“Governo eleito terá de governar uma sociedade na qual uma parcela expressiva da população estará identificada com o campo derrotado”, pontua o filósofo
A cinco dias para as eleições, além das incertezas que marcam o pleito e das expectativas em torno da decisão majoritária, o que se observa é uma sociedade que tem “dificuldade de imaginar a política para além da ‘polarização’”, diz Wesley Sousa ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, nesta entrevista concedida por e-mail.
Segundo ele, se, de um lado, o interesse pela política continua mobilizando os eleitores, de outro, ele aumenta a insatisfação com a polarização. “Não se trata de despolitização pura e simples, mas de uma espécie de saturação diante de uma disputa política permanente. Além disso, a fadiga histórica se repete, com novos ares, em que eleitor chega a esta eleição depois de uma sequência de fatos recentes envolvendo o ‘caso banco Master’; mas, ao mesmo tempo, as preocupações concretas como segurança, inflação, saúde, emprego e custo de vida parecem mais próximas da experiência cotidiana do que as disputas institucionais entre lideranças políticas”, explica.
Para além da divisão entre petistas e bolsonaristas, o medo é, afirma Sousa, a disposição que tem movido as reações dos eleitores neste ano. “43% mencionaram temer de um novo governo Lula e 42% de um retorno da família Bolsonaro”, exemplifica, mencionando os dados da pesquisa Quaest deste mês.
A seguir, Wesley Sousa analisa como sociedade brasileira está reinterpretando a si mesma à luz das noções de liberdade, democracia e memória, mobilizadas pela esquerda e pela direita, reflete sobre as narrativas de futuro disputadas nas eleições e comenta as medidas anunciadas pelo presidente Lula na semana passada, como a proibição das bets e o reajuste de 15% no Programa Bolsa Família. “Eu interpretaria essas medidas como uma tentativa de responder, no curto prazo, a problemas sociais muito concretos que atingem a vida da população comum: o endividamento, a perda de renda, a vulnerabilidade econômica e a expansão das apostas sem romper com os limites institucionais e econômicos existentes. Ao mesmo tempo, é preciso evitar interpretar essas medidas como iniciativas de caráter eleitoral apenas, porque algumas medidas certamente não passariam no Congresso Nacional”, afirma. E complementa: “A questão política central é até que ponto medidas de compensação, proteção e regulação parcial conseguem enfrentar desigualdades cuja reprodução depende de estruturas econômicas mais profundas”.
Wesley Sousa é graduado em Filosofia pela Universidade Federal de São João Del-Rei e mestre na mesma área pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Cursa doutorado em Filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É membro da Associação Brasileira de Estética (ABRE) e dos grupos de pesquisa ARCO: Arte, crítica e pensamento contemporâneo e Modos de Presença nos Fenômenos Estéticos.
IHU – Ao comentar o processo eleitoral deste ano, o senhor mencionou um cenário que mistura incerteza, fadiga e letargia. Quais fatores explicam esse clima? Esses elementos se intensificaram às vésperas do pleito?
Wesley Sousa – Realmente, ao escrever o texto Os rumos da política, muito além das eleições, minha ideia era notar que, à primeira vista, o clima de incerteza, fadiga e letargia podia ser explicado pela combinação entre a política acumulada nos últimos anos e o desgaste provocado pela repetição dos mesmos conflitos aparentes.
Eu tinha visto em pesquisas recentes que o interesse pela política continua elevado, mas cresce também o desconforto com a “polarização”. Em outras palavras, não se trata de despolitização pura e simples, mas de uma espécie de saturação diante de uma disputa política permanente. Além disso, a fadiga histórica se repete, com novos ares, em que eleitor chega a esta eleição depois de uma sequência de fatos recentes envolvendo o “caso banco Master”; mas, ao mesmo tempo, as preocupações concretas como segurança, inflação, saúde, emprego e custo de vida parecem mais próximas da experiência cotidiana do que as disputas institucionais entre lideranças políticas.
Por isso, às vésperas do pleito, a letargia não deve ser confundida com apatia. Vejo que há uma combinação paradoxal de preocupação com o “outro” e desengajamento com os “seus”: o eleitor pode considerar a eleição decisiva e estar cansado da ação política, das redes sociais e do confronto político. O resultado é uma sociedade que chega às urnas politicamente mobilizada, mas exaurida pelas crises globais no cenário maior, com dificuldade de imaginar a política para além da “polarização”. Eu diria ainda que em muitos casos os votos para o âmbito legislativo são colocados à prova nas vésperas (senadores e deputados), então quem consegue mobilizar mais, ganha mais.
IHU – Quais projetos de sociedade e visões de futuro estão em disputa no cenário eleitoral deste ano?
Wesley Sousa – São dois projetos excludentes em jogo. Um deles visa preservar o que resta da Constituição de 1988, o outro resgata imaginários anterior a este. No campo de Lula, no mote da “defesa” das instituições, o projeto apresentado combina crescimento econômico com investimento público, políticas sociais, valorização do salário mínimo, “fim da escala 6x1”. Tudo isso é audível ao seu eleitor. O plano também propõe maior atuação do Estado em infraestrutura, indústria, saúde, educação e segurança. Mas como fazer isso um cenário global de crise?
No campo de Flávio Bolsonaro, o projeto enfatiza a redução do tamanho do Estado, a diminuição de impostos e uma política de segurança mais repressiva. Tudo isso também é audível ao seu eleitor. O plano propõe um novo teto de gastos, redução de ministérios e retomada de privatizações, além de mudanças na relação entre os Poderes e medidas mais duras contra “organizações criminosas”. Em termos mais amplos, trata-se de uma concepção de futuro que atribui maior importância à iniciativa privada, à autoridade e à “autonomia individual”.
Esse imaginário de disputa, entretanto, não se resume a uma oposição entre Estado e mercado. Trata-se de quem será mais palatável ao mercado, pois o Estado é subserviente a ele. Ao menos no que consigo ver, uma imagem de país criada simbólica e politicamente tem mais a ver com a capacidade de mobilizar insatisfações do que apresentar mudanças ao maior número de pessoas, como promulgava a mitologia do liberalismo. Por isso, talvez a questão mais profunda desta eleição seja a disputa entre diferentes concepções de qual Brasil deve ser construído e quem deve conduzir essa transformação. De um lado, aparece a defesa da “soberania” e um pacto social menos agressivo; de outro, uma visão que privilegia gerenciamento do ressentimento como base política ativa e a autoridade na segurança pública.
IHU – Como a sociedade brasileira está interpretando e reinterpretando a si mesma nesta eleição à luz das noções de liberdade, democracia e memória reivindicadas pelo petismo e pelo bolsonarismo?
Wesley Sousa – Essa pergunta é importante e permite colocar duas concepções de sociedade que, embora antagônicas, gravitam em torno daquilo que se viu de passado. Eu observaria que essas duas linguagens são definições pragmáticas de liberdade, ainda que sejam funcionais à reprodução social do capitalismo. Elas expressam, a meu ver, experiências diferentes: de um lado, a percepção de que a desigualdade econômica limita a liberdade; de outro, a percepção de que o Estado e as instituições podem limitar a autonomia individual.
O petismo constrói parte de sua memória política em torno da memória de inclusão social (expansão universitária, aumento do salário mínimo, por exemplo), redução relativa da pobreza e da resistência à experiência da ditadura. A trajetória de Lula, da pobreza e do sindicalismo à presidência, torna-se, nessa narrativa, uma espécie de síntese da possibilidade de ascensão política das classes populares. No campo petista, especialmente depois dos acontecimentos de 2016, da eleição de 2018, da prisão de Lula e dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, a memória democrática é mobilizada para enfatizar a defesa das instituições, do resultado eleitoral e do Estado de Direito. A democracia é apresentada como uma conquista histórica que precisa ser preservada diante de ameaças autoritárias. Apesar disso, a capacidade de mobilização social está reduzida em seus nichos verificáveis (parte da classe trabalhadora, classe média letrada e setores do sindicalismo).
No universo bolsonarista, por outro lado, a palavra democracia também é reivindicada, mas a partir da defesa de uma democracia entendida como ideia vaga de “liberdade de expressão”, acompanhada de críticas ao poder exercido pelo Judiciário e por outras instituições. O bolsonarismo, por sua vez, organiza sua memória em torno de outras experiências: anticomunismo tacanho, crítica à corrupção associada ao PT, valorização da ordem, segurança pública, noções de família, religião e uma determinada interpretação da ditadura militar de 1964-1985, reverberando na violência policial e no elã privatizador do Estado e mercado (setores da classe média conservadora, policiais e profissionais liberais – sobretudo caminhoneiros e pequenos empreendedores). Na campanha de 2026, Flávio Bolsonaro, por exemplo, passou a enfatizar democracia e independência da Polícia Federal ao mesmo tempo que mantém críticas ao STF, num momento em que seu grupo político tem se mostrado altamente organizado em seus crimes.
O que tem reverberado na sociedade, em suma, pode ser dito a partir da pesquisa Quaest divulgada em setembro de 2026. A pesquisa registrou que 92% dos entrevistados afirmaram sentir medo diante da possibilidade de um futuro governo, revelando como a disputa eleitoral está carregada de apreensão e recusa. Na mesma pesquisa, há dados que apontam que 43% mencionaram temer de um novo governo Lula e 42% de um retorno da família Bolsonaro. O dado não permite concluir que o eleitorado esteja dividido em dois blocos homogêneos, mas mostra como a eleição é experimentada também como uma disputa sobre qual futuro deve ser evitado. Como disse o filósofo Paulo Arantes, quando Lula foi eleito em 2022, que se ele “barrasse o avanço do bolsonarismo” já seria uma “conquista”.
IHU – Em artigo recente, você mencionou a tese da cientista política Ellen Meiksins Wood, segundo a qual a ampliação da igualdade política não eliminou as graves desigualdades econômicas. Como esse cenário afeta o cotidiano das pessoas e a forma como elas enxergam a política e a democracia?
Wesley Sousa – O argumento de Ellen Wood é muito pertinente. Um caso particular, e que me veio à cabeça agora, é que nos Estados Unidos, por exemplo, está dito lá na Tese 10 dos Federalistas, em texto escrito por Madison: os Estados Unidos não é um país cujo princípio é a democracia – ao menos no sentido como a concebemos. O que Madison e seus confrades deixaram explícito é que, antes de tudo, o país tem como um de seus princípios o republicanismo, e não uma democracia per si. Então, não se trata de “superar” a democracia, mas de deixar claro que a democracia só é possível no socialismo, porque, numa sociedade dividida em classes sociais, a forma política é parte de uma estrutura que vai não apenas incorporar, mas balizar seu funcionamento a partir da circulação de mercadorias, e não da igualdade social.
Então, temos uma formulação útil em torno da discussão sobre democracia. Segundo Ellen Wood, os direitos civis asseguram ao indivíduo uma esfera de liberdade e igualdade jurídica; os direitos políticos asseguram sua participação na formação e no exercício do poder político. Wood, contudo, interpela que a existência desses direitos, embora fundamental, não elimina as desigualdades econômicas e sociais, inclusive podendo intensificá-las. Assim, alguém pode ser juridicamente livre, ter direitos políticos e, ao mesmo tempo, não conseguir exercê-los sob as condições concretas de sua própria vida.
Isso não é apenas aparente. Na relação entre trabalho e sobrevivência, o trabalhador assalariado pode ter direitos civis e políticos, mas precisa encontrar emprego, receber um salário e submeter-se às condições estabelecidas pelo mercado e pela organização capitalista da produção (quando não em regimes de escravidão, que já foi, sabemos, uma instituição sólida). A decisão sobre investimento, contratação, demissão, ritmo de trabalho, jornada de trabalho, ou utilização dos recursos produtivos não é, em regra, objeto de deliberação democrática. Ao contrário, Wood destaca, à luz de rigorosa análise, esse aspecto: uma parcela decisiva da vida permanece submetida aos imperativos da competição, da acumulação e sobrevivência (imperativos do capitalismo), isto é, a mecanismos que escapam ao controle democrático direto.
O problema é identificar essa democracia política com a democracia em sentido substantivo. Isso interfere diretamente na vida das pessoas, pois a separação entre a esfera política e a esfera econômica é, forçando um pouco, o pilar daquilo que Marx chamou de “alienação”. Esse alheamento entre indivíduo e a atividade sensível reproduz uma dominação abstrata: a produção de mercadorias para o “mercado” e para acumulação privada (e não social) de riqueza.
Enfim, é essa separação que Wood desmonta em sua radical crítica. O capitalismo produz uma esfera econômica independente da política e uma esfera política na qual os indivíduos aparecem como cidadãos formalmente iguais. Assim, a ideia de que a responsabilidade de crises sociais, ambientais e da vida psíquica é parte da sorte que cada um tem ou deixou de ter; daí que a consequência é a desigualdade econômica dominada pela “reificação” (coisificação) das relações sociais no interior da ordem do regime da propriedade privada dos meios de produção. Por isso, uma efetiva democracia, que realmente possa importar enquanto objeto de deliberação das pessoas, é apenas possível no socialismo.
IHU – Quais os possíveis reflexos e impactos dos escândalos envolvendo elites econômicas, parlamentares e ministros do STF no processo eleitoral?
Wesley Sousa – Os escândalos envolvendo elites econômicas, parlamentares e ministros do STF podem produzir efeitos eleitorais, mas não no sentido de “inviabilizar” quem deve ou não vencer. Salvo o caso de quem não é “beneficiado”. Digo isso, pois, no centro da campanha, a questão da relação entre poder econômico, poder político e instituições de controle pode até colocar em rota de colisão algumas compreensões eleitorais. A imprensa tem destacado que tanto a campanha de Lula quanto a de Flávio Bolsonaro foram obrigadas a administrar os efeitos de investigações envolvendo pessoas próximas aos dois campos.
Um primeiro impacto possível é o aumento da “desconfiança nas instituições”. A retórica da direita sobre os “intocáveis do STF”, como disse Romeu Zema, toma contornos de questionamentos, mas seus fundamentos são outros: trata-se, em suma, como foi o caso da tentativa de golpe no “8 de janeiro de 2023”, de inocentar golpistas e tratar as instituições como propriedades extensivas das elites do poder econômico, para retomar a dicção de Raymundo Faoro, em Os donos do poder.
Agora, um segundo efeito é a “politização das denúncias”. Os escândalos deixam de ser apenas questões judiciais e passam a ser incorporados às estratégias das campanhas. Flávio Bolsonaro, por exemplo, transformou a crise envolvendo o STF e o Banco Master em um dos principais temas de sua campanha... para atacar Lula. Ao mesmo tempo, sua própria relação com Daniel Vorcaro, investigada no contexto do financiamento do filme Dark Horse, tornou-se objeto de questionamentos de adversários. Essa dinâmica cria uma situação em que cada denúncia pode ser instrumento de ataque e fonte de vulnerabilidade para quem a utiliza. O que fica patente é o bode expiatório que a retórica consegue manejar para manter sua base eleitoral ativa e, claro, fazendo o jogo de que o “PT é a corrupção”.
A crise do STF, as investigações sobre emendas parlamentares e os casos envolvendo empresários e políticos tendem a reforçar a sensação de que as fronteiras entre dinheiro, política e Justiça estão sob permanente tensão, mas é funcional: a corrupção é algo inerente às formas assimétricas de organização social. A corrupção pode servir de “cortina de fumaça” ao que realmente deveria ser o central: quais as razões fundamentais dessas “trocas de favores” que envolve tráfico de influências e a compra midiática de quem deve ou não ser investigado e sob que circunstâncias? A quem interessa esses escândalos que, cada vez mais, não resultam em grandes impactos eleitorais? Convém lembrar que no próximo mandato presidencial haverá quatro indicações de novos nomes para o STF – algo que, para o bolsonarismo, é crucial para seu projeto político de aparelhamento institucional.
Acho que as respostas não são automáticas quando colocadas à mesa: elas dependem da capacidade das pessoas interpretaram e de transformarem esses acontecimentos em narrativas compreensíveis de eleitor para eleitor; ainda, da maneira como diferentes grupos interpretam as mesmas denúncias. O resultado pode ser tanto maior cobrança por transparência e responsabilização quanto um aprofundamento da desconfiança em relação ao sistema político, beneficiando então quem está no centro das acusações.
IHU – O presidente Lula anunciou algumas medidas na reta final do período eleitoral: lançamento do Desenrola 3.0, proibição das bets, reajuste de 15% no Bolsa Família e a compra de dívidas das instituições financeiras via leilões, com descontos de 90%. Como interpreta essas propostas no atual momento político? Essas medidas se enquadram no que você chama de “administração do possível”, à luz da teoria de Ellen Meiksins Wood?
Wesley Sousa – Eu interpretaria essas medidas como uma tentativa de responder, no curto prazo, a problemas sociais muito concretos que atingem a vida da população comum: o endividamento, a perda de renda, a vulnerabilidade econômica e a expansão das apostas sem romper com os limites institucionais e econômicos existentes. Brinquei com pessoas próximas que, em 2023, o aumento dito por Lula em campanha sobre as bolsas de pós-graduação era “dinheiro de pinga” e que seria feito. Nos primeiros meses de 2023 veio o reajuste das bolsas de pesquisa...
É nesse sentido que eu aproximaria essas iniciativas daquilo que chamei de “administração do possível”. Inspirado em Ellen Wood, não se trata de uma transformação das relações estruturais que produzem desigualdade, mas de uma ação do Estado dentro dos limites da economia capitalista. Claro, o capitalismo é um trem descarrilhado; ainda que um governo com um olhar social procure aliviar os efeitos da desigualdade, reduzindo o peso das dívidas, ampliando a renda dos beneficiários e restringindo um mercado danoso, isso não resulta em alterar as relações de propriedade, trabalho e acumulação. A própria ideia de Wood sobre a separação entre o econômico e o político ajuda a compreender essa tensão: a política pode intervir sobre os efeitos da economia sem controlar as relações econômicas que estão na sua origem.
Ao mesmo tempo, é preciso evitar interpretar essas medidas como iniciativas de caráter eleitoral apenas, porque algumas medidas certamente não passariam no Congresso Nacional. Aqui vale mencionar algo fundamental: o lulismo pode ser criticado pela maneira que, ao longo dos anos, dirimiu os conflitos de classe em tornos de contextos eleitorais, em busca de votos e base de influência, e não na capacidade de organização das carências e reivindicações legítimas dos mais vulneráveis (estes os mais fiéis em votos). Isso tem um efeito e custo político sério em longo prazo.
Por outro lado, o timing político é relevante nessas medidas: o reajuste foi anunciado menos de 20 dias antes do primeiro turno, e o Desenrola 3.0 e a proibição das bets (como Medida provisória) foram apresentados nove dias antes da votação. A proibição das bets acrescenta outra dimensão à estratégia. Ela desloca o discurso governamental da simples transferência de renda para a proteção da renda popular, apresentando as apostas como um mecanismo que compromete recursos das famílias e produz consequências sociais e sanitárias. Claro, isso é mais que legítimo, até porque foi no governo Bolsonaro (2018-2022) que o Banco Master e as bets foram introjetadas, cada qual a seu modo, na vida brasileira. Assim, o governo Lula procura ocupar um espaço político no qual a defesa da intervenção estatal aparece associada não apenas à redistribuição, mas também à regulação de mercados considerados prejudiciais à população.
Por isso, diria que essas iniciativas expressam a ambiguidade da “administração do possível”. A questão política central é até que ponto medidas de compensação, proteção e regulação parcial conseguem enfrentar desigualdades cuja reprodução depende de estruturas econômicas mais profundas. Na reta final da eleição, essa contradição ganha uma dimensão adicional: políticas concretas destinadas a responder a problemas reais da população tornam-se também parte da disputa pela interpretação do próprio governo e de seu projeto de futuro.
IHU – Que futuro vislumbra para o país num possível governo Lula 4 ou Flávio Bolsonaro?
Wesley Sousa – Em um eventual “Lula 4”, sinceramente, se não sofrer um golpe direto ou indireto de Trump já estaremos bem! Não quero ser pessimista, mas é complicado falar em “soberania” e “democracia” (mesmo formalmente) quando nosso país é açoitado pela mídia corporativa, pelo imperialismo e pelas instâncias sociais de violência e ideologias reacionárias, a ver como estão todos os nossos vizinhos latinos, exceto o Uruguai.
Falando do programa de Lula, ele prevê a complicada conciliação entre manutenção do arcabouço fiscal com os investimentos públicos e as políticas de desenvolvimento produtivo. Trata-se, porém, de uma interpretação do projeto político, e não de uma garantia sobre seus resultados. Por outro lado, um eventual governo Flávio Bolsonaro, por sua vez, representaria uma mudança de orientação em áreas importantes, inclusive ideológica. A começar pelo apoio de Trump, no sentido de entregar nossas riquezas ao capital estrangeiro, enquanto é ajustado no combate ao “inimigo interno”.
Há, contudo, um elemento que ultrapassa a diferença entre os dois projetos. As pesquisas mais recentes mostram uma disputa muito estreita entre Lula e Flávio, com diferenças dentro ou próximas das margens de erro em diversos cenários. Mas isso significa que qualquer governo eleito terá de governar uma sociedade na qual uma parcela expressiva da população estará identificada com o campo derrotado. O problema da governabilidade não será apenas econômico ou institucional, mas também cultural: será necessário reconstruir formas de resistir ao “adversário político”, compreender que um “adversário legítimo”, do ponto de vista formal, tomará as instituições. Basta fazer um breve “comparativo” de 2018 com 2022, ficará claro quem tem a visão golpista de mundo.
Nesse sentido, o futuro brasileiro talvez dependa menos da simples vitória de um dos dois projetos do que da capacidade de recompor a própria ideia de espaço público. O PT nasceu como um partido de classe-média e média-baixa urbana, apostando na administração do Estado para política de inclusão social; o bolsonarismo, em sua via, é a rearticulação ideológica em torno de um programa autoritário, vinculado aos interesses estrangeiros, internamente ligado às heranças dos anos militares.
Assim, o futuro do país, seja qual for, teremos que apostar na formação crítica e na recuperação da capacidade de julgamento como antídotos à desinformação e à intolerância de qualquer natureza. Esse diagnóstico penso ser relevante, porque a disputa atual não ocorre apenas entre programas econômicos ou administrativos, mas também entre diferentes maneiras de compreender liberdade, autoridade, democracia, verdade e convivência social. Em resumo, em um futuro governo Flávio Bolsonaro, tais compreensões ficarão cada vez mais reduzidas, visto que sua base é mais virulenta em suas bandeiras “conservadoras”.
IHU – Como superar a polarização política e ideológica e avançar na construção de um projeto de país que favoreça o bem comum?
Wesley Sousa – Em Homens livres na ordem escravocrata [1969], a socióloga Maria Sylvia de Carvalho Franco – infelizmente nos deixou há poucos dias – demonstrou que a sociedade brasileira do século XIX não podia ser explicada a partir de uma oposição simples entre senhores e escravos. Entre esses polos existia uma ampla camada de homens livres pobres cuja sobrevivência dependia de relações pessoais de “proteção”, “dependência” e “favor”. Dessa forma, o elemento do favor aparecia não como resíduo arcaico ou sobrevivência pré-capitalista, mas como mecanismo constitutivo da dinâmica de uma modernização conservadora. Digo isso porque as formas de dominação política e econômica se reproduzem de maneiras diversas mantendo seus fundamentos, influindo no que o país veio a ser no modelo republicano. E, no meu entender, ajuda a explicar o presente, como horizonte de interpretação.
O ponto decisivo aqui não seria apenas quem ocupará o Palácio do Planalto, no sentido da rotatividade eleitoral como em si “saudável” à democracia. É preciso dar outro sentido às liberdades democráticas. Assim, entre Lula 4 e Flávio Bolsonaro, estariam em disputa também duas maneiras de responder à crise de expectativas da sociedade brasileira. Na minha opinião, nenhuma força política se sustenta apenas pelo medo ou pelo ressentimento.
A extrema-direita, representada por Flávio Bolsonaro, é um risco à própria formalidade democrática; ela pode manter uma base social importante mesmo quando seu programa econômico não produz resultados expressivos porque consegue transformar frustrações econômicas em conflitos morais e culturais. Para a centro-esquerda, isso significa que políticas sociais e administração econômica são necessárias, mas talvez insuficientes: seria preciso reconstruir uma narrativa de desenvolvimento capaz de transformar novamente a ideia de igualdade em uma expectativa concreta de futuro.
É nesse terreno que a eleição pode ultrapassar a simples alternância de governos e se tornar uma disputa sobre o próprio futuro do país. Assim como o lulismo capturou a imagem mobilizadora para gestão de classe colocando-o em política de governo, o bolsonarismo é a radicalização autoritária que ficou à espreita na Constituição de 1988, apostando na violência um modo de gerir a política das insatisfações.
O Brasil de 2026 está diante de uma encruzilhada histórica. Aqui, vale enfatizar: a rigor, a polarização não é um problema em si, mas a incerteza que dela decorre gera uma dificuldade de visualizar um futuro desejável. Lembrando Rousseau, grosso modo, a fraqueza em manter-se apático, na escravidão (moral e política), nunca fizera nada além de pessoas conformadas à vileza e à corrosão do próprio caráter, pois o exercício da “vontade geral” não é um exercício da maioria, mas um exercício deliberativo entre partes em desacordo (diferente da simples soma das vontades individuais, volonté de tous).
Nesse sentido, o bem comum não é a ausência de conflito, mas a construção de caminhos e instituições que permitam à sociedade entender seus conflitos, porque o que existe é a “democracia brasileira”, com sua história de escravidão, autoritarismo, desigualdade e exclusão. Assim, não existe saída individual ou apenas parcial. O horizonte é de criar uma outra experiência social compartilhável.
IHU – Deseja acrescentar algo?
Wesley Sousa – Acrescentaria apenas que, para além das eleições, é preciso manter acesa a ideia de que o pensamento crítico e histórico é condição fundamental para a formação de sujeitos capazes de compreender a realidade não como uma realidade natural, imutável ou exterior à ação humana, mas como uma forma histórica de organização da vida social. É preciso dizer que boa parte dos jovens está cada vez mais desiludida com a ideia de que a ascensão social de gerações anteriores agora não é direta e nem sempre possível. E essa percepção recoloca o problema de que o fracasso individual pode virar ressentimento político, como um de seus efeitos.
Somado a isso, a nova configuração global de governos e ideários reacionários (redpills, “cultura woke” etc.) ressignificam noções de ideologia, classe social, liberdade e autonomia. Assim, não surpreende que o aspecto mais popular e atraente da “revolução digital” seja a mídia social. Mas as mídias são entes privados que operam pelo “público”. Somos o produto delas, ou seja, antes de nos relacionar enquanto pessoas, nós nos relacionamos enquanto mercadorias e somos mercantilizados na mesma intensidade, pois somos “partes dela”.
Por essa razão, as mídias sociais digitais invadem como cavalos de Troia e remodelam nossa maneira de vivenciar o mundo, já que elas têm como corolário as agudizações das forças produtivas. As novas gerações crescem imersas às conectividades virtuais, e delas são forjadas as identidades, aptidões, desejos e sentimentos. Os contornos políticos, quais sejam, têm partido dessa colonização digital da política. Isso é um problema mais amplo, e não apenas de conjuntura política imediata.