A Covid-19 e a grande transição dos países emergentes

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22 Outubro 2020

“Por trás dos balanços econômicos e sanitários mais cinzentos do que pretos, o paradoxo é que a crise da Covid-19 não submergiu (ainda?) o mundo emergente, mas acelerou sua transição. Os sinais que foram surgindo gradativamente após a crise global de 2008 parecem se cristalizar em torno de duas palavras-chave: globalização moderada, no sentido do economista Dani Rodrik, e relocalização do tecido produtivo”. A reflexão é de Jean-Joseph Boillot, especialista em grandes economias emergentes, em artigo publicado por Alternatives Économiques, 21-10-2020. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Nós nos lembramos do mundo de antes, marcado pela ascensão dos países chamados emergentes. Seu peso na economia internacional ultrapassou o limiar da metade do Produto Interno Bruto (PIB) mundial durante a crise de 2008. Nada parecia ser capaz de parar a mudança Norte-Sul tão esperada pelos países em desenvolvimento mais de 50 anos após a cúpula de Bandung. Um vento de otimismo soprava sobre suas populações em torno de um sentimento de renascimento, até mesmo de vingança, cujo lançamento dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul) havia marcado o cenário internacional em 2010.


O choque de 2020 é duro. Todos os indicadores sanitários e econômicos estão no vermelho e dão a impressão de que o mundo emergente está implodindo em pleno voo. Mas não é tão simples. Como em todos os lugares, a pandemia é um acelerador de tendência. Por trás dos balanços econômicos e sanitários mais cinzentos do que pretos, o paradoxo é que a crise da Covid-19 não submergiu (ainda?) o mundo emergente, mas acelerou sua transição. Os sinais que foram surgindo gradativamente após a crise global de 2008 parecem se cristalizar em torno de duas palavras-chave: globalização moderada, no sentido do economista Dani Rodrik, e relocalização do tecido produtivo.

No campo da saúde, talvez nos recordemos das previsões catastróficas, primeiro, para a China, depois para a Índia, em seguida para a África e, finalmente, para a América Latina. Embora a pandemia esteja longe de terminar e possa se prolongar para além de 2021, as realidades tendem a provar que as Cassandras estavam erradas, sem minimizar os custos humanos às vezes terríveis que ela provocou.

Com exceção da América do Sul, que é, na verdade, emergente há dois séculos, o mundo em desenvolvimento tem as taxas de mortalidade mais baixas do mundo, bem abaixo das taxas dos países ricos. Mesmo subestimados, são da ordem de 3 mortes por milhão de habitantes na China, 30 na África, 73 na Índia, ante mais de 600 na América do Sul, como no Norte e no Oeste da Europa. Essas médias mascaram concentrações geográficas extremas, como entre a África do Sul, que está perto de 300, contra 10 em Gana ou 6 no Sahel.

Além da sazonalidade ligada à geografia, três séries de fatores parecem ter desempenhado um papel: genético, demográfico e estratégico.

Três elementos singulares

Genéticos, primeiro, com um grande número de especialistas que destacam fatores intrigantes de resistência inata das populações chinesas, indianas ou africanas, cada vez com fatores singulares, como pela exposição repetida a ataques pulmonares na Índia ou à malária na África.

Demográficos, em seguida, com uma idade média muito mais jovem do que nos países europeus e uma proporção de pessoas com mais de 65 anos variando de 1 a 7, por exemplo, entre a África e a Europa. Mas a correlação está longe de ser estrita no interior dos países emergentes. A China, por exemplo, está mais próxima da América do Sul gravemente afetada, do que da Índia.

Finalmente, estratégicos no sentido das respostas públicas à pandemia. A diversidade aqui claramente prevaleceu sobre a unidade: autoritarismo político levado ao seu paroxismo na China, gestão caótica na Índia, mais orgânica, apoiando-se sobre os recursos das sociedades civis, na África, e finalmente antagônico, no confronto político na América do Sul. É essa diversidade que provavelmente desempenhará um papel importante nas trajetórias econômicas futuras. A América Latina, por fim, aparece ao mesmo tempo como a área mais afetada e sem perspectiva de recuperação no curto prazo. Ela, provavelmente, está em linha com seu trend de longo prazo marcado pela dificuldade de cruzar o limiar do semidesenvolvimento.

Impacto econômico diferenciado

No plano econômico, o balanço geral dos países emergentes parece ainda menos catastrófico do que o anunciado: o mundo rico terá perdido em média 10 pontos de crescimento contra 6 para o mundo em desenvolvimento, cujo peso deve ultrapassar a marca de 60% do PIB global. Além disso, as expectativas de recuperação em “V” (1) parecem mais frequentes, como na última pesquisa global com líderes empresariais realizada pela empresa McKinsey. Mas, nos países emergentes, o contraste volta a dominar com uma combinação de fatores ligados à capacidade de reação à demanda ou à oferta local e às políticas fiscais implementadas.

A China está fazendo de tudo para conter o vírus o mais rápido possível e reativar a máquina de produção e de consumo. Sua demanda interna e externa está crescendo rapidamente com um toque incrível de agilidade nos setores ligados à crise (farmacêutico e eletrônico). Um forte impulso orçamentário completa o esquema, graças à rápida retomadas das grandes obras, incluindo a Rota da Seda. No entanto, o choque é duro no tocante ao emprego interno e confirma-se a transição para um regime de crescimento lento.

Na Índia, o regime nacionalista decretou, no final de março, um confinamento surpresa sem acompanhá-lo em termos sanitários, nem econômicos e menos ainda sociais. O choque é tão sério que o colapso da atividade é um dos mais marcantes do mundo (- 24% no segundo trimestre) e que a pobreza extrema aumenta repentinamente para quase 40% da população.

A resistência orgânica da Índia – aqui próxima da África – parece, porém, explicar uma surpreendente resiliência tanto no plano sanitário – com uma taxa de imunização coletiva que ultrapassa a metade da população –, como econômico. O crescimento da agricultura (3,4%) e de todas as atividades relacionadas é um bom indicativo disso. Os dados econômicos mais recentes mostram uma recuperação marcada em “V”, embora isso aconteça ao custo de um número crescente de casos de Covid. Mas essa é a compensação entre o risco sanitário e o risco econômico.

A África também surpreendeu muito pela sua resiliência econômica, já que a contração da atividade pode ficar em torno de 3% ao ano. O continente é de fato conhecido por sua dependência de matérias-primas, cujo último relatório da sociedade de estudos Cyclope mostrou a queda abrupta dos preços e da demanda ligada à quebra das cadeias globais de valor agregado. Portanto, não havia muito espaço para políticas fiscais ativas. Especialmente porque o pseudo-reescalonamento da dívida não trouxe muito oxigênio para os numerosos países agora superendividados. E inclusive em relação à China, muito cuidado nesse ponto.

Então, de onde veio a pequena contração geral, ao passo que a mobilidade caiu no contexto de um autoconfinamento mais prudente do que imposto? Certamente da importância da economia informal e das dinâmicas econômicas locais cada vez mais ativas e mal captadas pelas estatísticas oficiais.

Para onde pode ir a nova globalização dos países emergentes?

Pode ser que a gestão do impacto de curto prazo da crise acentue uma tendência antes perceptível no mundo emergente: uma certa reorientação para a oferta doméstica e o seu mercado interno, e isto até o local como tem sido experimentado com sucesso pelas populações durante a pandemia.

Obviamente, esta não é a visão de Pequim que gostaria de jogar a carta de uma nova globalização “sob seu teto” (Tianxia, em chinês) por ocasião da mudança da Pax Americana. Exceto na América Latina, onde a China aumentou claramente sua presença graças à crise, a resistência objetiva e subjetiva de outros países emergentes pode frustrar essa veleidade, mesmo que as apostas estejam longe do fim.

Na Índia, a epidemia passou para segundo plano durante várias semanas, enquanto as tensões com a China nas fronteiras do Himalaia deflagraram o primeiro movimento de massa anti-chinês. Neste país de 1,3 bilhão de consumidores sob os olhos de grupos chineses, e onde o Império do Meio havia se tornado o principal parceiro comercial, os produtos e serviços made in China foram queimados ou destruídos publicamente.

A ruptura agora está clara, mesmo se a Índia não quiser sair dos Brics ou romper repentinamente com Pequim. Mas, muito além da China, é toda a dinâmica de desenvolvimento da Índia que está realmente escorregando para uma globalização mais moderada e local. Um bom exemplo é o anúncio, no final de setembro, do lançamento do projeto de trem regional rápido Deli-Meerut no modelo do metrô projetado pelo próprio NCRTC (National Capital Region Transport Corporation) indiano como contratante principal e material circulante da Bombardier, mas totalmente made in Índia. O outro exemplo é a aceleração da implementação da agricultura natural de proximidade (discutida no ano passado nesta coluna), que tornou possível resistir ao choque nas áreas rurais.

Na África, o que está acontecendo no Senegal é sintomático de um declínio provocado pela pandemia. O plano de recuperação PAP2 anunciado no final de setembro pelo presidente Macky Sall inclui uma componente estrutural significativa. Para além da autonomia pretendida a curto prazo nos hidrocarbonetos, o plano coloca a soberania alimentar, farmacêutica e sanitária como a principal prioridade, mas também visando a industrialização, a tecnologia digital, o turismo e a habitação, bem como as grandes infraestruturas nacionais.

Resta saber se o plano terá um efeito duradouro: o país prometeu ao FMI voltar à ortodoxia fiscal a partir de 2022 para reafirmar a capacidade de quitar a dívida. A prioridade concedida à agricultura tem relação com o aumento de metade dos financiamentos para a safra atual. O fracasso do projeto de uma nova moeda para substituir o franco CFA é também indicativo de um desejo claro de se libertar da tutela do Norte e trabalhar para uma integração mais regional.

Mudanças profundas a serem observadas!

Nota.

1. Quando a recuperação da economia é da mesma magnitude que a queda.

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