Polônia. Cardeal Dziwisz não aceita as acusações contra sua conduta e de João Paulo II em crimes de abuso sexual - como no caso Maciel

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04 Novembro 2020

O cardeal polonês Stanislaw Dziwisz, um ex-secretário pessoal de longa data de João Paulo II, está negando as acusações de um padre de que ele teria acobertado um caso de abuso clerical em 2012.

Em entrevista extraordinária concedida em 20 de outubro para a maior emissora de televisão da Polônia, TVN24, o cardeal também negou que João Paulo II teria qualquer conhecimento de crimes cometidos por Marcial Maciel Degollado, um pedófilo e fundador da, um dia poderosa, Legião de Cristo.

A reportagem é de Szymon Piegza, publicada por National Catholic Reporter, 03-11-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Dziwisz, que serviu como arcebispo da Cracóvia entre 2005 e 2016, foi acusado pessoalmente de não responder uma carta sobre caso de abuso de Janusz Szymik, uma vítima do padre Jan Wosniak.

O padre Tadeusz Isakowicz-Zaleski, um padre cracoviano, afirmou ter entregado a carta a Dziwisz em 2012.

“Eu não lembro das conversas sobre isso”, falou Dziwisz a TVN24, dizendo que a matéria não se refere a ele, como Wosniak não pertencia a Arquidiocese de Cracóvia, mas sim à vizinha Diocese de Bielsko-Zywiec.

“Eu não posso colocar sobre a minha consciência que eu não fiz nada para ajudar quando alguém procurou minha ajuda”, disse o cardeal. “Isso é impossível. Se eu soubesse todos os detalhes, eu reagiria, embora eu até tivesse o direito de não fazer, porque era de uma diocese diferente”.

A alegação de Isakowicz-Zaleski contra Dziwisz atraiu ampla atenção na mídia polonesa, como o padre é fundador da Brother Albert Foundation, um dos maiores grupos sem fins lucrativos do país, que ajuda pessoas com necessidades especiais.

Respondendo à entrevista de Dziwisz, o padre falou ao NCR que o cardeal tem responsabilidade para o caso de Szymik como um arcebispo metropolitano da região que inclui a diocese onde o abuso ocorreu.

“É claro que o cardeal poderia e deveria ter reagido a isso”, falou Isakowicz-Zaleski. “Ele era o metropolitano”.

“O cardeal não entende que o silêncio e o encobrimento, os quais eram possíveis 30 anos atrás, não são efetivos atualmente”, acrescentou o padre.

Dziwisz serviu como secretário de João Paulo II durante todo o pontificado do polonês, entre 1978 a 2005.

A questão do conhecimento de João Paulo II dos crimes de Maciel há muito é uma chaga no legado do falecido papa. Quando João Paulo II foi canonizado em 2014, as autoridades do Vaticano alegaram que o pontífice não teve “envolvimento pessoal” na investigação de alegações feitas contra Maciel.

Mas uma extensa reportagem sobre o abuso de Maciel foi feita pela primeira vez pelos jornalistas Jason Berry e Gerald Renner em 1997. Maciel não foi punido publicamente até 2006, após a morte de João Paulo II, quando o papa Bento XVI ordenou ao padre uma vida de penitência.

Dziwisz disse que João Paulo “nunca escondeu nada, nunca encobriu tais assuntos”.

Quando o entrevistador perguntou como Maciel continuou a exercer influência no Vaticano após as denúncias de seu comportamento abusivo, Dziwisz disse que nunca tinha tido conhecimento dessas denúncias.

“Quando essas coisas começaram a surgir, perguntei a um dos associados de Maciel se ele sabia; ele respondeu que ninguém nos Legionários tinha ouvido falar disso”, disse o cardeal. “Ouvi dizer que neste assunto a culpa é de João Paulo II ou minha, mas enquanto estive no Vaticano, nunca ouvi falar nisso”.

O entrevistador também perguntou sobre a forma como o Vaticano lidou com as reportagens contra os então cardeais Theodore McCarrick e Hans Groër.

McCarrick, um ex-arcebispo de Washington ainda vivo, é acusado de conduta sexual inadequada com seminaristas adultos do sexo masculino e foi laicizado em 2019. Groër, um arcebispo falecido de Viena, foi acusado de abusar sexualmente de meninos.

Tanto McCarrick quanto Groër foram nomeados para seus cargos por João Paulo II.

“Não acho que essas sejam perguntas para mim, porque não fui eu”, Dziwisz respondeu à pergunta. “Essas coisas estavam passando pela Secretaria de Estado do Vaticano. O Papa não falava sobre negócios com seus amigos”.

João Paulo II não tinha medo de tais assuntos, mas cuidava deles e os arranjava”, disse o cardeal.

Isakowicz-Zaleski sugeriu que, ao responder ao seu entrevistador de maneira tão evasiva, Dziwisz estava prejudicando a imagem de João Paulo II.

“Quanto mais cedo as questões difíceis forem explicadas, mais será esclarecida a memória de João Paulo II, que é uma figura importante para muitas pessoas em todo o mundo”, disse o sacerdote.

O padre Andrzej Kobyliński, professor de filosofia da Universidade Cardeal Stefan Wyszynski em Varsóvia, disse que o problema mais amplo da gestão de João Paulo II era toda a “comitiva polonesa” que cercava o pontífice.

“Não podemos reduzir muitas questões difíceis do pontificado de João Paulo II ao seu secretário pessoal”, disse o padre.

Kobyliński observou que o popular blog Il Sismografo, que é uma fonte de notícias internas do Vaticano, tem se referido repetidamente à “comitiva polonesa” nos últimos anos.

O advogado de Szymik sugeriu ao NCR que a entrevista foi uma oportunidade perdida para o cardeal se desculpar com seu cliente e com as outras vítimas de abuso na Polônia.

“A palavra ‘perdão’ e o reconhecimento de negligência ajudariam não apenas a vítima, mas também o próprio cardeal”, disse o advogado Artur Nowak.

“Como ele pode, em consciência, deixar de resolver essas questões e, ainda assim, manter um relacionamento verdadeiro e pessoal com Deus?”, indagou o advogado.

Nowak, que é advogado de muitas vítimas, também é um sobrevivente de abusos do clero. Ele observou que, nos últimos anos, o tabu na Polônia contra relatar abusos na igreja foi quebrado, em grande parte graças às reportagens da mídia e à bravura de muitos sobreviventes.

“Não somos mais as vítimas”, disse Nowak. “Fomos salvos pela coragem de mostrar nossos rostos ao mundo inteiro. Levamos décadas”.

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