Novos horizontes dos movimentos na Colômbia. Artigo de Raúl Zibechi

Fonte: Unsplash

Mais Lidos

  • “Jesus de Nazaré era uma pessoa vulnerável e frágil, não um herói, mas sim um fracasso”. Entrevista com Juan José Tamayo, teólogo

    LER MAIS
  • Pesquisa revela risco de apagão de professores na educação básica

    LER MAIS
  • A crise no STF e o impacto nas eleições de 2026. Destaques da Semana no IHUCast

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

19 Setembro 2026

Apesar da derrota eleitoral e do avanço da ultradireita, há processos de reorganização e renovação social em curso nos territórios populares da Colômbia.

O artigo é de Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, publicado por La Jornada, 18-09-2026.

Eis o artigo.

A recente vitória eleitoral da ultradireita, liderada por Abelardo de la Espriella, foi sentida como uma dura derrota pelos movimentos sociais e pelos povos em movimento que, em sua quase totalidade, apoiaram Iván Cepeda, que teria dado continuidade à política de Gustavo Petro, o primeiro presidente progressista da história da Colômbia.

Na semana passada, visitei cinco processos organizativos em Bogotá, quase todos implantados em bairros populares da periferia, e um espaço de educação popular e pensamento crítico, a Universidade da Terra e Memória Orlando Fals Borda (Unitierra). Nas rodas de conversa da Unitierra, das quais participaram membros de meia dúzia de coletivos, a primeira questão que surgiu, e a mais primária, foi o medo diante do discurso militarista e agressivo do novo presidente.

Em particular, as mulheres expressaram receio de sair à noite. Outras vozes demonstraram frustração com o partido Pacto Histórico, que esteve quatro anos no governo, e um destacado líder social negro e sacerdote iorubá mencionou a “traição” dos dirigentes e dos ocupantes de cargos, ao mesmo tempo em que constatou as transformações que o poder produz nas pessoas. “O demônio entra pelo bolso”, sentenciou.

Uma liderança misak do Cauca, que conheci há muitos anos, disse: “Sem a Constituinte de 1991, nós indígenas teríamos avançado mais”. Acima do pessimismo e das incertezas, todos os participantes afirmaram que continuarão resistindo. A segunda questão foi constatar a vontade coletiva de aprofundar os debates que permitam fortalecer a resistência à ultradireita, cujo primeiro passo deveria ser “impor limites ao poder”.

No município vizinho de Soacha, habitado por quase um milhão de pessoas dos setores populares, encontrei um clima de resistência entre os jovens e as Mães dos Falsos Positivos. Elas lutam há duas décadas para encontrar seus filhos desaparecidos pelo Exército, que os recrutava para apresentá-los como guerrilheiros mortos em combate, permitindo que os comandantes obtivessem benefícios pessoais. Nesse lugar, concluímos que “é desde baixo e desde as margens que as coisas podem ser vistas com maior clareza”.

Coletivos culturais e de comunicação de Kennedy (1,2 milhão de habitantes) e da vizinha Bosa também mencionaram problemas de segurança e a crise dos movimentos sociais. Concluíram que, após quatro anos de governo progressista, os movimentos estão enfraquecidos e demonstraram preocupação com a autonomia, algo que poucas vezes ouvi nas cidades colombianas.

Em Usme, no extremo sudeste, uma localidade encravada nas montanhas a quase 3.000 metros, dezenas de jovens, mulheres e homens, insistiram na necessidade de “construir poder territorial”, citaram a crise das lideranças e a formação de um “novo sujeito popular”. Talvez seu otimismo e sua projeção para o futuro se devam ao fato de trabalharem com mais de 200 jovens do bairro, em 17 oficinas, majoritariamente artísticas e culturais.

A primeira questão a destacar é que encontrei um ambiente mais reflexivo e autocrítico do que em outras ocasiões, certamente em razão da derrota eleitoral, mas também pelo descrédito das vanguardas, que na Colômbia sempre foram centrais devido à longa guerra interna, que ainda mantém seu curso devastador. Entre muitos outros problemas, as guerras congelam o pensamento crítico e paralisam as práticas emancipatórias e criativas.

A segunda questão não é novidade e consiste no extraordinário papel das mulheres jovens, que são maioria entre os participantes dos movimentos e que, por meio do cuidado, constituem a espinha dorsal das organizações. Há também uma grande proporção de homens jovens que possuem outra cultura política, menos patriarcal e machista, mais aberta às diversidades de todos os tipos.

A terceira questão é o importante papel da criatividade artística: da comunicação comunitária às músicas praticadas pelos de baixo, como o hip-hop, a zumba e os instrumentos andinos, como os sikus; além da pintura, da narrativa e do violão, mas também do futebol popular e do teatro. Observei um amplo trabalho com meninas e meninos, do reforço escolar às sessões de cinema nos mercados.

A quarta questão é que, pela primeira vez em mais de três décadas, constato simpatia pelas autonomias e pelo zapatismo. Isso é evidente entre aqueles que frequentam a Unitierra-Bogotá e latente, à flor da pele, nos bairros populares das periferias urbanas. Até agora, eu só havia conseguido perceber ambas as tendências entre os povos originários do Cauca.

Ouvi também críticas àqueles de nós que defendemos as autonomias, mas, ao mesmo tempo, encontrei abertura para escutar e debater. A impressão que tive é que novas possibilidades estão nascendo na Colômbia.

Certamente, o fim da guerra revolucionária, apesar das violências ainda em curso, favorece mudanças nas mentalidades. Sem dúvida, as revoltas de 2019 e 2021 alimentaram essa tendência, assim como o feminismo popular e o anticolonialismo.

Leia mais