o nosso modo de pensar.

 

Temos que conhecer a nossa história, mas tudo depende de quais projetos estamos trabalhando e que problemas tentamos resolver, e em qual contexto. Importa conhecer a história do trabalho que estamos fazendo e as comunidades com as quais nos engajamos, sejam ricas, sejam pobres. Isto é, precisamos fazer com que as ideias circulem nos espaços de modo a nos certificar de que somos ouvidos e que haja espaços abertos para outras vozes entrarem e dialogarem.

 

Isso é particularmente importante para nós, uma vez que pessoas brancas estão geralmente associadas ao privilégio. Como podemos estar cientes disso, mas não utilizar para promover a nossa agenda, e sim construtivamente abrir espaço para outras agendas?

 

Uma das coisas que precisamos fazer é descolonizar o acesso à ecologia. Precisamos nos certificar de que o conhecimento não fique preso dentro de paredes ou salas. É importante ter acesso a conjuntos de dados e conferências e nos certificarmos se estamos escrevendo a partir de algoritmos que foram elaborados no Norte global.

 

O que significa ser especialista? Que tipo de conhecimento produzimos? No artigo citado, sustentamos que o compromisso e o amor pelo local são importantes para desenvolver soluções de longo prazo que, provavelmente, beneficiarão pessoas e grupos. Finalmente, em relação à ecologia, como nos certificar de que o trabalho feito seja inclusivo e que não vá numa única direção? Precisamos pensar sobre classe, religião, neorodiversidade. Precisamos ter sensibilidade crítica. Então, quanto mais diversidade tivermos, mais insights teremos no mundo.

 

 

Aprendizagem entre países do Sul global

 

Deve haver uma aprendizagem entre os países do Sul global, e é importante compartilhar insights em diferentes espaços deste hemisfério, particularmente quando temos o mesmo idioma. Em um espaço de quinze anos, Angola passou de ter três universidades nacionais para cerca de 36 universidades. Nenhuma delas existia quinze anos atrás. Então, temos a oportunidade de refletir sobre ideologia e preparar os alunos para futuros que serão bem diferentes em relação às gerações anteriores. Devemos prestar atenção nas pessoas dos países subdesenvolvidos e podemos aprender juntos, onde quer que estejamos.

 

Tenho desenvolvido a ideia de que os jovens, hoje, leem de forma diferente e não leem menos, como meus colegas reclamam. Os jovens devem ler mais que as gerações anteriores. Mas eles leem através de hiperlinks e interconexões. Nosso trabalho, como educadores, não é ensiná-los sobre conteúdo, mas ajudá-los a entender quais são as boas fontes na internet. Mudar a lente que utilizamos como educadores, para o contexto dos alunos, permite lhes dar energia e paixão para seguir adiante e continuar fazendo o trabalho que precisa ser feito, para vivermos em um mundo mais igualitário.

 

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