A última mensagem do padre Dall'Oglio, o corajoso “extremista do diálogo”

Pe. Paolo | Foto: La Republica

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18 Julho 2023

É uma pergunta dolorosa, como o remorso de não ter compreendido imediatamente aquela última mensagem entregue em uma espécie de "circular" enviada por e-mail - em alguns casos um breve telefonema - para os amigos: o padre Paolo Dall'Oglio informava que havia "aceito" ir a Raqqa para tentar uma negociação com o Daesh. E é de algumas semanas depois a notícia, daquele 29-07-2013, que o jesuíta romano havia sido sequestrado. Se o "pediu por isso" e o "não há mais nada a fazer" são a conversa fiada que ofende e rebaixa a dor de familiares e amigos há anos, a verdadeira pergunta sobre aquele sequestro para Riccardo Cristiano em seu último livro (Una mano da sola non applaude, ed. Ancora) sobre o sequestro do fundador do mosteiro Mar Musa é: por que Paolo foi naquele dia no quartel geral do Daesh?

Livro de Riccardo Cristiano sobre o Pe. Paolo Dall’Oglio. (Foto: Divulgação)

A reportagem é de Luca Geronico, publicada por Avvenire, 14-07-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

A revolução síria, o projeto de reforma em sentido democrático e federal em nome de uma “democracia colorida do Islã”, inflamava o padre Dall'Oglio que pagou com a expulsão da Síria seu sonho revolucionário. Para ele, as Primaveras Árabes de 2011 eram “uma ocasião para construir aquele Mediterrâneo das cidadanias que arquivaria a ideologia do choque de civilizações, da proteção ou da invasão. Somente indo ao encontro daqueles que pediam para sair da época do arbítrio, o Mediterrâneo poderia fazer de si mesmo aquele lago de Tiberíades do qual havia falado Giorgio La Pira”.

Aspectos já conhecidos da complexa personalidade do jesuíta, homem de “diálogo” e de “fronteira” sem a “tentação de domesticar as fronteiras”, escreve no prefácio o padre Antonio Spadaro. Um homem que nesta década se tornou o símbolo de uma esperança de diálogo e fraternidade universal, inspirada em Louis Massignon e Charles de Foucauld, como um “posto avançado da reconciliação entre os filhos de Abraão e também entre eles e os pós-crentes”, escreve ainda o padre Spataro do coirmão jesuíta.

A fronteira intransponível encontrada por este “extremista do diálogo” em vez disso, era aquela de ver, inexoravelmente, encravar-se na revolta popular da sua Síria anti-Assad o extremismo jihadista. O terrorismo islâmico internacional, escrevia em 23 de maio de 2012 ao correspondente especial da ONU para a Síria Kofi Annan, é apenas “um dos milhares de fluxos de ilegalidade-opacidade global (mercado de drogas, armas, órgãos, finanças…). O pântano interconectado dos diferentes “serviços secretos” é contíguo à galáxia do submundo também caracterizada ideologicamente e/ou religiosamente”.

O pântano estava prestes a chegar e, agora podemos dizer, em 2014 teria dominado Mosul e Raqqa, obrigando milhões de refugiados, entre os quais as antiquíssimas comunidades cristãs da Planície de Nínive, ao maior êxodo forçado da história recente. Nada comparado ao genocídio que aconteceria aos yazidis: o pântano que cobriu tudo.

Então, por que Abuna Paolo foi para o quartel geral do Daesh em Raqqa no fim de julho de 2013? A resposta, para Riccardo Cristiano, está no testemunho de Muhammad al-Haj Saleh, o homem de confiança que hospedou Paolo dall'Oglio em sua casa de Raqqa na sua última noite e o acompanhou até a porta do Daesh: “Tinha que se encontrar com Abu Bakr al-Baghdadi”, relatou numa conversa com Riccardo Cristiano, porque “levava consigo uma mensagem da líder do Curdistão iraquiano para os líderes do ISIS”.

Aqui está o ponto: uma mensagem, para uma última mediação com - pode-se supor - uma proposta de acordo territorial, para tentar estancar, ou pelo menos delimitar, o “pântano”. Num telefonema, presumivelmente o último, entre o autor e o padre Paolo algumas semanas antes de seu desaparecimento, o jesuíta afirmou de fato: “A entrada do ISIS no norte da Síria anuncia a guerra com os curdos. Naquele ponto, tudo irá para os ares”. Esse teria sido o sentido daquela ainda misteriosa mediação: o “tesouro enterrado” daquela última viagem a Raqqa. Um último tributo ao sonho de um Mediterrâneo diferente daquele do “naufrágio da civilização” denunciado pelo Papa Francisco em Lesbos em dezembro de 2021, talvez também movido - sugere o leigo Riccardo Cristiano - pelo “medo de não morrer lá onde se deveria, quando se deveria, e pelas razões certas”.

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