“Nós, cristãos conservadores sob ataque”. Entrevista com Rod Dreher

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24 Novembro 2020

Os cristãos conservadores querem contar mais na política estadunidense. O movimento antiabortista pró-life está multiplicando as pressões para levar a Suprema Corte a anular a histórica sentença Roe vs. Wade que desde 1973 garante o direito de interromper a gravidez nos Estados Unidos. As esperanças agora estão com Amy Coney Barrett, 47, a nova juíza supercatólica recém-nomeada por Donald Trump para substituir a liberal Ruth Bader Ginsburg no máximo órgão judicial. Exploramos esse mundo com a ajuda do escritor Rod Dreher, 53, nascido em Baton Rouge na Louisiana, cristão pertencente à Igreja Ortodoxa, autor de bestsellers como A opção beneditina, publicado em português pela Ecclesiae em 2018.

Nas últimas semanas foi publicado outro livro que já passou ao centro do debate cultural: “Live Not by Lies (Sentinel), [Viver sem mentiras]: É o último apelo que Aleksandr Solzenitsyn dirigiu ao povo russo, antes de ser exilado”. O que isso significa hoje? Surpresa: os católicos e evangélicos mais observantes se sentem ameaçados pela "ideologia da justiça social" promovida pela esquerda radical. A tese de Dreher poderá parecer extrema, exagerada. Mas reflete o sentimento de muitos estadunidenses, homens e mulheres de fé, que olham com preocupação para Joe Biden e estão cada vez mais distantes do Papa Francisco.

A entrevista com Rod Dreher é de Giuseppe Sarcina, publicada por La Lettura, 22-11-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Em seu primeiro livro, você convidava os fiéis a se isolarem do mundo dominado pelo secularismo, a imitar a escolha de São Bento de Núrsia para recuperar o sentido da fé. Neste novo trabalho, defende que o Cristianismo esteja sendo ameaçado por "um regime autoritário". Não é demais?

É o que está acontecendo nos Estados Unidos. Não devemos nos deixar enganar pelas aparências. Os conservadores podem ter poder na política, na Casa Branca ou no Congresso. Mas suas vozes são completamente abafadas em escolas, universidades, mídia, ciências médicas, ambientes de finanças e indústria. É uma situação semelhante à ocorrida nos Estados europeus ocupados pela União Soviética. É por isso que me reporto às palavras de Solženitsyn e começo o livro contando a história de um padre jesuíta croata, Tomislav Kolakovic, que previu a ocupação soviética e a perseguição da Igreja em seu novo país, a Eslováquia. Foi ele quem organizou os fiéis em pequenas comunidades de oração e ativismo: base da resistência ao regime comunista. Acredito que nos EUA estamos vivendo um momento Kolakovic.

Você está dizendo que um regime comunista governa os EUA? Donald Trump ainda está na Casa Branca.

Não, estou falando de um regime totalitário na sociedade. Deixe-me dar um exemplo: você tenta se declarar contra o casamento entre homossexuais em qualquer escola ou jornal do país e, se tudo correr bem, você será silenciado, marginalizado, sua reputação ficará arruinada para sempre. A ideologia de esquerda usa slogans igualitários, palavras como "inclusão", "equidade", "diversidade", para hegemonizar a comunicação nas redes sociais ou nas mídias convencionais e para atingir os dissidentes. O que o Papa Bento XVI previu está acontecendo, “uma ditadura mundial de ideologias aparentemente humanistas”.

Você enfoca principalmente o tema da família, que seria destruída por aquela que chama de “ideologia de gênero”, o casamento entre homossexuais. Mas, recentemente, o Papa Francisco abriu para a união entre dois homens ou entre duas mulheres ...

Sim, mas alguém conhece a real posição do Papa Francisco? Penso que foi ele quem quis criar essa confusão. Bergoglio é um católico liberal padrão que não tem objeções reais ao casamento homossexual. Nos Estados Unidos, o padre James Martin, um jesuíta engajado a favor da comunidade LGBT, argumenta que a doutrina católica contempla a homossexualidade. Mas isso é um absurdo. No entanto, ninguém duvida da ortodoxia do Padre Martin, figura muito próxima ao Pontífice. Vivemos em uma sociedade pós-cristã, onde até mesmo os heterossexuais não respeitam o matrimônio religioso. Detesto ver o Papa se render ao mundo moderno, enquanto deveria destacar suas contradições. Quando ele diz: "Quem sou eu para julgar?", a mensagem que chega é que ele não tem mais nada a dizer sobre a homossexualidade. O dano é permanente, principalmente para os jovens que o ouvem.

É claro que suas opiniões provocarão discussão. Mas esse não é um tema apenas religioso. Você questiona os direitos civis das pessoas dependendo de sua orientação sexual ...

Acho que as leis sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo estão erradas, simplesmente porque não são casamentos. Depois disso, confesso que não tenho certeza sobre as uniões civis. Talvez poderiam ser admitidas com algumas limitações.

Vamos falar sobre política. Os cristãos conservadores permaneceram leais a Trump?

Os brancos de fé evangélica votaram em Trump mais ou menos com as mesmas proporções de 2016: 76 por cento este ano contra 81 por cento há quatro anos. Trump e Biden, por outro lado, dividiram o voto dos católicos. O fato de Biden ser católico não fez diferença para os cristãos conservadores. Todos nós sabemos bem que Trump é tudo menos um santo e provavelmente nem mesmo é um cristão. Mas durante sua gestão, manteve posições muito fortes em favor do movimento pró-life; nomeou Amy Coney Barrett, uma católica conservadora, para a Suprema Corte. Além disso, Trump fez muito pela liberdade de religião.

O que você espera de Biden?

O catolicismo de Biden será apenas cerimonial. Não julgo sua fé pessoal, é um problema entre ele e Deus, mas o "católico" Biden apoia 100% a "ideologia de gênero" e a liberdade total de aborto. Tenho certeza que renovará os ataques à liberdade religiosa já conduzidos por Barack Obama. Biden governará como qualquer político liberal, mas irá à missa aos domingos. Os bispos nomeados pelo Papa Francisco vão adorá-lo. Espero uma avalanche de artigos sobre o quanto Biden é um grande católico, um verdadeiro amigo do Papa e assim por diante. Para os católicos liberais, tudo isso será encorajador; para os católicos conservadores, porém, será deprimente. Nada vai mudar. Há um cisma de fato na Igreja estadunidense e continuará a crescer.

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