09 Outubro 2026
Um novo relatório revela uma exploração trabalhista generalizada entre os trabalhadores do sistema alimentar e alerta que alimentar o mundo tem como preço a dignidade humana.
A reportagem é de Busani Bafana, publicada por IPS, 06-10-2026. A tradução é do Cepat.
Mais de 1,4 bilhão de pessoas trabalham na indústria de alimentos – o maior empregador do mundo – e são as mais maltratadas, segundo o relatório “O trabalho que alimenta. A exploração das pessoas que trazem a comida à nossa mesa”, publicado na segunda-feira (05-10) pelo Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares Sustentáveis (IPES-Food).
O sistema alimentar mundial é o que explora mais trabalhadores do que qualquer outro setor econômico, e o relatório aponta que essa exploração não é acidental, mas está arraigada em um modelo de negócios que mantém a mão de obra barata ao mesmo tempo em que maximiza os lucros.
Em um setor que emprega 1,4 bilhão de pessoas, concentra-se 30% das mortes relacionadas ao trabalho no mundo; 30% desses trabalhadores – 416 milhões – não conseguem suprir suas necessidades básicas com sua remuneração, e 2,1 milhões estão submetidos a trabalho forçado na agricultura e no setor de alimentos.
E, agravando essas calamidades, aponta o relatório, somam-se agora os impactos das mudanças climáticas, que geram novas mortes e condições precárias decorrentes do estresse térmico para os trabalhadores do campo em todo o mundo, tanto no Sul Global quanto no Norte.
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Abusos por toda parte
“Frequentemente invisíveis, os trabalhadores do setor alimentício enfrentam baixos salários, roubo de salários, trabalho forçado, tráfico de pessoas, discriminação, violência sexual, condições de trabalho perigosas e exclusão das redes de proteção social”, aponta o relatório aprofundado sobre o trabalho na alimentação, do campo à mesa.
“Os abusos trabalhistas permeiam todos os elos da cadeia de produção de alimentos, desde as pessoas que trabalham no setor agrícola e na pesca, às pessoas que trabalham nos frigoríficos, os(as) entregadores(as); das pessoas que trabalham em restaurantes e supermercados às pessoas que fazem serviços domésticos”, acrescenta o painel internacional de especialistas independentes sem fins lucrativos que impulsiona a transição para sistemas alimentares sustentáveis.
O relatório destaca que os migrantes, as mulheres, os refugiados e os trabalhadores racializados são relegados às piores condições, nas quais levantar a voz acarreta o risco de perder o emprego, ser deportado ou acabar em uma lista de restrições.
O copresidente do IPES-Food, Olivier de Schutter, apontou que o aspecto mais surpreendente das conclusões do relatório era a profunda hipocrisia dos governos em relação aos trabalhadores agrícolas migrantes.
Como muitos países dependem fortemente da mão de obra migrante, especialmente para a produção de frutas e hortaliças – como se pôde observar durante a pandemia da Covid –, os governos costumam conceder aos trabalhadores migrantes autorizações de permanência temporária e de caráter sazonal.
“Esses trabalhadores são frequentemente submetidos a formas de exploração e abuso que seriam inimagináveis se fossem trabalhadores locais: são alojados em condições precárias, recebem salários de miséria e muitas vezes trabalham em condições perigosas”, afirmou De Schutter, ex-relator especial das Nações Unidas sobre o direito à alimentação.
De Schutter argumentou que, por serem considerados trabalhadores não qualificados, eles são tratados como trabalhadores de segunda classe e, como não possuem vínculos – ou têm vínculos mínimos – com as comunidades dos países que os acolhem, raramente reclamam em caso de abusos.
Essa prática é uma forma de tráfico de seres humanos, com a diferença de que é legal e oficialmente incentivada, disse De Schutter à IPS.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o valor bruto da produção agrícola mundial é estimado em pouco mais de cinco trilhões de dólares, enquanto o Banco Mundial calcula que o valor agregado agrícola gira em torno de 3,2 trilhões de dólares.
O sistema alimentar mundial está avaliado em mais de oito trilhões de dólares, mas aqueles que produzem e comercializam os alimentos sobrevivem com salários miseráveis, o que exige uma mudança.
De Schutter identificou três desafios que se reforçam mutuamente: as lacunas na legislação atual, que não estabelece salário mínimo nem regula a jornada de trabalho; a aplicação deficiente da lei; e a dificuldade de organizar os trabalhadores em um contexto em que a atividade sindical é desencorajada ou até mesmo reprimida.
“Os governos costumam adotar a postura de que, quando os trabalhadores pertencem ao setor informal, a legislação trabalhista não se aplica e as inspeções do trabalho não têm qualquer papel a desempenhar”, afirmou, classificando essa situação como absurda.
“É como dizer que, se você não tem carteira de motorista, pode ignorar as normas de trânsito”, argumentou De Schutter.
De fato, acrescentou, “o direito internacional dos direitos humanos exige que a legislação trabalhista básica seja estendida aos trabalhadores do setor informal e que sejam oferecidos incentivos aos empregadores para que registrem seus trabalhadores, a fim de garantir que a informalidade não seja lucrativa e que, pelo contrário, a formalização seja recompensada”.
Exploração sistêmica
Para o copresidente do IPES-Food, “as condições de trabalho injustas, o trabalho informal e a falta de segurança básica no trabalho combinam-se para reforçar a vulnerabilidade dos trabalhadores”.
“Os governos facilitam diretamente esses abusos por meio de exceções legais que isentam explicitamente os trabalhadores agrícolas e do setor alimentício das proteções básicas em matéria de salários, segurança no local de trabalho e direitos sindicais”, detalhou.
O relatório destacou que, mesmo onde existem leis de proteção, a aplicação deficiente por parte das autoridades e o emprego informal generalizado deixam milhões de trabalhadores desprotegidos.
Os trabalhadores migrantes são essenciais para os sistemas alimentares atuais, mas enfrentam algumas das taxas mais elevadas de abusos trabalhistas, roubo de salários, trabalho forçado, lesões e mortes, segundo detalhou o relatório.
Condições cada vez piores
A esses abusos estruturais soma-se uma perigosa convergência de forças emergentes que está tornando o trabalho no setor alimentar cada vez mais perigoso e marcado pela exploração.
“As mudanças climáticas estão se transformando em uma crise dos direitos dos trabalhadores”, afirmou Mamadou Goïta, especialista do painel IPES-Food.
Os trabalhadores agrícolas, acrescentou, “já enfrentam salários de miséria, pesticidas tóxicos e condições extenuantes”. Para piorar, ressaltou, “agora, as mudanças climáticas estão aumentando a pressão e tornando o trabalho deles ainda mais perigoso”.
Goïta apontou que os governos continuavam sem garantir aos trabalhadores sequer proteções básicas e vitais, como sombra, descanso e água potável.
“As pessoas que produzem nossos alimentos não deveriam ter que arriscar sua saúde nem suas vidas para ganhar o sustento”, afirmou o especialista.
Os efeitos do calor extremo e da seca costumam ser medidos em termos de perdas de cultivos e colheitas.
No entanto, o relatório aponta que o custo humano para os 928 milhões de trabalhadores agrícolas do mundo também estava aumentando, sendo o calor extremo a ameaça à saúde mais comum enfrentada por esses trabalhadores.
As consequências dessas ameaças à saúde incluem tonturas, vômitos e exaustão devido a insolação e doenças renais. Nos Estados Unidos, os trabalhadores agrícolas tinham 35 vezes mais chances de morrer por estresse térmico do que outros trabalhadores.
As regiões agrícolas da África, das Américas e do sul da Europa enfrentam agora até 50 dias a mais de calor perigoso por ano em comparação com a década de 1970. Na África, 93% dos trabalhadores estavam expostos a calor perigoso – a maioria atuando em sistemas alimentares –, segundo o relatório.
O documento alertava que, enquanto as mudanças climáticas expunham os trabalhadores ao calor extremo, a fenômenos meteorológicos extremos e à fumaça tóxica de incêndios florestais, o poder corporativo reduzia salários, enfraquecia a negociação coletiva e transferia riscos para os trabalhadores, priorizando os lucros dos acionistas em detrimento do trabalho digno.
“Na vanguarda, as tecnologias digitais estão criando novas fronteiras de exploração: o trabalho em plataformas de ‘gig’ (trabalho temporário), a automação, a gestão algorítmica e a vigilância no local de trabalho estão isolando os trabalhadores, intensificando as pressões por produtividade, aumentando as taxas de lesões e corroendo o poder de negociação da categoria”, aponta o relatório.
Organizar-se ou agonizar
Mas os trabalhadores estão reagindo. Eles estão criando sindicatos e cooperativas, organizando greves, recorrendo à justiça por seus direitos e formando alianças para exigir normas trabalhistas abrangentes que reconheçam seu valor e dignidade.
O relatório mostra que normas trabalhistas abrangentes, salários dignos e o direito à negociação coletiva podem transformar a maior força de trabalho do mundo de vítimas mais invisíveis do sistema alimentar em um motor de resiliência.
O relatório enfatiza que, para alcançar uma transformação duradoura no setor de sistemas alimentares, é necessária uma mudança sólida nas políticas e no equilíbrio de poder em torno de cinco prioridades fundamentais.
Entre elas, inclui-se o fortalecimento do poder dos trabalhadores por meio do reforço dos sindicatos e da ampliação da negociação coletiva. Além disso, devem ser eliminadas as exceções legais para os trabalhadores dos setores alimentício e agrícola, e garantida a igualdade de direitos para os trabalhadores migrantes.
As políticas que criminalizam os migrantes devem ser eliminadas, ao mesmo tempo em que se devem desmantelar os sistemas de vistos vinculados ao empregador, para garantir a igualdade de direitos trabalhistas e proteções sociais, independentemente da situação migratória, aponta o relatório.
O documento também defende a limitação do poder corporativo, para que as empresas sejam responsabilizadas por abusos trabalhistas ao longo de suas cadeias de suprimentos.
“As pessoas que alimentam o mundo merecem um trabalho seguro, dignamente remunerado e digno”, afirma o relatório.
E acrescenta: “Os sistemas alimentares nunca devem depender de salários baixos, condições perigosas ou mão de obra invisível. Para alcançar isso, é necessário mudar quem detém o poder, quem se beneficia e quem arca com os custos”.
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