Uma “bomba” papal ou um grande fracasso?

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24 Mai 2021

 

O Papa Francisco reforma ainda mais o processo sinodal para favorecer a contribuição dos “leigos”, mas isso não significará nada se os bispos locais se recusarem a escutar.

O comentário é de Robert Mickens, publicado por La Croix International, 21-05-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Papa Francisco costuma dizer aos jovens que não tenham medo de “sacudir as coisas”.

Na verdade, ele usa a frase espanhola “hacer lío”. Isso significa, literalmente, “fazer bagunça”.

Embora ele não seja mais jovem, ele mostrou ao longo de seu pontificado que não perdeu nem um pouco daquela sua audácia juvenil de abalar e sacudir as coisas e – sim – fazer bagunça.

E agora parece que o papa argentino de 84 anos fez tudo isso de novo. Foi anunciado nesta semana que ele permitiu novas mudanças na forma como o Sínodo dos Bispos funciona, a fim de incluir melhor as opiniões dos chamados “leigos”.

Isso tem o potencial de ser uma verdadeira bomba ou um fracasso colossal. Tudo depende de como isso vai se desenrolar.

A Secretaria Geral do Sínodo, com sede em Roma, disse nessa sexta-feira que o papa aprovou a proposta de adiar a próxima assembleia sinodal em um ano e dividi-la em três fases separadas.

A assembleia, que discutirá formas práticas de fazer da sinodalidade o princípio constitutivo da vida e da prática da Igreja, seria realizada em Roma em outubro de 2022.

Agora, ela foi adiada para outubro de 2023.

 

Fase diocesana

Nesse ínterim, os bispos locais estão sendo instruídos a “escutar” ativamente as opiniões dos católicos em suas dioceses.

A Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos vai lhes enviar um questionário para esse fim, e eles designarão uma “pessoa de referência” para supervisionar esse processo junto às pessoas.

Cada pessoa de referência fará um relatório à Secretaria do Sínodo e à Conferência Episcopal nacional. Esta última se reunirá para “discernir” o que foi relatado por todas as dioceses.

“Será iniciado um período de discernimento dos pastores reunidos em assembleia (Conferência Episcopal), aos quais se pede que escutem aquilo que o Espírito suscitou nas Igrejas a eles confiada”, afirmou a Secretaria do Sínodo.

Cada Conferência Episcopal redigirá uma síntese daquilo que as dioceses locais relataram e enviará esse relatório à secretaria em Roma.

 

Fase continental

A Secretaria do Sínodo usará os relatórios das várias Conferências Episcopais de todo o mundo para produzir um documento de trabalho inicial (Instrumentum laboris) sobre o tema da sinodalidade.

Esse documento será, então, estudado em um grande encontro de todas as Conferências Episcopais nacionais de um determinado continente.

“A finalidade dessa fase é dialogar em nível continental sobre o texto do primeiro Instrumentum laboris, realizando mais um ato de discernimento à luz das particularidades culturais específicas de cada continente”, assinala a secretaria.

O conteúdo cultural de cada continente? O que isso significa é uma incógnita. O Vaticano e muitos europeus, por exemplo, veem a “América” como um único continente.

Na realidade, é claro, existem pelo menos três ou quatro massas de terra geográficas nela.

E culturalmente, linguisticamente? Há uma grande variedade de diferenças entre as inúmeras Conferências Episcopais que vão da Argentina no extremo Sul ao Canadá no extremo Norte.

Será particularmente interessante ver como essas assembleias internacionais serão organizadas.

Em todo o caso, elas praticamente repetirão o processo diocesano/nacional anterior e produzirão relatórios a serem enviados à Secretaria do Sínodo.

Em seguida, esta usará todos esses relatórios para redigir o segundo Instrumentum laboris. Esse será o documento de trabalho da assembleia sinodal que o papa presidirá em outubro de 2023 em Roma.

 

Tudo depende de quem e do que os bispos vão querer ouvir

“A articulação das diferentes fases do processo sinodal possibilitará a escuta real do Povo de Deus e garantirá a participação de todos no processo sinodal. Não é apenas um evento, mas também um processo que envolve em sinergia o Povo de Deus, o Colégio Episcopal e o bispo de Roma, cada um segundo a sua própria função”, afirma a Secretaria do Sínodo.

A ideia é que as opiniões de todo o Povo de Deus – leigos e leigas, religiosos e religiosas professos e clérigos – sejam cuidadosamente discernidas em vários níveis e incluídas em toda tomada de decisão ou processo de discernimento adicional.

Se isso parece bom demais para ser verdade, provavelmente seja.

Embora o papa diga que deseja incluir as opiniões de todo o Povo de Deus, os bispos continuam detendo todas as cartas e controlando o procedimento. Embora o papa – que é o presidente do Sínodo dos Bispos – possa lhes dizer para executar o plano, ele tem pouco controle sobre como eles o fazem.

No fim, são os bispos quem decidem quais vozes e pontos de vista eles levarão às reuniões continentais e quais eles ignorarão ou reinterpretarão.

A voz do povo pela boca (e interpretação) dos bispos. Em lugares como os Estados Unidos, isso não parece muito promissor.

Parece mais uma receita de um “lío” real – uma bagunça de verdade!

Será interessante ver como isso vai se desenrolar. Mas uma coisa é certa: o papa jesuíta fez uma grande mudança que será difícil de reverter.

Os benefícios, uma vez concedidos, não serão facilmente revogados. Nem mesmo na Igreja romana.

O atual secretário-geral do Sínodo dos Bispos, o cardeal maltês Mario Grech, está decidido a fazer a nova reforma e métodos funcionarem para que eles continuem por muito tempo após o término deste pontificado.

É provável que seja bastante confuso no início. E talvez até no longo prazo.

Mas esse é o preço necessário para “converter” a Igreja inteira à sinodalidade – especialmente os bispos.

 

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