Bispos alemães protestam em massa contra a “absurda” instrução vaticana sobre reforma paroquial

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25 Julho 2020

Os bispos alemães estão protestando em massa contra a “absurda” e “teologicamente deficiente” instrução vaticana sobre a reforma paroquial.

A reportagem é de Cameron Doody, publicada por Novena News, 24-07-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Bispo de Mainz: “Não posso aceitar a interferência no meu ministério”

“Não posso aceitar tão facilmente uma interferência na minha pastoral episcopal”, lamentou-se Dom Peter Kohlgraf, bispo de Mainz, em uma declaração no dia 22 de julho, após a publicação do novo texto preparado pela Congregação para o Clero, intitulado "A conversão pastoral da comunidade paroquial a serviço da missão evangelizadora da Igreja".

Kohlgraf explicou que suas principais objeções à nova instrução do Vaticano eram aos efeitos que as suas indicações provavelmente terão sobre padres e leigos.

“Eu cuido dos padres da minha diocese”, afirmou o bispo de Mainz, acrescentando que a sua diocese, assim como muitas em todo o mundo, está lutando para estar à altura do ideal – repetido na instrução vaticana – de ter um padre para cada paróquia.

“Muitos padres reclamam de estarem sobrecarregados com a administração e a burocracia. De acordo com a instrução, no entanto, é exatamente isso que os padres devem fazer”, denunciou Kohlgraf.

O bispo de Mainz disse que também está preocupado com os efeitos da instrução vaticana sobre os leigos ainda comprometidos com a vida paroquial: um ministério que a instrução considera com uma certa cautela.

“Logo será a gota d’água para eles, caso o seu compromisso seja apenas visto com desconfiança e julgado a partir de cima”, alertou o bispo de Mainz com relação a esses voluntários e empregados leigos.

“Eu preciso dessas pessoas; a sociedade precisa do seu testemunho de fé. Tenho ouvido cada vez mais que não há mais motivação para ingressar em uma Igreja que se mostra dessa maneira. Eu não posso e não deixarei que o compromisso pastoral dessas pessoas seja tirado de mim”, alertou Kohlgraf.

Assim como várias outras dioceses alemãs, a de Mainz está atualmente em um processo de redução e reestruturação de suas paróquias. Algumas, pelo menos, deveriam ser lideradas conjuntamente por leigos, mas Kohlgraf alertou que os planos da Igreja de fundir paróquias e colocar homens e mulheres não ordenados no comando delas provavelmente entram em colisão com a nova instrução do Vaticano.

Mesmo assim, o bispo de Mainz manteve firme as suas convicções e argumentou que “as novas paróquias têm mais probabilidade de fazer justiça à diversidade da vida contemporânea da Igreja do que as pequenas paróquias nas estruturas existentes”.

Ele acrescentou que lhe parecia “absurdo” que, após a instrução, toda fusão paroquial provavelmente tenha que ser aprovada individualmente por Roma.

- Arcebispo de Bamberg: “Melhor seria não ter publicado” uma instrução que “faz mais mal do que bem”

Outro bispo alemão que foi rápido em criticar a nova instrução do Vaticano foi o arcebispo de Bamberg, Ludwig Schick, que, em uma declaração no dia 23 de julho, afirmou que “não está claro em lugar algum por que a Congregação para o Clero emitiu essa instrução: nem a oportunidade nem o propósito são explicitamente mencionados. Essa é uma grande falha. Abre espaço para todos os tipos de especulações que causam danos”.

Deplorando o fato de que o documento do Vaticano não faz nada mais do que “nos lembrar vaga e imprecisamente do significado e do propósito da paróquia e, acima de tudo, do mandato de liderança dos padres”, Schick criticou o texto como “teologicamente deficiente”, pois “o sentido eclesial do ministério dos padres” – em oposição ao seu sentido sacramental – absolutamente “não tem lugar” no documento.

Além disso, para o arcebispo de Bamberg, a instrução do Vaticano ignora a “autonomia e a responsabilidade individuais” que as Igrejas locais desfrutam com relação à Igreja universal, pelo menos desde o Concílio Vaticano II (1962-1965).

Por todos esses motivos, segundo Schick, “teria sido melhor não publicar essa instrução dessa maneira, porque ela causa mais mal do que bem para a comunhão da Igreja e o seu mandato missionário”.

- Bispo de Rottenburg-Stuttgart: liderança leiga é “uma grande vantagem para a Igreja local”

Junto com os bispos Kohlgraf e Schick, um terceiro bispo alemão que criticou o novo documento vaticano foi o bispo de Rottenburg-Stuttgart, Gebhard Fürst, que disse em um comunicado também publicado na quinta-feira que ainda não vê nenhuma alternativa à corresponsabilidade laical-clerical para as paróquias, que é descartada pelo Vaticano, mas já é praticada na sua diocese.

“O modelo de Rottenburg não está em negociação”, insistiu Fürst, referindo-se ao modelo diocesano de “forte participação dos leigos em todos os nossos órgão, até o Conselho Diocesano”, que, na opinião do bispo, além de ser “uma grande vantagem para a Igreja local” e “uma clara consequência do Concílio Vaticano II”, também “tem se provado muito bom” após 50 anos de sua implementação na diocese.

Além disso, Fürst reafirmou sua confiança no processo de reforma do Caminho Sinodal da Igreja alemã, que, entre outras questões, está buscando possíveis mudanças na doutrina e na prática católicas em torno de questões que o documento do Vaticano também abordou – a saber, o poder e a autoridade na Igreja, e o estilo de vida sacerdotal.

- Cardeal Woelki, de Colônia, vai na contramão, elogia o texto por “nos lembrar as verdades fundamentais da nossa fé”

Ao contrário dos bispos Kohlgraf, Schick e Fürst – junto com o bispo de Osnabrück, Franz-Josef Bode, que também criticou o documento vaticano –, o arcebispo de Colônia, cardeal Rainer Maria Woelki, acolheu a instrução e agradeceu ao Papa Francisco por assinar um texto que contém “muitas sugestões para um despertar missionário da Igreja”.

Em sua declaração no dia 22 de julho, Woelki rompeu com seus irmãos bispos alemães, ao dizer que a instrução “nos lembra as verdades fundamentais da nossa fé, que, especialmente na Alemanha, às vezes podemos perder de vista quando estamos preocupados demais com nós mesmos”.

Woelki continuou insistindo que “não somos nós que ‘fazemos’ a Igreja, e também não se trata da ‘nossa’ Igreja, mas sim da Igreja de Jesus Cristo. O próprio Senhor a fundou e, junto com ela, os sacramentos e o sacerdócio ministerial”.

“O Papa Francisco coloca as coisas em seu devido lugar aqui, mas não como uma reprimenda ou uma medida disciplinar, mas sim como um incentivo para confiar inteiramente em Cristo para se tornar uma Igreja missionária novamente”, concluiu o cardeal.

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