Uma resenha de “Vamos sonhar juntos”, do papa Francisco – o Santo Padre da fraternidade

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01 Dezembro 2020

Nas reflexões escritas durante a quarentena, o pontífice reforça um crescente grupo de pessoas que buscam um retorno aos valores comunitários.

O artigo é de Julian Coman, publicado por The Guardian, 29-11-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Não demora muito para que nas suas reflexões de um ano traumático, Francisco ofereça uma linha do seu poeta favorito, Friedrich Hölderlin: “Onde está o perigo, cresce o poder salvador”. Em momentos de desafios pessoais ao longo de sua vida, Francisco escreve essas palavras que o ajudam a navegar na crise. Embora momentos de avaliação nos desnudem, a vulnerabilidade absoluta deixa-nos abertos a momentos de graça e revelação.

Curto o suficiente para ser lido em uma só sentada, “Vamos sonhar juntos” é escrito no espírito de insights e lança um desafio espiritual para o leitor. A destilação de comentários de verão com o escritor inglês católico Austen Ivereigh, o livro é reconhecível como um produto dessa estranha, surreal primeira fase da pandemia do coronavírus. Enquanto pacientes lutavam para respirar em centros de tratamento intensivo superlotados, nossas ruas sentiam o silêncio e a quarentena trouxe o mundo a um estremecimento. Calamidades como essa, diz Francisco, podem ser uma experiência de limite, dividindo uma era de outra. “Esse é o momento para sonhar grande”, escreveu, “para repensar nossas prioridades – o que nós valorizamos, o que nós queremos, o que nós procuramos – comprometermo-nos a agir em nossa vida diária sobre o que nós sonhamos”.

A crise da covid-19, argumenta o Papa, tem revelado a mentira do “mito da autossuficiência”, que autoriza desigualdades crescentes e desfaz os laços que unem as sociedades. Impiedosamente, o vírus demonstrou nossa dependência mútua e vulnerabilidade comum. Contamos coletivamente com o Estado como nunca antes. Os aplausos nas janelas para as enfermeiras, enfermeiros, médicas e médicos, e para os funcionários que mantinham os serviços essenciais funcionando, arriscando suas vidas, foi um momento coletivo: “Eles são os santos da porta ao lado, que despertaram algo importante em nossos corações... os anticorpos contra o vírus de indiferença. Eles nos lembram que nossa vida é uma dádiva e que crescemos dando de nós mesmos: não nos preservando, mas nos perdendo no serviço. Que sinal de contradição com o individualismo, a auto-obsessão e a falta de solidariedade que tanto dominam nossas sociedades mais ricas!”.

Se virmos essa erupção que Francisco chama de “fraternidade” pelo que ela é – pelo que revela sobre a condição humana - ela pode se tornar a plataforma de lançamento para uma nova política do bem comum? Confinado como todos nós, o Papa vislumbrou uma nova empatia, nascida de nosso súbito isolamento. Renovando o caso para os esquecidos, os excluídos e os terrivelmente maltratados, Francisco fala sobre a situação dos muçulmanos Rohingya e Uigures, as lutas do movimento Black Lives Matter e as contínuas “'pandemias' de fome, violência e catástrofe climática". Se quisermos realmente sair da provação da covid menos egoístas do que entramos, ele escreve, “temos que nos deixar ser tocados pela dor dos outros”.

Davi, Paulo e Francisco

A Bíblia é explorada em busca de exemplos de pontos de inflexão análogos – “personal covids” - que reajustam o controle das vidas individuais. O encontro de São Paulo com Jesus na estrada para Damasco vira suas prioridades e seu senso de identidade de cabeça para baixo. O rei Davi, apesar de todo o esplendor de seu reinado, encontra a verdadeira sabedoria e humildade apenas em sua pior fase, apedrejado, amaldiçoado e traído enquanto foge de Jerusalém. De seu próprio passado, Francisco relembra seu exílio humilhante em 1990 na cidade provinciana de Córdoba. Enviado para lá por sua própria ordem religiosa para refletir sobre seu estilo de liderança imperfeito e autoritário, Francisco escreve que mal saía de casa: “Foi uma espécie de auto-isolamento, como tantos de nós temos feito ultimamente, e isso me fez bem”. Crises como essa destronam o eu soberano e iniciam um processo de purificação e esclarecimento. “Às vezes, um desenraizamento pode ser uma cura ou uma reforma radical”.

Podem as sugestões fraternas da primeira onda sobreviver às divisões da segunda?

Há uma urgência espiritual e calor em “Vamos Sonhar Juntos” que irá agradar tanto aos leitores leigos quanto aos fiéis. Mas esses pensamentos de um Papa aprisionado já parecem um pouco como se pertencessem a outra época. A estranheza total da primavera e do verão se foi, junto com os aplausos da noite de quinta-feira e aquela sensação de novidade chocante e uma situação comum. Tensões e ressentimentos familiares ressurgiram, à medida que a pandemia atinge aqueles com menos força e aprofunda as divisões sociais. Na Grã-Bretanha, Nigel Farage formou um novo movimento político, o que é sempre um sinal dos debates turbulentos e polarizados que estão por vir. Um congelamento de salários no setor público e a redução do orçamento de ajuda ao exterior não sugerem um novo idealismo a serviço do Tesouro. Podem as sugestões fraternas da primeira onda sobreviver às divisões da segunda?

Profecia e esperança

Mas este livro deve ser lido como uma obra de profecia e esperança, em vez de análise. Na seção final, Francisco escreve que a covid ensinou-nos que “ninguém se salva sozinho”. Esse conhecimento exige uma nova política de inclusão, acredita ele. Ele nos equipa para evitar tanto o individualismo excessivo quanto o populismo agressivo que prospera na identificação de inimigos em casa e no exterior. “A fraternidade”, insiste o Papa, “é a nova fronteira”, capaz de costurar as demandas frequentemente conflitantes de liberdade e igualdade.

Vamos Sonhar Juntos” junta-se, assim, a um crescente corpo de literatura da era covid, que pede uma redefinição comunitária dos valores e instituições liberais.

Nos últimos meses, A Tirania do Mérito, de Michael Sandel, The Upswing, de Robert Putnam e Shaylyn Romney Garrett, e Morality, do falecido Jonathan Sacks, atravessaram territórios semelhantes. O pronome coletivo está de volta à moda. “Sem o ‘nós’ de um povo”, escreve Francisco, “de uma família, de instituições, de uma sociedade que transcende o ‘eu’ dos interesses individuais”, ficamos com “uma batalha pela supremacia entre facções e interesses”.

Esse era o Estado polarizado no qual iniciamos a pandemia de covid-19; não deve ser como deixaremos para trás. “Não podemos deixar o atual momento de esclarecimento passar por nós”, conclui o Papa. Tendo começado com Hölderlin, ele poderia ter terminado com a famosa injunção de Rainer Maria Rilke, outro grande poeta de língua alemã: “Você deve mudar sua vida”.

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