Marcial Maciel, o fantasma que vagueia pela Igreja. Agora é preciso ir além da condenação de dezesseis anos atrás. A ferida se reabre e sangra periodicamente

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24 Janeiro 2022

 

Por que a questão do fundador dos Legionários de Cristo e sua história criminal reaparece sempre que surge um grande escândalo sobre pedofilia na Igreja? No entanto, quando ele comemorou seus 60 anos de sacerdócio, a Cúria da época compareceu em massa para prestar-lhe homenagem, exceto o Prefeito Joseph Ratzinger.

 

A reportagem é de L.B. e R- C., publicado por Il Sismografo, 22-01-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

A história trágica do pedófilo em série mexicano, padre Marcial Maciel, fundador-proprietário dos Legionários de Cristo, homem poderoso e rico, venerado e reverenciado pela hierarquia católica e pela imprensa - por cumplicidade, erro ou ingenuidade ou porque as acusações que circularam contra ele durante décadas foram subestimadas - volta dolorosamente aos holofotes.

Alguns jornalistas, bispos e cardeais diziam que era um verdadeiro santo.

Mas com a verdade, embora tardiamente, tudo se complicou terrivelmente. Marcial Maciel ainda não é apenas um rio subterrâneo que polui a luta contra a pedofilia na Igreja Católica, mas também um hediondo fantasma que vagueia pela Igreja há muito tempo despertando sofrimentos, pesadelos e dúvidas.

Talvez tenha chegado a hora de fechar as contas com Maciel apoiados em corajosa honestidade, com transparência clarividente e com inesgotável parrésia, evitando subterfúgios, álibis ou acrobacias linguísticas. Na Igreja, continua a se registrar um clima nebuloso sobre esta questão, certamente porque não se quer macular os pontífices que se sucedem desde o dia das primeiras suspeitas e das primeiras denúncias contra Maciel desde que, em 1939, foi expulso do seminário da diocese de Chihuahua e depois, em 1942, quando chegaram ao Vaticano os relatos dos primeiros crimes. Desde então, entre Papas, Bispos diocesanos, Secretários de Estado, Núncios Apostólicos, Prefeitos e outros responsáveis, dezenas e dezenas de homens da Igreja, entre os de maior autoridade e poder, trataram do caso Maciel até o dia de sua morte (30 de janeiro de 2008).

Foi preciso aguardar até Bento XVI para que as sanções fossem aplicadas ao homem.

No final, porém, Maciel venceu e suas dezenas de vítimas foram reduzidas a serem pessoas desacreditadas, humilhadas e arruinadas por toda a vida. Nunca antes de Ratzinger um pontífice pediu-lhes perdão e ofereceu pedido de desculpas.

Todas as vezes que Maciel era acusado, por vários motivos conseguia se safar essencialmente usando seu dinheiro, somas imensas, ou controlando os numerosos operadores da imprensa, mexicanos e não, que falavam da santidade de Maciel sem escrúpulos éticos. Aconteceu em particular, como nos escreve um nosso querido, atento e gentil leitor, que "no outono de 2004 Marcial Maciel Degollado foi recebido em Roma por São João Paulo II na Audiência concedida aos Legionários de Cristo e aos Membros do Movimento Regnum Christi. A circunstância era o sexagésimo aniversário da ordenação sacerdotal daquele que naquele dia, por inevitáveis formas de cortesia (mas a posteriori extremamente infelizes), foi definido como o "caro Padre Maciel". Como se sabe, a homenagem geralmente oferecida pela Cúria Romana ao presbítero mexicano não viu deliberadamente agregar-se aquele que poucos meses depois seria eleito bispo de Roma. Tal ausência resulta evidentemente coerente com seu comportamento assumido ao longo dos anos e que o diferenciou significativamente do outro partido.

"Naquele dia havia muitos cardeais, prelados e jornalistas. Palavras hiperbólicas foram escritos sobre a "santidade" de Marcial Maciel, mas os autores hoje se escondem, negam ou minimizam. A partir daquela experiência, um determinado tipo de imprensa, em particular Católica, teria que aprender muito ao oferecer à Igreja um serviço diferente da bajulação gratuita: liberdade e verdade, em troca de nada.

A Wikipedia, em sua página muito rigorosa e documentada sobre a biografia de Maciel, lembra: "Em 19 de maio de 2006, após uma investigação que durou mais de um ano, mas com denúncias que datam até de 1956, a Congregação para a Doutrina da Fé lhe impôs a pena canônica de renunciar a todo ministério público e lhe impôs uma vida reservada de oração e penitência por ter perpetrado abusos sexuais e crimes de pedofilia, de modo continuado por décadas, contra numerosos seminaristas de sua congregação e por ter depois absolvido alguns em confissão. Por este último delito já havia incorrido a excomunhão latae sententiae. A decisão foi aprovada pessoalmente pelo Papa Bento XVI. Em 1º de maio de 2010, no final da segunda visita apostólica levada aos Legionários de Cristo, a Santa Sé declarou que "os gravíssimos e objetivamente imorais comportamentos de Pe. Maciel, confirmados por testemunhos incontrovertíveis, configuram verdadeiros delitos e manifestam uma vida desprovida de escrúpulos e de autêntico sentimento religioso".[3] Além disso, "a conduta do P. Marcial Maciel Degollado causou graves consequências na vida e na estrutura da Legião, a ponto de exigir um caminho de profunda revisão", no que diz respeito ao carisma, à espiritualidade, às Constituições, à formação dos seminaristas, à estrutura de governo e ao apostolado. Em março de 2010, Mons. Charles Scicluna, que investigou cerca de trinta casos de abusos cometidos por Maciel, em entrevista ao jornal Avvenire, confirmou que a providência da Santa Sé havia sido uma condenação e que de forma alguma a renúncia ao processo e a emissão de medidas administrativas e disciplinares (como a obrigação de levar uma vida de retiro e oração devido à idade avançada dos acusados) poderiam ser consideradas absolvições".

Sendo assim, mesmo que Maciel esteja morto e os Legionários de Cristo e Regnum Christi pareçam estar passando por um processo de refundação, a Igreja Católica não fechou as contas com esse horror dentro dela por muitas décadas. Não parece que exista plena consciência na hierarquia católica sobre duas questões centrais: a primeira diz respeito às culpas da Igreja, por diversas razões, que deveriam ser reconhecidas pelos vértices da Santa Sé; a segunda é o fechamento de todas as frestas nos textos legislativos que os culpados de abusos sabem usar muito bem e em virtude dos quais acabam sendo julgados quando já estão enterrados.

Não o fazer significa conviver por outras décadas com o fantasma de Maciel que, além de vagar pela Igreja, tornará a luta contra a pedofilia inconsistente e pouco credível.

Talvez seja a coisa mais difícil que possa ser solicitada à Igreja Católica porque, como escreveu hoje Marco Politi, "a investigação de Munique destaca as responsabilidades de todos os arcebispos do pós-guerra até hoje", mas deve ser feito absolutamente pagando todos os preços necessários e sempre lembrando estas reflexões de Bento XVI:

"Só examinando com atenção os numerosos elementos que deram origem à crise atual é possível empreender uma diagnose clara das suas causas e encontrar remédios eficazes. Certamente, entre os fatores que para ela contribuíram podemos enumerar: procedimentos inadequados para determinar a idoneidade dos candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa; insuficiente formação humana, moral, intelectual e espiritual nos seminários e nos noviciados; uma tendência na sociedade a favorecer o clero e outras figuras com autoridade e uma preocupação inoportuna pelo bom nome da Igreja e para evitar os escândalos, que levaram como resultado à malograda aplicação das penas canônicas em vigor e à falta da tutela da dignidade de cada pessoa. É preciso agir com urgência para enfrentar estes fatores, que tiveram consequências tão trágicas para as vidas das vítimas e das suas famílias e obscureceram a luz do Evangelho a tal ponto, ao qual nem sequer séculos de perseguição não tinham chegado"(Carta aos Católicos da Irlanda - 19 de março de 2010).

 

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