A hegemonia cultural do agronegócio. Artigo de Raúl Zibechi

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10 Outubro 2026

“Por meio de feiras rurais, telenovelas, música sertaneja e carnaval, entre outros canais, o agronegócio conquistou uma hegemonia cultural para um projeto que promete o contrário do que vem realizando na prática. A aceitação passiva da população revela o enorme poder dos meios de comunicação a seu serviço e a força capilar de uma cultura com a qual a esquerda tem sido incapaz de competir”. A reflexão é de Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por Brecha, 09-10-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Eduarda Campopiano, de 23 anos, foi a deputada estadual mais votada por São Paulo, com quase 2 milhões de votos. Ela concorreu pelo Partido Liberal – legenda bolsonarista e principal força política em nível federal – e definiu-se como “a maior inimiga das feministas”. Campopiano afirma que os feminicídios não existem, agradece a Deus pela colonização portuguesa e assegura que os indígenas são “canibais” que “enterram crianças vivas” (Poder360, 05-10-26).

Eduarda não é, certamente, a única militante de extrema-direita a utilizar esse tipo de discurso, aceito por grande parte dos mais de 50 milhões de brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro no domingo passado [04-10]. Pode-se argumentar sobre o peso das redes sociais, sem esquecer que a grande mídia não apoiou Bolsonaro. Pode-se apontar que a crise do sistema-mundo promove a polarização e que as incertezas aceleram a busca por salvadores da pátria e extremistas. Existem muitos perfis possíveis para explicar a ascensão imparável das ultradireitas, mas é impossível não se deter no peso decisivo do agronegócio.

O Brasil já foi uma potência industrial. Hoje, é uma potência agrícola e pecuária. A indústria não significava apenas emprego e produção; da relação entre operários e empresários (conflituosa ou não) emanava uma cultura do trabalho que se materializava em sindicatos e cooperativas, em clubes esportivos e sociais enraizados nos territórios urbanos. O agronegócio não é apenas soja e carne, mas também cultura e sociabilidade.

O jornalista Raphael Sanz, editor do Correio da Cidadania, acredita que é necessário problematizar a ascensão da extrema-direita. “Se reduzirmos tudo à questão econômica, devemos lembrar que Lula destinou bilhões ao agronegócio com o Plano Safra, razão pela qual esse setor deveria apoiá-lo. Portanto, precisamos abordar a questão política e cultural”, sentencia. “Os velhos chefes latifundiários – ligados aos militares –, os ricos tradicionais e os novos ricos das igrejas evangélicas, do mercado financeiro e do crime organizado vivem uma certa simbiose”. Eles formam um campo de forças que, segundo Sanz, apesar de suas diversidades, criou uma identidade política comum que facilita as alianças eleitorais.

Pouco depois de Lula assumir a presidência pela primeira vez, em 2003, a transnacional Monsanto lançou uma campanha publicitária intitulada Imagine. A peça publicitária mostrava pessoas felizes em uma natureza exuberante, ao som de What a Wonderful World, de Louis Armstrong. O texto, inspirado na balada de John Lennon, é um monumento à infâmia: “Imagine um mundo que preserve a natureza, o ar, os rios, onde a gente possa produzir mais, com menos agrotóxicos, sem desmatar as florestas. Imagine um mundo com mais alimentos, e os alimentos mais nutritivos, e as pessoas com mais saúde. Já pensou?”. Pura hipocrisia tratando-se da Monsanto, mas funcionou.

A dissertação de mestrado em desenvolvimento territorial de Ana Manuela de Jesus Chã, “Agronegócio e indústria cultural: estratégias das empresas para a construção da hegemonia”, mostra a estreita relação entre empresas do agronegócio e o campo cultural. “Temos empresas produtoras de agrotóxicos organizando festivais de música, fabricantes de transgênicos financiando cinema e oficinas culturais para jovens, empresas de celulose e cana patrocinando corais de trabalhadores”.

Os beneficiários do financiamento empresarial costumam ignorar o fato de que o Brasil é “o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, o desmatamento não cessou, e um elevado número de casos de câncer e de problemas ambientais ligados ao uso de transgênicos e agroquímicos”. Ignorar os prejuízos tem sido possível, segundo Chã, graças à legitimidade obtida por um setor que não para de crescer desde o lançamento da Revolução Verde, durante a ditadura militar.

Os resultados eleitorais deste domingo [04-10] confirmam a tese da relação entre o agronegócio e a extrema-direita no Brasil. Somente as culturas de soja ocupam 50 milhões de hectares (o Uruguai caberia aí três vezes), mas seu impacto na política é profundo o suficiente para ter alterado as relações de força no Parlamento. A Frente Parlamentar da Agropecuária, o amplo guarda-chuva da chamada bancada ruralista brasileira, ocupa 345 das 594 cadeiras do Congresso. Seis em cada dez deputados e senadores estão ligados ao agronegócio.

Uma pesquisa do cientista político Marco Antonio Faganello, da Fundação Getúlio Vargas, explica que, em relação ao primeiro turno de 2022, Lula perdeu 3,3 milhões de votos, enquanto Flávio Bolsonaro obteve 5 milhões a mais do que seu pai quatro anos antes. “Onde o agronegócio representa 50% do PIB, Lula perdeu 8% dos votos”, aponta Faganello (Agência Pública, 5-10-26). E sugere a hipótese de uma afinidade ideológica nos municípios pequenos com forte presença do agronegócio.

Da Bossa Nova ao sertanejo

Segundo as estatísticas de consumo publicadas pelo Spotify, dos dez cantores mais ouvidos no Brasil na década de 2010, seis pertencem ao gênero sertanejo. “De origens rudimentares e artistas modestos, [...] tornou-se, em pouco mais de três décadas, uma potência que mobiliza multidões, sem distinção de raça ou condição social ou econômica, movimentando milhões de reais e, sobretudo, influenciando o comportamento dos jovens de sul a norte”, aponta o jornalista Federico Cornali (Anadolu Ajansı, 28-08-20).

Por outro lado, Raphael Sanz afirma que, “ao mesmo tempo em que a Bossa Nova caiu em desuso, associada a uma velha elite decadente, e o funk e o rap são criminalizados, o ‘sertanejo universitário’, criado e financiado pelo agronegócio, se expande em shows milionários por todo o país”. Milhares de feiras agrícolas (agrishows) combinam espetáculos dominados pelo sertanejo com a exposição de maquinário de alta tecnologia, culinária regional e produção agrícola e pecuária. A mais representativa delas, a Agrishow de Ribeirão Preto, fatura 500 milhões de dólares em apenas cinco dias e recebe 200 mil visitantes. Outras feiras superam a marca de meio milhão de participantes.

Cornali avalia que a hegemonia musical do sertanejo traz profundos desdobramentos políticos. “Enquanto artistas de gêneros como funk, hip-hop ou o próprio samba criticam Jair Bolsonaro, vários dos principais artistas sertanejos expressam publicamente seu apoio ao político de extrema-direita”.

Por meio de feiras rurais, telenovelas, música sertaneja e carnaval, entre outros canais, o agronegócio conquistou uma hegemonia cultural para um projeto que promete o contrário do que vem realizando na prática. A aceitação passiva da população revela o enorme poder dos meios de comunicação a seu serviço e a força capilar de uma cultura com a qual a esquerda tem sido incapaz de competir.

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