O fim do clericalismo. Artigo de Phyllis Zagano

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23 Abril 2020

Enquanto a raça humana junta-se ao restante do planeta em uma luta por sobrevivência, a Igreja tenta também encontrar o seu caminho. Por quê? Clericalismo.

Por muito tempo – digamos, de oitocentos a 1 mil anos –, a vida sacramental da Igreja esteve sob o controle sacerdotal. Por volta do século X, surgiu o costume dos emolumentos para as missas. De repente, o valor espiritual das orações dos homens superou o valor espiritual das orações das mulheres, e as abadias e os mosteiros femininos falharam um após o outro.

O comentário é da teóloga estadunidense Phyllis Zagano, pesquisadora associada da Universidade Hofstra, em Hempstead, Nova York. Entre seus livros, destaca-se Mulheres diáconas: Passado, presente, futuro (Paulinas, 2019), em artigo publicado por National Catholic Reporter, 21-04-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Coincidentemente, o cursus honorum (“o curso de honra”) encerrou o diaconato como uma vocação permanente. A menos que visasse ao sacerdócio, a pessoa não poderia se ordenar diácono. Muito poucos viraram diáconos permanentes, e as diáconas – mesmo as abadessas – não foram mais ordenadas.

O que nos leva de volta ao clericalismo, aquela atitude segundo a qual a graça é dispensada ao Povo de Deus apenas por um clérigo, de preferência um padre. Milhares de padres não pensam assim. Mas milhares pensam.

O Papa Francisco acenou para este problema em uma recente homilia. As celebrações eucarísticas na televisão e no rádio, disse ele, criam uma “familiaridade gnóstica”, mas não uma comunidade. As celebrações virtuais fornecem alimento espiritual, mas não são “igreja”. Como Francisco disse, igreja significa unir-se para compartilhar o pão.

O problema mais profundo das eucaristias eletrônicas é que elas reduzem a oração ao desempenho sacerdotal. Qual a diferença entre hoje e a década de 1950, quando o padre, de costas para a congregação, murmurava, sem parar, em latim na “sua missa”?

O que significa participação na missa? Algumas pessoas decidiram trazer o seu próprio pão e vinho à sala de TV, com alguns chegando a realizar liturgias do tipo “faça você mesmo”, sem um padre transmitindo a celebração, como vem sendo feito. Estas práticas pretendem fazer o que a Igreja faz? Criam a comunhão católica?

Há também os demais sacramentos. As confissões do tipo “drive-by” ou drive-thru constituem uma inovação interessante, mas a unção sacramental dos milhares de pacientes moribundos da Covid-19 é praticamente impossível. Casamentos podem ser contraídos sem um padre, mas longe das chancelarias deixar esse cânone fora dos livros de registro.

Vejamos mais de perto, um a um.

Confissão. Recentemente, o papa apontou que a reconciliação pode ser adiada até que uma forma acertada seja possível. Apesar da documentação histórica de se confessar aos leigos (principalmente nos campos de batalha), às abadessas e abadessas-diáconas (dentro de seus territórios) e aos diáconos, os cânones do Concílio de Trento, do século XVI, reservaram a reconciliação sacramental somente aos padres, dadas as faculdades jurídicas de seus bispos, e isso não mudou.

Unção. O sacramento dos enfermos, certa vez administrado ocasionalmente por leigos e muitas vezes por diáconas (para outras mulheres), agora restringe-se aos padres. A confissão ocorre (se solicitada) antes da unção, mas somente um padre, às vezes usando um “instrumento” para aplicar os óleos, pode ungir. Por que a Cânone 1000.2 não pode incluir uma enfermeira ou um médico como um “instrumento”? O bispo de Springfield, Massachusetts, achou que sim, mas a Cúria rapidamente o fez voltar atrás.

Matrimônio. O Cânone 1116 estipula que, se um ministro (leia-se: clérigo) não estiver disponível no futuro próximo, então duas testemunhas e o consentimento do casal estabelecem um casamento válido. Os bispos nos territórios de missão geralmente concedem, a ministros leigos, as faculdades para se testemunhar o matrimônio e batizar solenemente (lembremos: 60% das paróquias da Amazônia são administradas por mulheres), mas o seu processo legal pode ser complicado. Será que a pandemia lembrará à Igreja que os cônjuges administram esse sacramento um ao outro?

Portanto, onde está a “Igreja” nisso tudo?

Claramente, estamos todos juntos aqui e ansiamos por graça. Precisamos da comunidade, precisamos das bênçãos, precisamos de caridade.

A comunidade é onde encontramos essas coisas. Não é mais o peixe frito de sexta-feira, é a tarde de quinta-feira com os amigos da faculdade. É pessoal na fila do supermercado. São os coletores de lixo buzinando e acenando.

As bênçãos são extraeclesiais. Elas vêm dos guardas das nossas instituições de ensino, hoje ajudando o trânsito nos locais dos exames, dizendo: “Deus te abençoe, boa sorte”. As bênçãos vêm quando o proprietário perdoa o aluguel de um mês, quando o dono do mercado coloca um doce extra entre as compras, com o custo pago pelo seu estabelecimento.

E a caridade está ao nosso redor. Sim, aprendemos sobre ela na televisão e no Facebook, mas quem não admira a enfermeira que viaja centenas de quilômetros apenas para dar uma pausa para uma outra enfermeira descansar? E o dono do restaurante que prepara lanches para os desabrigados? Tentemos contar os sopões comunitários e os bancos de alimentos que existem, porque é o dever do cristão, do judeu ou do muçulmano fazer.

O papa está certo. As liturgias eletrônicas não nos aproximam espiritualmente. A comunidade, disse ele, é um sacramento. É a comunidade que traz intimidade com Cristo, que traz intimidade com o santo e fiel Povo de Deus. É a comunidade o que precisamos.

Por mais difícil que seja, ainda penso que estamos chegando lá.

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