André não quer sentar-se à mesa com Pedro

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03 Outubro 2016

Pedro e André, os dois irmãos discípulos de Jesus e colunas da Igreja primitiva. Pedro, na Roma ocidental e André na Constantinopla oriental. Os dois juntos ouviram o discurso de despedida de Jesus, antes da última ceia, na qual lhes pediu encarecidamente para que permanecessem unidos: “Pai, que sejam um como Tu e Eu somos um”. E unidos permaneceram durante mais de mil anos.

A reportagem é de José Manuel Vidal,  publicada por Religión Digital, 02-10-2016. A tradução é de André Langer.

Mas, em 1054, produz-se o Grande Cisma, a separação da Igreja oriental, que passou a se chamar ortodoxa, e a Igreja ocidental, que se chamou católica. Com direito a mútuas excomunhões.

Passados 962 anos, a divisão continua viva e muitos ortodoxos se negam a reconhecer o Papa de Roma nem mesmo como um “primus inter pares”. De fato, Francisco-Pedro, que foi visitar Elias II-André na Geórgia, foi recebido com cartazes exibidos por alguns exaltados, que diziam: “Papa arqui-herege, não és bem-vindo na Geórgia ortodoxa”.

A união com a ortodoxia, o pulmão cristão do Oriente, é um dos maiores desejos de Francisco. Desde que chegou ao sólio pontifício prodigalizou todo tipo de chamadas e gestos com os irmãos orientais. E conseguiu uma profunda comunhão afetiva (que não é efetiva) com o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu, ou com o Patriarca da Grécia, assim como magníficas relações com outros patriarcas das diversas Igrejas autocéfalas ortodoxas.

Chegou inclusive a realizar uma reunião conjunta em Cuba com Kirill, o Patriarca da Rússia, um dos mais reticentes a uma aproximação com Roma. Mas, na ortodoxia, segue havendo uma corrente profunda de clérigos e fiéis que considera o Papa de Roma como um herege e um traidor. Um dos bastiões desta corrente está justamente na Geórgia. E tem um grande apoio popular e clerical.

Mas, no clima geral de aproximação a Roma, o ancião e trêmulo Patriarca georgiano, Elias II, estava disposto a mandar uma delegação ortodoxa à missa do Papa católico em Tbilisi. Mas, as pressões e os protestos foram tantos que o máximo líder ortodoxo georgiano teve que suspender a participação dos seus na eucaristia do Papa. Na última hora e sem aviso prévio.

Pedro-Francisco e André-Elias viram-se pessoalmente em várias ocasiões. Francisco desfez-se em palavras de reconhecimento da ortodoxia. Ordenou, inclusive, aos católicos para que “jamais façam proselitismo com os ortodoxos”, porque “são irmãos” e “forçá-los para que se convertam seria um pecado contra o ecumenismo”.

O Papa voltou a repetir, uma vez mais, que “é muito mais o que nos une do que aquilo que nos divide” e se desfez em gestos de carinho para com Elias, a quem segurou pelo braço ao entrar na igreja, louvou os cantos litúrgicos por ele compostos (realmente belos) e teve com ele todo tipo de detalhes.

Mas, Elias segue machucado e respondeu ao Papa com cortesia, mas com frieza. Sem um único abraço, manifestou-lhe sua pessoal “profundíssima estima”, mas recordou-lhe que a sua é “a verdadeira fé”. Bom anfitrião, agradeceu a visita do Papa à sua catedral, sede da túnica sagrada de Cristo, e o acompanhou até a porta para despedi-lo, com seu caminhar vacilante e seu rosto encurvado pela velhice.

Antes, um monge e uma menina interpretaram uma das suas composições musicais, que expressava toda a profunda laceração de um povo e uma Igreja, como a georgiana, que parece sentir-se presa ao ressentimento secular e quase abandonada por Deus.

André ainda não quer sentar-se à mesa e comungar com Pedro. Por mais que este se humilhe e suplique suturar “as divisões dos cristãos havidas ao longo da história, que são lacerações reais infligidas na carne de Cristo”.

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