Abençoar e não abençoar: arcebispo Welby em diálogo

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20 Fevereiro 2018

Justin Welby reflete sobre seus cinco anos como Arcebispo de Canterbury, em conversa com Paul Handley. A entrevista é publicada por Church Times, 16-02-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Eis a entrevista.

Já caiu a ficha? O senhor se sente arcebispo de Canterbury?

Eu muitas vezes me pergunto isso. Acho que não. Não tenho ideia de como é ser arcebispo de Canterbury, sinceramente [rindo um pouco]. Sim, há momentos em que cai a ficha; e também há momentos em que você pensa: "Não, devem estar falando de outra pessoa". A síndrome do impostor é uma companheira bastante constante, eu acho.

E há momentos em que pensa: "Seria melhor que não fosse"?

Seria mentira se eu dissesse: "Não, jamais”. Mas são panes. O tom subjacente, o tema subjacente, é um grande senso de gratidão e privilégio de estar neste papel. Sim, há momentos, mas eles duram poucos minutos.

É possível dizer qual é a coisa mais difícil de ser arcebispo?

Proteção. Isso é a coisa mais difícil de tratar em quase todos os aspectos. É o mais difícil porque você está lidando com o pecado da Igreja. Está lidando com a profunda fraqueza humana. Está lidando com consequências em pessoas machucadas, em pessoas que foram muito, muitíssimo feridas.

E é de partir o coração. Você não consegue ler a coluna de Gibb, Cahill, Elliott, Chichester Visitation ou até mesmo Carlile, que estava considerando a situação de um ângulo ligeiramente diferente — você não consegue ler sem partir o coração. E acredito que é trágico demais.

Acho que procuramos abordar o assunto, tanto de forma mecanicista como também espiritualmente, em oração, em atitude e cultura. Procuramos abordá-lo de todas as maneiras que pudemos. Mas é o mais difícil.

E o senhor acha que está conseguindo abordá-lo corretamente?

O tempo dirá. Acho que a Igreja hoje tem uma atitude drasticamente diferente de 25, 30, 40 anos atrás. Temos a Medida que saiu sobre proteção; temos um comprometimento de recursos muito maior. Acho que cinco anos atrás tínhamos meia pessoa em nível nacional; agora temos uma equipe grande.

Então, os recursos entraram, mas, muito mais importante que isso, a atitude mudou. Ao ponto de ninguém, eu espero e acredito, pensar que seria adequado deslocar alguém para outra paróquia, esse tipo de barbárie que costumava acontecer no passado. Todo mundo é treinado. Passo por treinamento e formação, e repete-se o treinamento, sobre quando é revelado, como lidar com a revelação. Aparece em todas as reuniões de altos funcionários em todo o país. As pessoas estão constantemente focadas nisso para que seja denunciado caso algo aconteça — e não denunciar é muito, muito sério mesmo.

Claro, há pessoas que estão dizendo que foi longe demais...

Realmente.

... em que a situação agora é que qualquer um que seja acusado de um lapso de proteção de qualquer tipo terá problemas. Como o senhor resolve essas duas preocupações?

Acho que ainda não resolvemos. Li o relatório Carlile, muito, muito cuidadosamente, e aceitei suas recomendações — todas, exceto metade de uma recomendação. Acho que ele aponta alguns pontos muito fracos da investigação inicial de George Bell, que, em certo sentido, exemplificam a sua questão. Temos que ter um sistema que promova a justiça. O sistema deve trazer justiça àqueles que já foram abusados, às vítimas, e também deve trazer justiça aos que são acusados. Não podemos ter algo que faça vista grossa aos problemas de proteção e aos abusos, em suas muitas e variadas formas, ou, por outro lado, seja injusto no tratamento dos que foram acusados.

Em certo sentido, essa é a meia-cláusula do relatório Carlile, a controvérsia sobre o anonimato de quem é acusado. Então, como se resolve isso?

Com grande dificuldade. Vamos pensar por outro ponto de vista: considerando uma situação hipotética em que a diocese de Chichester não houvesse declarado seu pagamento há dois anos. Com a Investigação Independente — que é algo que eu pedi, para ter uma investigação independente, e apoiei pessoal e publicamente —, com seu rigor, essa ação confidencial teria certamente se tornado pública.

A primeira pergunta, ao mostrar evidências, teria sido: "O que mais está escondendo? O que você realmente sabe sobre George Bell que não está nos contanto, porque está tão nervoso para manter em segredo?" Todos saem perdendo.

E eu entendo perfeitamente a dificuldade e não acho que seja fácil de lidar, mas é muito... Temos que tratar tanto do bispo Bell como sua reputação, temos que considerar isso muito precioso e valioso.

Mas a pessoa que denunciou não é um inconveniente para ser menosprezado: é um ser humano de imenso valor e dignidade, que deve ser tratado com a mesma importância... E é muito difícil lidar com esse círculo.

Como um exemplo de uma falha da Igreja que chega na sua mesa, pela qual o senhor, como arcebispo, é responsabilizado, não apenas o que aconteceu no período em que liderava a diocese, mas também o que aconteceu antes, como, de alguma maneira...

Bem antes de eu ter nascido, em alguns casos.

Como o senhor lida com esse tipo de responsabilidade?

É a natureza das coisas. Uma das coisas estranhas sobre esta função, como em muitas funções na Igreja, é que muitas vezes você é responsabilizado sem ter qualquer poder de mudar alguma coisa. Não é poder sem responsabilidade: é responsabilidade sem poder. E isso se aplica a todos os tipos de áreas. As pessoas dizem: “Por que não faz x?" Na verdade, eu me lembro de Rowan (ex-primaz da Igreja da Inglaterra) em uma entrevista dizendo algo muito semelhante.

E a resposta é, por mais estranho que pareça, que não temos um sistema papal; não se pode dar ordens assim. A Igreja da Inglaterra — e ainda mais a Igreja Anglicana, por algumas ordens de grandeza mais — movimenta-se por meio do consenso, da colaboração, o que historicamente tem sido considerado um processo de recepção, de crescimento para se tornar algo e, em seguida, olhar para trás e dizer: "Sim, nisso vemos o trabalho do Espírito de Deus nos transformando e nos conduzindo."

Então que poder o senhor tem?

Não sei se poder é a palavra certa. Tem-se capacidade... O arcebispo e o clero e os líderes leigos, em todos os pontos na Igreja, têm a capacidade de abençoar e não abençoar algo — por exemplo: "Sim, eu apoio", ou não apoio. Isso pode fazer uma diferença significativa.

Temos certos poderes legais, mas que são relativamente restritos. Como se sabe, os arcebispos, em cada província, não contratam ou demitem bispos; e todo mundo se surpreende muito com isso.

Às vezes, quando você faz uma nomeação que as pessoas gostam, é muito bom receber cartas dizendo: "Parabéns por nomear fulano”. E pensa, que legal, mas não fui eu. E recebe outra, dizendo — geralmente, da mesma pessoa: "Por que o senhor nomeou assim e assim?" E você pensa, na verdade não fui eu.

O grande erro nesta função, que eu já tinha meio que entendido antes de chegar aqui, mas que foi amplamente confirmado, é: não perca tempo procurando pauzinhos para mexer, porque eles não existem. É um processo de persuasão, de exemplo, de bênção e de não dar a bênção a certas coisas.

Então, se receber uma carta ou um e-mail dizendo: 'por favor, faça algo sobre isso...

Bem, existem certas coisas relativamente restritas que eu possa fazer. Posso falar, defender, tentar persuadir, levantar questões. Quando recebo uma carta que diz: Por que o senhor não investe 1 bilhão de libras em tal e tal coisa?"— supondo que eu telefono para os Comissionados da Igreja e digo: "Agora, invistam 1 bilhão de libras em tal e tal coisa", e eles prestam continência do outro lado do telefone e dizem: "Sim, Arcebispo, vamos fazê-lo imediatamente". Isso, é claro, é uma ilusão.

Se o senhor não tem a capacidade de fazer as coisas mudarem...

Eu não disse isso. Porque ao abençoar, apoiar, defender, é possível mudar as coisas. E eu acho que isso é uma das coisas que leva mais tempo — mas em muitos aspectos é mais gratificante do que uma estrutura altamente hierárquica, onde se dá ordens e todo mundo obedece, se é que isso existe. Deve ser assim que o Church Times funciona: como editor, você diz: "Vão, façam isto", e todos imediatamente saem e vão fazer [rindo]...

Mas o que é gratificante... Por exemplo, vamos analisar algumas coisas. A renovação da oração e da vida religiosa: é uma das principais prioridades para o que fazemos. Comunidade de Santo Anselmo: não podemos dizer para as dioceses: "Formem uma comunidade", ou para outras províncias: "Formem uma comunidade religiosa".

Mas, de alguma forma, pela graça de Deus, isso aconteceu aqui, foi cultivado: desenvolveu-se, criou raízes muito mais profundas, é maravilhoso — e estamos vendo outras comunidades crescendo em outros lugares.

Em relação à reconciliação, de várias diferentes fontes, há a iniciativa do Reconciling Leaders Network, Women on the Frontline.

Ambas as coisas surgiram e estamos apoiando e abençoando-as, e vendo que estão sendo abraçadas por pessoas ao redor do mundo.

O Thy Kingdom Come é algo grande: cresceu muito, chegando a superar por completo até mesmo a Comunhão Anglicana, e ainda mais a Igreja da Inglaterra, e que está sendo abraçado por igrejas do mundo todo.

Em relação a tudo o que aconteceu, eu não diria que é porque eu disse: "isso tem de acontecer", porque não acho que teria tido esse impacto. Mas, sem dúvida, o fato de que o escritório do Arcebispo tenha apoiado abriu algumas portas, e o vento do Espírito Santo chegou até lá. E de alguma forma ficou na imaginação das pessoas e, pela graça de Deus, as coisas aconteceram. Ou seja, é possível fazer as coisas acontecerem; só não se pode dar ordens para fazê-las acontecerem.

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