Quem foi (e não foi) Maria Madalena?

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22 Julho 2021

 

Maria Madalena é uma das mulheres mais significativas do Novo Testamento. Em 1969, o Vaticano confirmou que ela era uma discípula que foi ao encontro de Jesus da Galileia, ficou com ele aos pés da cruz enquanto a maioria dos seus seguidores tinha ido embora (Mt 27,55-56, Mc 15,40-41, Lc 23,49, Jo 19,25), foi ao seu túmulo na manhã do Domingo de Páscoa, procurou e encontrou o Cristo ressuscitado – seu mestre, seu “Rabbouni” (Mt 28,1-20, Jo 20,1-16), e ele lhe falou e a enviou a proclamar sua Ressurreição, e ela assim o fez (Jo 20,17-18).

O comentário é de Rita L. Houlihan, psicóloga e leiga católica estadunidense, com mestrado em Psicologia Educacional pela Universidade de New York. O artigo foi publicado em Reclaim Magdalene. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No entanto, as imagens dominantes dela na arte e no nosso imaginário popular são as da “mulher pecadora” penitente ou de uma eremita emaciada no deserto, mas nenhuma delas se sustenta segundo as Escrituras.

A deturpação dela como “a pecadora da cidade”, segundo Lucas, combinada com Maria de Betânia foi vista pela primeira vez no fim do século VI em uma homilia do Papa São Gregório I. Essa deturpação lentamente substituiu as imagens dela baseadas na Escritura como a fiel discípula aos pés da cruz e no sepulcro de Jesus.

No século XVII, seu papel como a corajosa apóstola que proclamou por primeiro a Ressurreição estava praticamente esquecida. Nos séculos XIX a XX, à medida que os instrumentos e as técnicas dos estudos bíblicos se desenvolviam, os estudiosos reexaminaram Maria Madalena. Eles examinaram os textos das Escrituras, as convenções de nomenclatura do primeiro século e as fontes de diferentes tradições. Eles concluíram que apenas os textos do Evangelho que mencionam Maria Madalena descrevem quem ela foi e as suas ações.

Portanto, ela não é nenhuma das mulheres anônimas dos Evangelhos, como a anônima “pecadora da cidade” de Lucas (7,36-50) que, em busca de perdão, lavou os pés de Jesus com as suas lágrimas, ou a “mulher anônima apanhada em adultério” de João (8,1-11).

As duas principais razões para essas conclusões se centram no nome singular de Maria Madalena e na evidência das primeiras tradições a seu respeito. Seu nome singular é registrado com frequência e no mesmo formato em todos os quatro Evangelhos e em textos não canônicos, como o Evangelho de Tomé. Nas listas de discípulas, ela é sempre nomeada primeiro, indicando o seu papel de liderança [1].

As comunidades cristãs primitivas (séculos III a X) criaram relevos, medalhas, esculturas de marfim, ícones e outras artes homenageando-a como uma discípula fiel aos pés da cruz e como uma das mulheres que foi ao túmulo de Jesus com jarros de unguento na manhã de Páscoa.

Essas imagens são encontradas no século XIII. A primeira imagem conhecida que a mostra como a pecadora que lava os pés de Jesus só apareceu no século VIII, na Cruz de Ruthwell, em Jarrow, Inglaterra.

Detalhe da cruz de Ruthwell, em Jarrow, Inglaterra, com a imagem de Maria Madalena supostamente lavando os pés de Jesus

 

Também é significativo que as Igrejas orientais não a confundiram com a mulher pecadora de Lucas e mantiveram festas separadas para Maria de Betânia e Maria Madalena. Ela tem sido celebrada como santa no dia 22 de julho desde pelo menos 720 EC tanto nas Igrejas oriental quanto ocidental, até hoje.

A correção do Vaticano em 1969 foi feita apenas no calendário litúrgico e não foi acompanhada por um ensino adicional, por publicidade ou por novas obras de arte, de modo que ela continuou sendo a “mulher pecadora” no nosso imaginário popular. É compreensível que, em 1970, quando Rice e Webber lançaram o seu álbum conceitual “Jesus Christ Superstar”, eles apresentaram Maria Madalena como a pecadora da lenda. No entanto, surpreendentemente, Rice e Webber também captaram um senso da proeminência e fidelidade dela, e a sua canção “Could We Start Again Please?” mostra-a como uma líder em paralelo a Pedro.

No dia 3 de junho de 2016, o Vaticano elevou a comemoração de Maria Madalena no dia 22 de julho a festa, com um prefácio próprio. Ela e Maria, a mãe de Jesus, são as únicas mulheres com uma festa própria, a mesma honra dada aos apóstolos homens. O anúncio a chamava de “Apóstola dos Apóstolos”, um título honorífico do século IV. Não houve anúncios públicos adicionais ou novos hinos, artes sacras, artigos, conferências etc., se modo que algumas confusões ainda persistem. Mas a designação de festa é significativa [2].

Serão necessárias muitas comunicações e ensinamentos para restaurar a nossa memória histórica de Maria Madalena como apóstola da Ressurreição. Um exemplo é a arte “Maria de Magdala proclama a Ressurreição” (no topo da página). Imagine o efeito que terá sobre as nossas meninas vê-la como uma líder e um modelo de mulher corajosa e fiel.

 

Notas:

 

1. Maria Madalena é nomeada “14 vezes nos Evangelhos, mais do que qualquer outra mulher e mais do que a maioria dos homens do círculo íntimo de Jesus” (Joann Turpin, “Twelve Apostolic Women”, Cincinnati: St Anthony Messenger Press, 2004. p. 48). Os nomes das mulheres raramente eram registrados; quando o eram, geralmente eram identificados pela sua relação com um homem (pai, marido, filho etc.). Portanto, é surpreendente que Maria Madalena seja nomeada por seu lugar de origem, Migdal. Seu nome é registrado 12 vezes no mesmo formato gramatical em todos os quatro textos do Evangelho, e ela aparece como “Maria” duas vezes no texto da ressurreição de João (20,1-18), onde fica claro que nenhuma outra mulher está presente. Seu nome também aparece na mesma construção gramatical nos textos não canônicos, como o Evangelho de Tomé e o Evangelho de Maria. Os Evangelhos e os textos não canônicos foram escritos para comunidades amplamente dispersas ao longo de um período de cerca de 300 anos (c. 70 a 350). É notável que o seu nome tenha sobrevivido de modo intacto. Isso indica que ela era uma apóstola bem conhecida. Com base nessa análise, os biblistas do século XX concluíram que ela não apareceria como uma pessoa anônima em um relato do Evangelho. Portanto, ela não é a anônima “pecadora da cidade” de Lucas, que, buscando o perdão, lavou os pés de Jesus com suas lágrimas; ela não é a anônima “mulher apanhada em adultério” (Jo 8,11), nem a mulher não identificada de Marcos ou Mateus que profeticamente ungiu a cabeça de Jesus em antecipação à sua morte (Mc 14,1-9; Mt 26,1-13), nem Maria de Betânia que, no Evangelho de João, ungiu os pés de Jesus em antecipação à sua morte (Jo 12,1-8).

2. Decreto sobre a celebração de Santa Maria Madalena elevada a festa no Calendário Romano Geral. Disponível em espanhol aqui.

 

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