Juan Carlos Scannone e a teologia do povo

Juan Carlos Scannone (Foto: Queriniana)

24 Novembro 2020

"Os méritos da obra são notáveis: permite conhecer de perto a perspectiva teológico-pastoral do Papa Francisco e compreender melhor a orientação de seu pontificadoScannone mostra-se competente e bem informado para relembrar importantes eventos e personalidades do mundo eclesial, social e cultural que contribuíram para a história da sociedade e da Igreja argentina na qual o Papa Francisco se formou e com a qual elaborou sua teologia do povo", escreve Gaudenzio Zambon, em artigo publicado por Blog da Editora Queriniana, 23-11-2020. A tradução é Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Um ano depois de sua morte, queremos lembrar o caro pe. Scannone, antigo professor do jovem seminarista Jorge Mario Bergoglio, com esta apresentação de sua figura e de sua última obra, publicada em italiano pela Queriniana. A resenha foi publicada na última edição (2/2020) da revista teológica Studia Patavina.

 

Juan Carlos Scannone (2 de setembro de 1931 - 28 de novembro de 2019) - Jesuíta, teólogo e filósofo argentino falecido recentemente, apenas poucos dias depois de receber o título de honoris causa em “Cultura da unidade” pelo Instituto Universitário Sophia de Loppiano por ser reconhecido como o maior expoente atual da “teologia do povo de Deus - presente no Teologia del popolo (Teologia do Povo) a vertente da teologia argentina do povo e da cultura, destacando as características da teologia da libertação.

 

La teologia del popolo. Radici teologiche di papa Francesco

 

O objetivo do livro, entretanto, vai muito além disso. Pretende colocar-se “ao serviço de uma compreensão mais profunda não só do pensamento, mas também, e sobretudo, da ação e orientação do governo da Igreja pelo Papa Bergoglio, bem como do seu diálogo sincero e aberto com as religiões, os povos e as suas culturas [...] em vista de uma globalização alternativa, mais justa e mais humana” (p. 6).

 

A obra está dividida em três partes. Na primeira o autor reconstrói a teologia do povo desde a sua origem pós-conciliar até a sua expressão atual, centrando-se na figura teológica mais representativa: Lúcio Gera (1924-2012). A segunda parte, por sua vez, é dedicada à teologia como inculturada, cujo lugar hermenêutico é a piedade popular. De fato, a teologia inculturada é “lugar de reflexão, interpretação e conhecimento crítico da mensagem cristã, por ser lugar privilegiado de sua vivência, de sua prática e de seu conhecimento sapiencial” (p. 47).

 

No entanto, quando na linguagem teológica são usados os termos "povo" e "popular”, se quer fazer uma referência a algo mais particular que caracterizou a história latino-americana, ou seja, a chamada "irrupção do pobre" que o colocou em primeiro plano na sociedade e na Igreja. Isso teve consequências importantes do ponto de vista metodológico, pois estabeleceu que deve haver uma inter-relação entre a realidade social, pastoral e a teologia e que a teologia deve ser considerada o "segundo ato" do "primeiro ato", uma vez que vem depois da experiência. De fato, a teologia é aquele ato que reflete criticamente à luz da revelação sobre a experiência espiritual encarnada do povo de fé. Porém, a irrupção do pobre e daquele que crê na sociedade, na pastoral e na teologia não é interpretada da mesma forma por todos. Por isso o autor considera importante voltar a refletir no terceiro e quarto capítulos sobre a compreensão de "povo" e "popular" do ponto de vista de uma teologia inculturada argentina: "povo" indica o "sujeito comunitário de uma história e de uma cultura", "popular”, em vez disso, se reporta àqueles setores da vida assim chamados porque constituídos por pessoas pobres e trabalhadores que se tornaram a espinha dorsal do povo-nação, que resistiram à cultura da dominação e que preservaram “os valores humanos e cristãos da cultura nascida da miscigenação cultural originária" (p. 62).

 

A categoria de "miscigenação cultural" também é particular porque ajuda a interpretar a história e a cultura argentinas, especialmente para lembrar o fato de que a unidade prevaleceu sobre o conflito e sobre a dialética do "senhor-escravo" (cf.p. 92-95). Sobre tal base, foi possível desenvolver um "ethos cultural" cujo núcleo originário reside no sentido sapiencial da vida, do homem e de Deus. Suas características fundamentais são um humanismo de justiça em um horizonte de unidade, um humanismo comunitário aberto à transcendência capaz de integrar valores antagônicos (ver p. 101-113).

 

A partir dessas considerações, Scannone se inspira para desenvolver uma hermenêutica teológica alternativa, que coloca a sabedoria do povo e a religiosidade popular no centro, e que visa conferir valor à religião do povo (ver cap. VI). Assim, ele chega à terceira parte, na qual apresenta as raízes teológicas do Papa Francisco e seu trabalho para cumprir a “agenda inacabada do Concílio, especialmente na perspectiva evangélica de uma ‘Igreja pobre para os pobres’”. A orientação do seu pontificado está delineada na exortação apostólica Evangelii gaudium definida por Scannone como um "roteiro" porque contém três temáticas programáticas que trata nos últimos capítulos do livro (IX-X-XI): a inculturação, o sujeito comunitário da espiritualidade popular e da mística populares, os quatro princípios para a construção de um povo.

 

Juan Carlos Scannone (Foto: Queriniana)

 

Cultura, inculturação e piedade popular são consideradas essenciais para a teologia do povo. No entanto, ele percebe que no período pós-concílio ainda não se chegou a uma "pastoral popular" e a um governo da Igreja, bem como a uma política nacional e internacional que busque a justiça, a paz e o bem comum universal. Segundo Scannone, a teologia do povo do Papa Francisco deve ser entendida em continuidade e como complemento da Gaudium et spes, da qual assume três pontos-chave: a mudança de paradigma teológico que revaloriza a categoria de "relação" sobre a de "substância", a mudança de um método que vai além de “ver, julgar, agir” porque busca o seu sentido à luz do Evangelho e dos sinais da vontade de Deus (sinais dos tempos) e sobretudo a opção pelos pobres (“Quero uma igreja pobre para os pobres”: Evangelii gaudium 198) como “categoria evangélica e teológica” (p. 152), da qual pode nascer um novo paradigma sociocultural mais humano, justo e solidário.

 

A teologia do povo de Deus configura-se em torno desses pontos-chave, cujas características teológicas são: ser um “povo fiel” que anuncia o Evangelho no seu conjunto; ser um povo que se envolve, a cada nova geração, na “cultura do encontro” (ver as quatro prioridades de Bergoglio na construção do povo: p. 155-159, retomadas no capítulo XI, p. 190-206); ser um povo que vive uma “mística popular”, isto é, que “acolhe o Evangelho a seu modo e o encarna em expressões de oração, fraternidade, justiça, luta e festa” (Evangelii gaudium 237). Por isso, um dos conceitos norteadores que inspirou Francisco é a inculturação ("a evangelização como inculturação": Evangelii gaudium 122) fundada no princípio da encarnação em analogia àquela do Verbo. Graças ao Espírito, permite que o evangelho se encarne na cultura de quem o recebe, até que se exprima na beleza do rosto pluriforme da Igreja e na sua genuína catolicidade.

 

A imagem do poliedro é a mais adequada para expressar com eficácia o entrelaçamento do que se dá na sociedade multicultural e na "cultura do encontro" desejada por Francisco para a sociedade e para a Igreja. Em última instância, ser povo é algo mais do que coabitar e conviver: significa ser cidadãos responsáveis que se envolvem e aceitam integrar-se a ponto de desenvolver uma cultura do encontro em harmonia pluriforme. A teologia argentina se inspira nessa perspectiva quando fala de "povo". É uma categoria que serve para sublinhar “a história comum, um estilo de vida comum (cultura) e um projeto (‘agir e querer juntos’) para o bem comum”. É também uma forma de falar da Igreja "como sujeito e ator comunitário de história e cultura comuns, de ação e paixões históricas e – quando se trata de povo fiel de Deus - também de evangelização (Evangelii gaudium 111-134)" (p. 191).

 

Os méritos da obra são notáveis: permite conhecer de perto a perspectiva teológico-pastoral do Papa Francisco e compreender melhor a orientação de seu pontificado. Scannone mostra-se competente e bem informado para relembrar importantes eventos e personalidades do mundo eclesial, social e cultural que contribuíram para a história da sociedade e da Igreja argentina na qual o Papa Francisco se formou e com a qual elaborou sua teologia do povo. Particularmente valiosa é a contribuição oferecida no cap. VII (A agenda inacabada do Vaticano) em que explica o chamado "roteiro" indicado por Francisco na Evangelii gaudium, já traduzido na teologia argentina do povo, que consiste na mudança de paradigma e de método teológico ocorrida na Gaudium et spes (cf. cap. VIII: Evangelii gaudium e a teologia do povo). Algumas repetições de conteúdos e o uso não espicificado de siglas em nada diminuem o valor teológico da publicação.

 

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